A rádio não é um algoritmo
A rádio é como o bicho que eu mais abomino na Terra: a barata. Tem antenas, é muito difícil de esmagar e sobrevive às maiores ameaças. A rádio sobrevive, porque se reajusta.
Tinha 15 anos quando entrei num estúdio de rádio, pela primeira vez. Foi há… bom, não interessa há quantos anos! Na altura, de uma forma mais ou menos generalizada, ainda não havia computadores nos estúdios. Pelo menos, não naquele onde comecei. E foi assim que cheguei à rádio. Para aprender e para misturar músicas nos horários mais difíceis de fim de semana, quando os locutores mais velhos preferiam ficar a dormir. Só tinha autorização para abrir o microfone uma vez por hora, para dizer o sinal horário. Era o momento alto daquelas manhãs, quando enchia o peito para dizer com uma voz que não era necessariamente a minha e que engrossava automaticamente antes de falar: “bom dia, são 7 horas!”.
E ali andava eu, para atrás e para a frente, a treinar aquela frase nos 10 minutos anteriores ao sinal horário, mas com cuidado extremo porque a rádio ficava no sótão de um prédio antigo em Santarém e o chão era todo de madeira. Sempre que se punha a tocar um disco de vinil, ninguém podia andar na rádio — “Ninguém se mexe agora!” — ou as vibrações do chão de madeira poderiam fazer saltar a agulha do gira-discos. Bons tempos!
Fazendo a agulha saltar para 2026… ligar o microfone é o meu dia a dia, há já… bom, não interessa há quantos anos! Durante todo esse tempo, a rádio sobreviveu a inúmeros fins do mundo e mortes anunciadas. Primeiro, a televisão ia engolir tudo. Depois, a chegada dos CD. A Internet ia pulverizar a rádio. O YouTube. As redes sociais. As plataformas de streaming. E agora, a IA. Mas a rádio é como o bicho que eu mais abomino na Terra: a barata. Tem antenas, é muito difícil de esmagar e sobrevive às maiores ameaças.
A rádio sobrevive, porque se reajusta. E rapidamente. Mais rapidamente que os outros meios. Quem se lembra da importância da rádio no apagão? Ou mais recentemente, para fazer chegar esperança e consolo a quem foi afetado pelas tempestades que fizeram tremer o país? Num momento das nossas vidas em que tudo o que consumimos parece ser ditado e escolhido por um algoritmo, a rádio vai ao lado.
Dizia muitas vezes aos meus alunos de rádio que 10 segundos são suficientes para formarmos opinião sobre alguém que vemos na televisão. Na rádio, não. A rádio demora tempo. A relação constrói-se. A cumplicidade surge nos pequenos momentos, em detalhes simples, mas também em momentos fabulosos, quase épicos. Cria-se uma intimidade entre cada suspiro no trânsito, cada sorriso involuntário, cada palavra certa no momento certo. E é por isso que esta ligação dura para sempre.
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