Grenache The Bistro: estrelas à parte

2 à Mesa,

Conversas após uma refeição. 2àMesa é uma rubrica quinzenal do ECO Avenida sobre restaurantes que abriram em 2026. Desta vez, sobre o Grenache The Bistro.

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Caro M.

A expectativa em relação ao The Bistro era elevada, chancelada pela marca Grenache. Mas essa exigência de partida é injusta porque o The Bistro não tem pretensão nenhuma e o seu charme advém, precisamente, daí. Sediado na Rua Angelina Vidal, 88, Anjos, o Grenache The Bistro (grenache.pt) é um espaço conciso, que é como quem diz reduzido, penumbroso e sem grande preocupação, que sugere um certo intimismo espontâneo e até descuidado. A carta, também ela concisa, propõe, de forma mais calculista que o ambiente, uma incursão diversa, que nos é apresentada de forma direta e sem devaneios literários: do “Cesto de Pães” passando pelo “Octopus (Pimento Vermelho, Alho Confitado, Paprika Fumada)”, “Ravioli (Ricotta, Tomates Secos, Emulsão de Alho) e terminando em “Clafoutis” (Sorbet de Frutos Vermelhos, Creme Inglês). Há uma sugestão de qualidade (importada, lá está, da parentalidade e do apelido) que não é constante. Mas está lá.

Caro P.

Não é uma ideia que me entusiasme, mas reconheço a bondade de democratizar um restaurante com estrela Michelin, através de uma sua versão mais inclusiva e acessível. O primeiro Grenache, no Pátio Dom Fradique, em Lisboa, é o que é: um restaurante de luxo, fiel depositário da cozinha francesa contemporânea, e cuja competente e talentosa utilização da matéria-prima portuguesa lhe rendeu uma justíssima estrela. O novo Grenache, em formato bistro, não é obviamente a mesma coisa. Conserva os laivos de criatividade e talento da casa mãe (os tomates confitados em emulsão de gaspacho são absolutamente divinais), mas conjuga estes momentos de epifania gastronómica com uma decoração pobrezinha, um ambiente quase lugúbre, e uma conta salgada. Está longe, porém, de ser um filho enjeitado: o serviço é muito profissional e simpático, a carta é interessante e não desilude, a lista de vinhos tem mais de 500 referências, e o bairro onde está localizado é um dos mais estimulantes e dinâmicos de Lisboa.

Caro M.

Concordo que é capaz de não ter sido a melhor ideia em termos de branding dar o mesmo nome a esta versão mais “convivial” – na expressão do próprio Chef Philippe Gelfi – do Grenache (que é, para quem não sabe, a designação de uma casta de uvas tintas que tem, claro, representação no riquíssimo menu de vinhos, nomeadamente, mas não só, através de monocasta com duas entradas: M. Chapoutier, Châteauneuf-du-Pape Barbe Rac 2000, 190€, e M. Chapoutier, Châtenauneuf du Pape Barbe Rac 2008, 170€). Mas não sei se concordo com a referência aos preços (de referir que a lógica do The Bistro é, a tão em voga, de “partilha”): Terrine de Campagne (Pickles da casa, Curcuma), 15€; Cavala Fumada (Batata, Créme Fraiche, Mostarda), 13€, Bavette (Molho Poivre, Batatas), 23€, e Pescada (Molho Bourride, Curgete, Azeitonas), 22€, são valores que não sobressaltam para dois exemplos de duas entradas e dois principais. O que inquieta é a intermitência da qualidade apresentada com a cavala e a terrine em alta e o polvo e os ravioli em baixa, por exemplo. O The Bistro é, pois, um daqueles casos em que a expetativa alta prejudica desproporcionalmente a avaliação. Mas diria que a solução não está em rever em baixa a expectativa…

Caro P.

Tens razão, os preços são sempre muito relativos: dependem do estado da carteira, das nossas expetativas sobre a refeição, do que ela nos entrega, e, também, das variações do nosso humor. No entanto, estou disponível para fazer a revisão da minha avaliação nesta pertinente questão do preço: passo, tranquilamente, de salgado para meio-sal. Outra coisa que queria sublinhar, antes que me esqueça, tem a ver com a minha convicção de que o Grenache Bistro, com alguns ajustes, merece uma segunda visita. Justifica, sobretudo, uma viagem ou mesmo uma peregrinação pela infindável e ambiciosa carta de vinhos ou, simplesmente, para repetir o cesto de pão (extremamente guloso) e os pratos que mais me impressionaram, com os tomates confitados à cabeça. Ou seja, o resumo da ópera, como dizem os brasileiros, é para mim o seguinte: ao contrário do que se diz por aí, há sempre uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão…

Grenache The Bistro
R. Angelina Vidal 88B, Lisboa
218 147 729
Aberto de quinta-feira a segunda-feira, 18h00-00h00
Encerrado à terça-feira e quarta-feira

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