Breve manifesto em defesa dos boys & girls

  • Vitor Cunha
  • 10:41

A perseguição aos jotas afastou pessoas com talento, sem paciência para títulos insidiosos e com melhores coisas para fazer na vida.

Nestes tempos plúmbeos, húmidos e frios e em que o desespero de quem muito perdeu atinge proporções bíblicas, o Manifesto é arma do possível. Temos visto manifestos criados por razões atendíveis e, porventura, válidas (por exemplo quando não-socialistas apoiam socialistas, numa demonstração de sobrevivência do centro político) e temos visto outros mais tolos (como o Contrassexual, ou até como este que aqui lanço hoje, e que passo a explicar).

A ministra da Administração Interna (mulher de leis famosa e com reconhecimento académico) tem uma longa experiência como juíza, professora e provedora de Justiça, mas provavelmente nunca exerceu funções verdadeiramente executivas — nem na própria casa terá alguma vez lidado com uma breve inundação causada pelo vizinho do 4º esquerdo.

Lúcia Amaral é uma mulher brilhante sem jeito para um lugar difícil, não porque a Administração Interna seja ciência do impossível, mas apenas porque nunca foi treinada para o lugar.

Como é que se treina alguém para poder ser ministro?

— Com tempo, muitas milhas ao volante e, já agora, que o candidato queira muito. A nossa MAI parece querer, mas não parece amar o lugar e, definitivamente, a academia da vida preparou-a para outras atividades, mas não para esta.

Sou do tempo em que muito se criticava o carreirismo nas “jotas”, nos partidos e nos gabinetes. A juventudes partidárias eram escolas do crime, dizia-se. A atividade escolar prosseguia nos partidos, nas concelhias, nas distritais, nos órgãos nacionais; os mais dotados ascendiam ao mestrado quando chegavam aos gabinetes das câmaras ou das secretarias de Estado.

O caminho de aprendiz a Mestre, de Mestre a Cavaleiro do Sol, até ao pico, o grau 33, impunha esforço, alguma leitura, e um certo jeito para a facada nas costas. Era esse percurso implacável que os habilitava para, num certo dia, saberem enfrentar Kristin, Leonardo e Marta.

O purismo populista de O Independente ou do CM são pais da calamidade vigente. A perseguição aos jotas afastou pessoas com talento, sem paciência para títulos insidiosos e com melhores coisas para fazer na vida.

O efeito sente-se em toda a cadeia alimentar. Hoje só percorre o caminho das trevas quem gosta muito, ou quem precisa muito. Manifestamente, os primeiros são insuficientes para se constituir um governo, e os segundos não passam no teste mais elementar de seriedade, aka pilha galinhas.

Perante este quadro, percebe-se a validade do apelo: voltem boys & girls, voltem as jotas minadas por ambiciosos com talento, voltem e preparem-se para servir a pátria. A deformação profissional atinente é tema menor face ao conhecimento acumulado que nos podem trazer, seja na gestão de crises, seja no dia-a-dia de muitos ministérios, hoje ocupados por pessoas bem-intencionadas, mas destituídas da mater de todas as cousas, a experiência.

  • Vitor Cunha
  • CEO da Kreab Portugal

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