A coragem de ser vulnerável
Faço votos para que se abrace mais a vulnerabilidade. Que se lhe dê carinho. Não é fraqueza; é maturidade. Mas também não lhe dar demasiada importância para que ela não ocupe demasiado espaço.
Ao ler o livro “A Coragem de Ser Imperfeito”, de Brené Brown, deparei-me com um: “Detesto ser vulnerável.” E eu pensei sem pensar (se é que isto faz sentido): Também eu! Pensando um pouco mais, reconheci: não adoro, mas faz parte. E até tem coisas boas. Esta última já só admito depois de pensar muito e de puxar pelo meu lado otimista.
Nessa deliciosa conversa entre autora e psicóloga, Brown diz que é quando tem medo que se sente mais vulnerável. Curiosamente, e aqui não pensei logo assim, é claro que também luto com vulnerabilidades emocionais relacionadas com o medo: medo de não estar à altura, de não ser compreendida, do confronto, de parecer ingrata, entre muitas outras coisas. Mas onde me sinto verdadeiramente vulnerável é na gestão de certas emoções, que quando menos espero, decidem desarrumar o meu equilíbrio interno.
A poderosa arma que pode mudar o mundo, além da educação, é a comunicação. E a malandra da vulnerabilidade, às vezes, baralha-me a forma de comunicar e, pior, a forma de estar.
O mundo está a mudar, e há ideias que têm mesmo de ser desconstruídas, por exemplo:
- Um homem não chora. Chora, sim.
- E um líder também não. Chora, sim.
- Entre marido e mulher ninguém mete a colher. Mete, sim.
Evidentemente, não é por dá cá aquela palha, é quando há necessidade de o fazer.
Ainda nesse diálogo entre paciente e psicóloga do livro, há um conselho que vou levar: Pense menos. Sinta mais.
A vulnerabilidade não é uma fraqueza; e a incerteza, o risco e a exposição emocional que enfrentamos diariamente não são opcionais. A única escolha que temos é o grau de empenho com que nos comprometemos com a nossa própria vulnerabilidade, porque determina a dimensão da nossa coragem e a clareza do nosso propósito.
O contrário também é verdade: quanto mais nos protegemos da vulnerabilidade, maior é o medo e a desconexão que criamos.
E quando insistimos em ser líderes imaculados, à prova de bala, acabamos por sacrificar relações e oportunidades. Desperdiçamos tempo e aprendizagens. Viver a achar que somos os reis da cocada e infalíveis é tentador, mas não vai acontecer.
Devemos estar preparados para mandar algumas ao lado e aprender com isso. Aceitar e crescer com isso é ter bold ambition. Isto é ousar ser melhor. Eu sei que, como líderes, temos de passar confiança. Mas ela também se conquista ao ser-se vulnerável. Temos de fazer das tripas coração quando surgem embates.
Penso sempre na hospedeira. Se ela está firme e hirta quando o avião abana, eu também fico. Se ela pestaneja, já me treme o olho. Como líderes, sabemos que calibramos o nervosómetro dos outros, o que não significa que não t(r)ememos.
E a propósito do ouro ter ultrapassado o euro, tornando este último mais vulnerável, António Vitorino comentou algo como: “investigue-se a vulnerabilidade”. Traduzindo: estudasse(s)-la. Acho mesmo importante, e enquanto não tenho mais estudos para isto, vou-me sentindo vulnerável, uns dias mais que outros, e aceitando-a. E a vulnerabilidade, em doses controladas, é uma boa companhia.
Eu tenho uma vulnerabilidade particularmente visível: a extraordinária capacidade de trocar os nomes todos. Começo pelas minhas filhas, pela equipa, por apelidos, por designações, o que seja. Não sei que nome isto tem; e é um défice cognitivo embaraçoso e, às vezes, indomável. Quem me conhece, já nem trava. Faz aquele gesto empático de “vou deixar passar porque percebi o que ela queria dizer”, ou questiona só para garantir que estou no caminho certo, ou como ato de generosidade, que eu aprecio, chama-me a atenção quando estou sozinha na sala.
Um líder também se engana. Também é chamado à atenção. E, sim, também chora. Eu faço isto tudo. E tenho sobretudo pessoas que aceitam isso e não julgam. A coragem de ser vulnerável, imperfeito, ou diabo a sete, faz parte. Talvez “coragem” seja um termo pretensioso. Não acho que seja coragem; acho que não há volta a dar. Somos vulneráveis. Todos. Uns mais que outros.
Numa era em que tudo muda rápido, a liderança não exige infalibilidade; exige humildade intelectual. A capacidade de admitir que não se sabe tudo, que se falha, que se aprende. É isso que constrói credibilidade. É isso que gera confiança. É isso que permite que uma equipa pense melhor, discuta melhor e cresça melhor.
Faço votos para que se abrace mais a vulnerabilidade. Que se lhe dê carinho. Não é fraqueza; é maturidade. Mas também não lhe dar demasiada importância para que ela não ocupe demasiado espaço.
A vulnerabilidade é como o medo: o problema não é tê-la, é o que fazemos com ela. Boas Festas.
*Este texto foi revisto e editado com o apoio do ChatGPT, respeitando o estilo e a ortografia definidos pela autora.
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