A campanha presidencial ou a arte de falar sem dizer (quase) nada

  • Edson Athayde
  • 12 Janeiro 2026

Em campanhas presidenciais, a primeira volta é muitas vezes a fase dos ensaios. O espetáculo a sério começa quando os dois que ganharam o direto de seguir perceberem que, afinal, podem tudo perder.

Há campanhas eleitorais que se decidem por ideias. Outras por biografias. E depois há aquelas (como a presidencial que agora atravessa Portugal) que se decidem sobretudo por quem comunica melhor no teatro permanente da atenção. Não é que as propostas não existam. É só que, nesta fase, o eleitor ainda está a escolher… personagens.

E nesta primeira etapa, se o prémio fosse para comunicação política, os vencedores provisórios parecem claros: Seguro e Cotrim. Cada um no seu registo, ambos perceberam o essencial: numa campanha moderna, o conteúdo é importante, mas o tom é decisivo.

António José Seguro entrou com a vantagem rara de quem não precisa de provar que é sério, o seu passado fala por si. Seguro expressa-se de forma pausada, com frases completas, sem soundbites forçados. É o candidato que parece estar sempre em modo “discurso de posse”, mesmo quando só está a cumprimentar uma senhora no mercado. Num tempo de excesso de ruído, o seu maior trunfo é… o silêncio entre as palavras. Comunicação minimalista. Quase zen. Curiosamente eficaz. Misturada com momentos em que parece estar genuinamente a curtir.

Já João Cotrim faz o oposto, mas com igual inteligência. É o candidato que comunica como quem explica um PowerPoint: direto, claro, frases curtas, humor seco. Não tenta ser popular (e isso torna-o estranhamente popular). Parece ter lido o manual moderno: não gritar, não prometer mundos, não fingir proximidade artificial. Resultado: cresce em credibilidade.

Marques Mendes é o candidato que parece estar permanentemente em comentário pós-jogo. Fala como quem analisa… a própria campanha. Tem experiência, tem conhecimento, tem memória institucional, mas na comunicação atual isso não chega. O eleitor quer sentir presença. E Mendes continua a comunicar como quem fala para um auditório que já saiu da sala.

Gouveia de Melo, por sua vez, entrou com aura épica: o homem que vacinou o país. Só que a aura não se transforma automaticamente em narrativa política. Até agora, comunica como um comandante que foi colocado num debate parlamentar por engano. Disciplina, firmeza, autoridade, tudo muito útil num navio. Menos eficaz num país onde o eleitor quer proximidade, nuance e, às vezes, até um sorriso.

E depois há Ventura.

Ventura é um caso à parte. Não ganha muito nesta fase, mas também não perde. O seu eleitorado já está galvanizado, fidelizado, quase em modo automático. Ele não tenta conquistar novos públicos, quer apenas não desmobilizar os seus. E nisso é competente. Comunicação repetitiva, emocional, previsível, mas funcional. É o relógio que marca sempre a mesma hora, e o público que gosta dessa hora volta lá todos os dias.

Assim, até agora, a campanha parece menos uma corrida de ideias e mais uma prova de entonações, ritmo e registo vocal. Quem encontrou a música certa, avança.

Mas ainda é cedo. Em campanhas presidenciais portuguesas, a primeira volta é muitas vezes a fase dos ensaios. O espetáculo a sério começa quando os dois que ganharam o direto de seguir perceberem que, afinal, podem tudo perder.

Ou como diria o meu Tio Olavo: “A política é como uma nuvem no céu. Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou”.

  • Edson Athayde
  • CEO e CCO da FCB Lisboa

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