Guimarães quer ser o berço da corrida aeroespacial portuguesa
“Guimarães quer ser referência ibérica da engenharia aeroespacial”, diz presidente da autarquia, que revela a receção a Luís Montenegro para a apresentação da estratégia nacional para o espaço.
A apresentação da estratégia nacional para o espaço vai ocorrer em Guimarães, autarquia liderada pelo social-democrata Ricardo Araújo, representando o ponto de partida no caminho ambicioso que o presidente do município quer trilhar para tornar este concelho, que acolhe o Guimarães Space Hub, um líder ibérico na área aeroespacial.
As obras para reabilitação total da Fábrica do Arquinho — onde ficará instalado o Guimarães Space Hub, instalações que acolherão cientistas e investigadores da Universidade do Minho e empresas que pretendam fazer testes aos desenvolvimentos da universidade e do CEiiA — já estão em curso, com abertura não antes de 2028.

Entidade criada no ano passado, o Guimarães Space Hub está, para já, numa sala de um edifício municipal onde a utilização é, no máximo, e como o ECO/Local Online pôde confirmar, esporádica. Efetivamente, a sala parece ter servido para pouco mais que o evento de lançamento do Guimarães Space Hub.
Em tudo o que tiver a ver com a estratégia de Portugal com o espaço, a estratégia da economia em torno deste setor aeroespacial, nós queremos que Guimarães seja uma referência.
O cenário mudará quando as novas instalações, na antiga Fábrica do Arquinho, estiverem operacionais, algo que poderá não acontecer antes de 2028. Até lá, a Universidade do Minho manterá a “ginástica” com que tem mantido operacional a investigação do seu curso de engenharia aeronáutica, um dos poucos disponíveis no país.
“Temos um dos melhores cursos de engenharia aeroespacial [do país], estamos a fazer um fortíssimo investimento na reabilitação da fábrica do Arquinho, que vai ser a sede do Guimarães Space Hub e, portanto, queremos construir em Guimarães ao longo da próxima década toda uma economia em torno desta área aeroespacial. É um nicho, é um segmento, mas isto trabalha-se”, diz o autarca.
Do lado da academia, o Guimarães Space Hub contará com “investigação e ciência para o desenvolvimento e aplicação das competências na economia espacial, em áreas de sustentabilidade, mobilidade, IA e defesa”, explica António Vicente, presidente da Escola de Engenharia da Universidade do Minho, que pretende triangular o desenvolvimento académico com a aplicação nas empresas, contando para isso com a autarquia.
“Da nossa parte, o que nos interessa é manter essa parceria muito ativa, para termos alunos que continuem a vir para cá, estudantes de mestrado que desenvolvam as suas teses aqui”, destaca António Vicente.
Estamos num contexto onde há uma efervescência da área espacial, que tem vindo a crescer e vai continuar a crescer durante os próximos anos.
O responsável quer replicar no aeroespacial as parcerias com empresas desenvolvidas pelas outras áreas de saber lecionadas, notando que tanto o Governo português quanto a União Europeia estão em vias de executar “investimentos fortes” que vão alavancar este setor. “Estamos num contexto onde há uma efervescência da área espacial, que tem vindo a crescer e vai continuar a crescer durante os próximos anos”.
Já Alexandre Ferreira da Silva, professor responsável do curso de Engenharia Aeroespacial, nota que “temos um PRR do New Space Portugal, que é talvez o maior PRR a decorrer a nível nacional, e torna-se importante agora fazer a capitalização de tudo isto para nos posicionarmos [Portugal] realmente como contribuidores ativos no setor espacial”.
Trata-se de dizer que vamos fazer este desenvolvimento, estamos com um foco na aplicação civil, sabemos e não ignoramos que ele também pode ser utilizado para fins militares, mas essa aplicação para fins militares já não é connosco.
Para que o país assuma esse papel ativo, diz, “precisamos de criar estes polos estratégicos. Um destes é o Guimarães Space Hub”, ativo ligado à Universidade do Minho, ao CEiiA e à autarquia. Este hub, nascido na Fábrica do Arquinho permitirá contribuir no upstream, que o professor universitário define como “tudo aquilo que podemos querer lançar para o espaço”, em oposição ao downstream, “tudo o que derivamos do espaço, os dados que tiramos do espaço que servem para a mobilidade, para a gestão territorial e outras aplicações semelhantes”.
“O espaço vai crescer e teremos como prioridade europeia a utilização do espaço”, assegura, salientando as “oportunidades a nível nacional, nomeadamente através das parcerias internacionais que têm o espaço como um dos vetores relevantes”.

Guimarães Space Hub ‘limitado’ na corrida ao armamento
Ligada a várias das dimensões do saber ligadas ao estudo do espaço, a Universidade do Minho olha, por exemplo, para o direito espacial (a legislação para regular o que se passa em órbita) e para a medicina espacial.
O professor responsável pelo curso de Engenharia Aeroespacial exemplifica com o dengue, que tem no mosquito o vetor: “Conseguimos prever mais ou menos uma probabilidade de incidência desse mosquito, porque sabemos as condições em que ele se prolifera do ponto de vista de humidade e temperatura. Usam-se dados espaciais que nos dizem como está a decorrer a evolução das condições. Montamos um modelo sobre isso e vemos, então a probabilidade ou um risco vai aumentar durante aquele período”, explica.
Se chegarmos a um médico e lhe mostrarmos a fotografia do espaço, não lhe diz nada. Agora, se conseguirmos arranjar forma de traduzir aquilo que está escrito ou visto na imagem […} isso já lhe diz qualquer coisa. […] É essa parte que fazemos aqui.
“Se chegarmos a um médico e lhe mostrarmos a fotografia do espaço, não lhe diz nada. Agora, se conseguirmos arranjar forma de traduzir aquilo que está escrito ou visto na imagem em dados de temperatura local, ou pressão atmosférica — e é esse o trabalho aqui —, que fazem com que o mosquito da dengue se prolifere mais ou menos, isso já lhe diz qualquer coisa. Para fazer essa tradução são necessários modelos, é preciso software, engenharia, e é essa parte que nós fazemos”, explica o docente. O mesmo vale para parasitas na agricultura ou para prever as melhores condições para certa plantação.
Apesar da dificuldade da academia, guiada por normas éticas, em participar em algumas parcerias internacionais que possam dar uso militar à tecnologia desenvolvida no hub, a universidade não deixa, contudo, de levar ao mercado tecnologia que pode servir em ambiente militar.
Alexandre Ferreira da Silva, exemplifica com um rocket. No seu fim civil, pode ser utilizado para colocar objetos em órbita e, já na fase descendente, para medir pressão e temperatura atmosféricas, por exemplo. Se uma entidade como o exército colocar uma ogiva, passa a ser um instrumento de guerra, mas aí já sem intervenção da universidade. “Se colocarem carga nuclear, a culpa não é nossa”, ressalva o presidente da Escola de Engenharia da Universidade do Minho. É o designado uso dual.
“Não há uma trajetória balística, não há nada disso”, destaca o responsável da instituição, que salienta a dificuldade da academia, guiada por normas éticas, em participar em algumas parcerias internacionais onde pode haver um uso balístico desses rockets.
“Da mesma forma como todos os dias são lançados balões meteorológicos com propósito de medir condições atmosféricas que permitem fazer a previsão do tempo que nós tanto gostamos de manhã de ver no nosso telemóvel”, compara Alexandre Ferreira da Silva. “Esse objeto, que é colocado a altas altitudes, pode ter perfeitamente outro fim. Já vimos há uns anos uma coisa gigante a entrar pelos Estados Unidos, e teve de ser abatido”.
“Trata-se de dizer que vamos fazer este desenvolvimento, estamos com um foco na aplicação civil, sabemos e não ignoramos que ele também pode ser utilizado para fins militares, mas essa aplicação para fins militares já não é connosco. Ou seja, o conhecimento está gerado, existe, se uma Força Aérea disser ‘temos de usar isso para fazer aquele desenvolvimento’, está feito, mas já não é connosco”, reforça António Vicente.

A estratégia da autarquia cruza-se com este curso de Engenharia Aeroespacial no polo vimaranense da Universidade do Minho, realça Ricardo Araújo. A instituição está ligada à reabilitação da Fábrica do Arquinho, projeto iniciado no mandato anterior do socialista Domingos Bragança, presidente da Câmara nos últimos 12 anos. Mas o sucessor, eleito a 12 de outubro, destaca a sua agenda como “muito mais ambiciosa”, implicando “dar retorno do investimento”.
Governo cancela evento de apresentação da estratégia aeroespacial nacional
O evento do Governo, que deveria levar uma comitiva liderada por Luís Montenegro à cidade berço na próxima sexta-feira para, de acordo com Ricardo Araújo, apresentar a estratégia nacional aeroespacial — entretanto, segundo fonte da autarquia, a iniciativa foi cancelada, sem nova data ainda calendarizada —, é destacado por Ricardo Araújo como sinal da relevância da estratégia montada pelo município. O autarca social-democrata promete “criar condições para que Guimarães seja visto como a referência da área espacial” a nível ibérico. “Temos a aposta de fazer de Guimarães uma cidade de referência na economia aeroespacial”, afiança. “Por isso é que queremos que a estratégia nacional para o espaço seja apresentada aqui em Guimarães”, diz Ricardo Araújo ao ECO/Local Online.
Das saídas profissionais do jovem curso de engenharia aeroespacial, atualmente com 144 alunos a licenciarem-se e mais 32 a frequentar o mestrado, o presidente da Escola de Engenharia realça a investigação que alunos seus estão a desenvolver em empresas como a GeoSat (consórcio nacional responsável por dois satélites em órbita, um deles abaixo de um metro de resolução do que se passa na Terra), a DSTelecom, a divisão de competição do construtor automóvel Skoda na Chéquia, a fabricante de pás eólicas Vestas, ou até a mais unicórnio da área dos drones, Tekever.
A Universidade do Minho — que no seu curso de Engenharia Aeroespacial, lançado no ano letivo de 2022/23, formou até ao momento cerca de 30 alunos e conferiu a 11 o grau de mestre – já “colocou” a região minhota no espaço, com o Prometheus-1, o seu primeiro satélite, lançado à boleia da SpaceX, de Elon Musk.
Ricardo Araújo destaca, no plano da autarquia, não só o centro de inovação da área aeroespacial, mas também a intenção de “criar condições para que as empresas que atuam nesta área se fixem em Guimarães e para que toda a nova economia que se está a surgir” se instale no concelho minhoto.
António Vicente destaca que o projeto da Fábrica do Arquinho ajudará, não só a alojar os elementos ligados à universidade, mas também a reter talentos. Na sua perspetiva, importa que estes recursos humanos “altamente especializados possam trazer também um cluster de empresas e de atividade económica relevante”.
Para o autarca, a retenção de talentos jovens passa ainda por elementos, como reforço da cultura direcionada a este público e da criação de mais habitação a custos não proibitivos.
“Vamos ter espaço, know-how, investigação, centros de conhecimento especializados, condições para apoiar quem queira desenvolver esta área. Estamos convencidos de que isto vai poder crescer. É por isso que queremos marcar já desde o início e queremos que a estratégia nacional para o espaço seja apresentada aqui em Guimarães”. Sem adiantar mais, Ricardo Araújo compromete-se em lutar por uma empresa de dimensão internacional — “não há muitas nacionais a trabalhar nisso, infelizmente”, nota — que sirva de âncora, à imagem da conquista de uma fábrica da Embraer pelo município de Évora.
No que toca ao trabalho de apoio dado pela instituição académica de referência nesta região do país, o presidente da Escola de Engenharia destaca “a valência em Medicina Espacial, Direito Espacial e Ciências Espaciais. Mesmo dentro da área da engenharia, a nossa visão é ser mais abrangente e não se focar somente em tecnologia de satélites ou lançadores. Os próximos anos mostrarão como o espaço terá um papel relevante, não só no nosso dia-a-dia, mas também nos desígnios da humanidade”, reforça António Vicente.
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