Portugal tem medo do sucesso

  • Ricardo Rodrigues
  • 12 Fevereiro 2026

Comunicar não é vaidade. É estratégia. As empresas que partilham o seu percurso ganham reputação, atraem talento, reforçam a confiança dos clientes e criam vantagem competitiva.

Há em Portugal uma estranha fobia ao sucesso. Empresas sólidas, líderes competentes e setores altamente competitivos continuam a esconder o que fazem bem — como se comunicar fosse um risco, e não uma vantagem. As justificações são sempre as mesmas:

“Não nos podemos expor.”

“A concorrência vai saber.”

“O segredo é a alma do negócio.”

Mas esse medo de comunicar tem um custo real: reduz a projeção do país, limita o reconhecimento das empresas e abafa histórias de mérito que deviam inspirar. Se já somos pequenos, o silêncio torna-nos invisíveis.

Veja-se a metalomecânica, um dos setores mais fortes e exportadores da economia portuguesa, com empresas a produzir para a indústria automóvel, aeronáutica e energética mundial. Poucos sabem quem são. Não porque falhem — mas porque não comunicam. O mesmo acontece com a indústria têxtil, que lidera em inovação sustentável e design técnico, mas que ainda comunica pouco o salto tecnológico que deu na última década. Na construção e engenharia, temos grupos portugueses a erguer hospitais em África, data centers na Europa e infraestruturas de referência, mas que continuam fora do radar mediático. Até a agroindústria, setor de enorme competência e investimento, mantêm um perfil discreto, quase clandestino, como se a visibilidade fosse uma ameaça à eficiência.

É o velho medo de “mostrar-se”. Mas o resultado é um país que produz, exporta e inova — sem ser reconhecido por isso. O silêncio não protege o negócio, limita o seu impacto.

E essa reserva cultural, essa prudência quase genética, trava o crescimento económico tanto quanto a burocracia ou a carga fiscal.

Comunicar não é vaidade. É estratégia. As empresas que partilham o seu percurso ganham reputação, atraem talento, reforçam a confiança dos clientes e criam vantagem competitiva. A comunicação não serve para “fazer barulho” — serve para criar valor.

O segredo é, sim, a alma do negócio — mas só até o negócio acontecer. Depois disso, o segredo deve transformar-se em exemplo, em narrativa, em orgulho partilhado. Portugal precisa de perder o medo de brilhar. Deixar de se esconder atrás da prudência e começar a usar a comunicação como instrumento de crescimento e de país.

Porque o verdadeiro risco, hoje, não é expor-se. É continuar calado.

  • Ricardo Rodrigues
  • CEO da Pressmedia

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