Uma campanha que afasta, um voto que hesita
A campanha foi, no essencial, medíocre e lamacenta. Quando o voto é volátil, a decisão não será um “sim” entusiasmado, antes um “vá lá” resignado.
O balanço da primeira volta destas presidenciais é tudo menos animador. Não tanto pelos resultados que se venham a apurar, mas pela forma como aqui chegámos. A campanha foi, no essencial, medíocre e lamacenta. Dominada por insinuações, ataques pessoais e jogos de bastidores pouco edificantes, deixou uma pergunta incómoda no ar: depois do que se viu, quem será o louco que se quererá submeter a eleições em Portugal?
Quando a política se transforma num exercício de desgaste pessoal permanente, o custo não é apenas para os candidatos, é sobretudo para o sistema. O lamaçal afasta os melhores, desincentiva vocações e empobrece a democracia. E esta campanha mostrou-o sem pudor.
O segundo problema foi a pobreza da comunicação política. Não avalio aqui a qualidade intrínseca dos candidatos, mas a forma como comunicaram. Assistimos a uma sucessão de erros de palmatória: mensagens mal calibradas, debates mal geridos, respostas precipitadas, falta de preparação evidente para o escrutínio. Houve quem tenha apostado na constância — o “António José Sereno”, como lhe chamei várias vezes –, que optou por não dar caneladas e por isso colheu os frutos de certa previsibilidade.
Tivemos quem tenha caído de um pedestal, aprendido com os erros e regressado à corrida com mais contenção. Quem se tenha perdido na guerra do lamaçal, incapaz de gerir um momento crítico num debate decisivo. E houve quem tenha jogado esse jogo de forma mais subtil, absolutamente sonsa, até ser travado por uma acusação grave que caiu como um balde de gelo sobre uma campanha que parecia correr melhor do que qualquer sonho do seu principal protagonista. Nada disto é irrelevante. Pelo contrário: revela uma preocupante falta de preparação para a exigência comunicacional que uma eleição presidencial impõe.
O terceiro ponto é, talvez, o mais inquietante: estamos perante uma das eleições com maior voto volátil da história da democracia portuguesa. Quando uma parte muito significativa dos eleitores admite decidir apenas no domingo, isso não é indecisão, é disponibilidade e calculo mental. É um eleitor que não está convencido, mas está aberto a resolver um problema de matemática que julga controlar.
Essa volatilidade resulta de três fatores claros: a erosão da lealdade partidária, uma campanha negativa e fragmentada que gera rejeição do ruído, e um eleitor cada vez mais exigente e cético, à procura de um critério final de confiança. Quando o voto é volátil, a decisão não será um “sim” entusiasmado, antes um “vá lá” resignado.
Num contexto destes, os tempos são perigosos e desaconselham experimentalismos. A quase metade dos eleitores que ainda não decidiu com firmeza, vai procurar segurança, previsibilidade e contenção. Mesmo que medíocres. O eleitor volátil não escolhe quem promete mais; escolhe quem assusta menos. Quando o voto é tardio, a pergunta final não é programática, é simbólica: esta pessoa representa-me? Confio-lhe o país num momento difícil?
E essa resposta, num tempo incerto, raramente é ousada. É prudente, mesmo que resignada.
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