Presidenciais: uma trapalhada na comunicação

  • Rodrigo Almeida Fernandes
  • 11:52

A campanha transformou-se num espelho do nosso tempo político: muito barulho, pouca substância e uma comunicação que, em vez de esclarecer, confunde. O maior risco não é quem vence, mas a banalização.

Podemos concluir, ao chegar ao final da campanha para as eleições presidenciais em Portugal, que esta se transformou num exercício coletivo de ruído, onde quase tudo se diz e faz, e muito pouco se explica. Foram largas semanas, além destas duas últimas de campanha, nas quais pudemos assistir a uma trapalhada de comunicação, em que todos candidatos se atropelam e poucos parecem compreender o verdadeiro papel de um Presidente da República, distinguindo esse mesmo papel do de um primeiro-ministro. O resultado é uma campanha atropelada, incoerente embora, sobretudo, reveladora sobre os perfis que temos pela frente.

O caso de Cotrim Figueiredo é talvez o mais ilustrativo de como a comunicação pode descarrilar quando não há um fio condutor claro. Entre ensaios de estadista, comentários de conjuntura e recuos táticos, a mensagem perde-se. Falta foco no essencial. Ao tentar estar em vários tabuleiros ao mesmo tempo, acaba por não dominar nenhum. A última semana sintetiza bem a desorientação entre as acusações de assédio, que abrem as portas a dúvidas quanto à sua integridade, e a carta dirigida a Luís Montenegro, que mais parece um ajuste de contas com o início da campanha e toda a confusão que houve com o Luís Marques Mendes e os pedidos de desistência. A sucessão de explicações, silêncios e tomadas de posição avulsas criou a perceção de improviso e falta de controlo.

Do outro lado, André Ventura surpreende não pelo excesso, mas pela mudança. A sua comunicação, habitualmente marcada pelo confronto direto e pela provocação constante, surge agora domesticada, quase institucional. A moderação súbita só confirma a grande capacidade de ir apelando aos seus públicos dando-lhes exatamente aquilo que querem ouvir e como querem ouvir. Claro que, do ponto de vista formal, a incoerência entre o histórico e o registo atual cria desconfiança e enfraquece a credibilidade da mensagem. Mas diria que, quanto a isto, já estamos habituados.

A campanha de Luís Marques Mendes, que arrancou bem, rapidamente ficou marcada pelas dúvidas persistentes sobre o seu percurso profissional e a perceção de proximidade excessiva a interesses privados, alimentando a ideia de que poderia atuar mais como lobista do que como magistrado de influência ao serviço do interesse público. Essas suspeitas, nunca verdadeiramente desmontadas com uma sólida estratégia de comunicação, foram determinantes para a descida de posição nas sondagens e para o enfraquecimento do seu capital político. A narrativa adotada, sempre cautelosa e formalmente ponderada, revelou-se, contudo, fraca na substância explicativa e claramente insuficiente na reposição da confiança quanto à sua integridade e independência. Ao optar por respostas técnicas e defensivas, evitou o confronto direto com a desconfiança instalada, deixando a sensação de que faltou transparência emocional e política num momento em que o eleitorado exigia clareza absoluta.

Já o Almirante Gouveia e Melo confirma aquilo que muitos receavam: notoriedade não é sinónimo de perfil político. A comunicação assente na autoridade técnica e na disciplina hierárquica revelou-se eficaz em contexto de crise sanitária, mas mostra claras limitações numa campanha presidencial. Falta-lhe empatia política, flexibilidade discursiva e, acima de tudo, uma narrativa democrática que vá além da lógica de comando. A Presidência exige escuta, não ordens.

António José Seguro, por sua vez, padece do problema oposto. Experiente, previsível e institucionalmente correto. No entanto, muitos têm vindo a destacar que apresenta um perfil de alguma forma insosso. A comunicação é segura, mas sem rasgo; competente, mas sem chama. Num contexto saturado de ruído, e perante um parlamento menos arrumado do que o costume, a ausência de personalidade comunicacional poderá não se traduzir em serenidade, mas em irrelevância.

Destaquei estes candidatos por me parecerem os mais evidentes, mas mesmo Catarina Martins, António Filipe ou Jorge Pinto, uns com mais outros com menos experiência política, todos têm-se destacado pela confusão. O traço comum a todos os candidatos é a incapacidade de clarificar o que está verdadeiramente em causa.

Enquanto os candidatos se atropelam em mensagens contraditórias, slogans vazios e mudanças de registo pouco convincentes, perde-se a oportunidade de discutir seriamente o futuro da instituição presidencial. A campanha transformou-se num espelho do nosso tempo político: muito barulho, pouca substância e uma comunicação que, em vez de esclarecer, confunde. O maior risco não é quem vence, mas a banalização do cargo que todos dizem querer honrar.

  • Rodrigo Almeida Fernandes
  • Client director & senior comms consultant na Corpcom

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