IA é “arma” para atrair jovens na auditoria e contabilidade, mas lideranças terão de se adaptar

Este ano continuará a ser marcado por vários desafios para auditores e contabilistas. É o caso da adoção de IA, uma revolução que traz riscos, mas também ajuda a atrair e a reter os mais jovens.

As novas tecnologias, nomeadamente a inteligência artificial (IA), vão continuar a evoluir e até a acelerar em 2026 e a exigir que os profissionais de auditoria e contabilidade se adaptem a esta revolução digital que, apesar de representar alguns riscos, permite que assumam um papel mais estratégico junto das empresas ao libertarem-se de tarefas rotineiras. Os especialistas acreditam que ajudarão também a atrair, mas sobretudo a reter, mais jovens para estas profissões, um desafio que vai manter-se, e mesmo intensificar-se, este ano, com a liderança das empresas a ser chamada a “mudar ao mesmo ritmo que o mundo muda” e a ir ao encontro das necessidades de quem entra hoje no mercado de trabalho.

O número de empresas de contabilidade a nível global a adotar a IA mais do que quadruplicou no último ano, mostra um estudo recentemente divulgado pela consultora tecnológica Wolters Kluwer. Apesar desta evolução relevante, ainda há muitas organizações, nomeadamente em Portugal, que têm de dar este passo perante a necessária adoção da tecnologia para garantir a sua relevância face a um tecido empresarial que está também cada vez mais digital.

“A IA continuará seguramente a transformar, de forma progressiva, o exercício da profissão de contabilista ao longo” deste ano “e também dos seguintes”, diz Hélio Silva, responsável pelo departamento de consultoria do TOConline da Ordem dos Contabilistas Certificados (OCC), notando que este impacto vai ocorrer em três dimensões: a automação de tarefas repetitivas, a qualidade e fiabilidade da informação financeira e reforço do papel estratégico do contabilista.

Em 2026 e nos anos seguintes, “os modelos preditivos e analíticos serão ainda mais avançados, permitindo aos profissionais libertar tempo e foco para tarefas de maior valor tais como a interpretação de dados, o planeamento fiscal e o apoio à gestão e controlo interno”, acrescenta.

"A IA continuará seguramente a transformar, de forma progressiva, o exercício da profissão de contabilista ao longo do 2026 e também dos anos seguintes.”

Hélio Silva

Responsável pelo departamento de consultoria do TOConline da Ordem dos Contabilistas Certificados

“Vamos, sem dúvida, ver mais adoção [de IA]. A questão deixou de ser saber se as empresas vão utilizar IA, a pergunta hoje é onde, como e em que ritmo o vão fazer”, refere, por outro lado, Paulo Paixão. Para o partner e responsável de Audit & Assurance da KPMG Portugal, “estamos claramente num momento de mudança”, com esta tecnologia a “começar a fazer parte da infraestrutura normal de trabalho das equipas financeiras e de auditoria”.

“A nossa profissão tem um papel determinante. As auditoras e os contabilistas podem ajudar a garantir que a IA é implementada com rigor, com transparência e com controlo”, refere ainda, sublinhando que “se fizermos bem este caminho a IA deixa de ser apenas uma tecnologia poderosa e passa a ser um motor de confiança e crescimento”. Isto “sem nunca se prescindir do ceticismo profissional e do julgamento humano”, aponta, por sua vez, João Gomes Ferreira, partner e líder de Audit & Assurance da Deloitte.

Atrair e reter para renovar a classe

A adoção desta tecnologia pode também ser um incentivo para atrair e reter os mais jovens, ajudando a renovar uma classe em que a idade média dos profissionais no ativo é de 52 anos no caso dos contabilistas e em que quase dois terços dos auditores tem mais de 50 anos. “A IA deve ser um fator de atração para os mais jovens que ponderam entrar na profissão”, refere Hélio Silva, da OCC, sublinhando que a “atração e retenção de talento qualificado continuará a ser um dos principais desafios estratégicos da Ordem em 2026”.

Também na auditoria “acreditamos que a utilização responsável da IA reforça a confiança e a relevância da profissão, ao mesmo tempo que a torna mais apelativa para as novas gerações”, diz João Gomes Ferreira, da Deloitte. Uma preocupação em torno da atração e retenção de talento que não vai apenas manter-se, como “intensificar-se” em 2026, refere Paulo Paixão, da KPMG Portugal, numa altura em que “vivemos uma fase em que muitas organizações querem crescer, acelerar a transformação digital e responder a novos desafios regulatórios e de sustentabilidade”. “Os jovens profissionais procuram hoje ambientes que combinem propósito, inovação e impacto”, indica.

"Acreditamos que a utilização responsável da IA reforça a confiança e a relevância da profissão, ao mesmo tempo que a torna mais apelativa para as novas gerações.”

João Gomes Ferreira

Partner e líder de Audit & Assurance da Deloitte

“Se recuarmos 30 anos, o salário era o mais importante. A economia era mais parada, as oportunidades não eram tantas. Hoje, os jovens não são assim. Muito antes de salário, procuram propósito, uma atividade que os atrai, procuram experiências e crescer”, afirmou Pedro Branco, headhunter e managing partner da Pedro Branco & Partners. Procuram também “flexibilidade e autonomia”, realçou, por outro lado, Cléber Castro, manager na Great Place to Work, salientando que esta mudança obriga o “líder a atuar como um mentor e facilitador e não mais como cobrador de tarefas. É preciso repensar desde o topo”.

Para Hélio Silva, da OCC, “o futuro das empresas de contabilidade dependerá, em larga medida, da sua capacidade de criar ambientes onde diferentes gerações trabalham em sinergia, num equilíbrio entre solidez técnica e inovação”.

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