A velocidade é inegociável
O desenvolvimento de software está a tornar-se mais rápido e mais barato, mas o risco inerente está a crescer, exponencialmente.
Durante anos, a grande disrupção no desenvolvimento de software esteve associada ao low-code. Uma abordagem definida pela velocidade e pela capacidade de acelerar o desenvolvimento, transformando projetos que tipicamente demoravam meses em entregas concretizadas em poucas semanas.
Quão depressa conseguimos criar aplicações, automatizar workflows e reduzir o esforço de desenvolvimento? Hoje, essa pergunta continua relevante, mas já não capta toda a complexidade dos desafios que os líderes e executivos de Tecnologias da Informação (IT) têm pela frente.
O mercado está a passar de uma promessa relativamente simples – desenvolvimento aplicacional mais rápido –, para algo bastante mais complexo construir organizações orientadas por IA, ou mesmo agentic native, [agêntico nativo] com as salvaguardas necessárias, uma governação robusta e a flexibilidade arquitetural exigida por este novo paradigma.
A Gartner prevê que, até 2028, 90% dos engenheiros de software empresariais irão usar assistentes de código com IA, face a menos de 14% no início de 2024. O inquérito de 2025 da Stack Overflow reforça esta tendência: 84% dos inquiridos dizem que já utilizam, ou planeiam utilizar, ferramentas de IA no seu processo de desenvolvimento. Esta aceleração é real. Mas a velocidade é apenas metade da história.
A pergunta mais difícil surge depois de o código ser gerado. Conseguem as organizações governá-lo, integrá-lo, protegê-lo, adaptá-lo e colocá-lo em produção de forma fiável? É aqui que a conversa empresarial se torna mais interessante e, consequentemente, mais exigente.
A McKinsey concluiu que apenas 23% das organizações dizem ter escalado um sistema de agentic IA em alguma área da empresa, apesar de a experimentação continuar a crescer. A IBM identificou uma distância semelhante entre dinamismo e concretização de valor, com apenas 25% das iniciativas de IA a entregar o retorno esperado nos últimos anos e apenas 16% a escalarem à dimensão da empresa. Esta é a nova realidade. O desenvolvimento de software está a tornar-se mais rápido e mais barato, mas o risco inerente está a crescer, exponencialmente!
Quanto mais fácil se torna desenvolver aplicações e software, mais exigente se torna a sua gestão, governação e mitigação de risco. A Gartner indica que apenas 23% dos líderes de IT se sentem confiantes na capacidade das suas organizações para gerir os riscos de segurança e governance associados à utilização de ferramentas de geração de código com IA ou agentes de IA em aplicações empresariais. Por outro lado, alguns estudos apontam que esta abordagem de prompt-to-app, poderá aumentar os defeitos de software em até 2.500% (leu bem, dois mil e quinhentos por cento), até 2028. Independentemente da exatidão do número, a tendência é evidente. A velocidade da inovação tecnológica está a crescer mais depressa do que os sistemas de controlo da maioria das organizações conseguem acompanhar.
É por isso que a conversa está a mudar no mercado da tecnologia e do IT. De aceleração no desenvolvimento, generated-code, vibe coding, para a engenharia de sistemas.
No contexto empresarial, a IA não falha apenas ao nível da qualidade do código que gera. Falha sobretudo em contexto, governance e integração.
Porque os agentes de IA continuam a ser “cegos” à lógica de negócio e às especificidades de cada organização, incluindo a sua arquitetura tecnológica, dependências e estruturas de dados; Governance, porque a IA consegue gerar código, processos e workflows a um ritmo superior à capacidade das equipas para rever, validar e controlar. O Human in the Loop é fundamental enquanto conceito, mas a sua aplicabilidade prática está, ainda, por provar; Integração, porque copilotos, agentes e protótipos isolados não criam, por si só, valor operacional duradouro.
É também por isso que as abordagens do tipo AI-development platforms, ou seja, plataformas que permitem centralizar o desenvolvimento de agentes AI, de forma integrada, estão a ganhar cada vez mais importância. As organizações procuram maior liberdade para evoluir à medida que os modelos, os custos e as capacidades se alteram, sem terem de reconstruir tudo sempre que o mercado muda. Ao mesmo tempo, ganha relevância uma visão unificada que permita construir, lançar e gerir agentes de IA de forma consistente e plenamente integrada no ecossistema aplicacional.
O facto é que, à data de hoje, essa flexibilidade ainda está longe de ser a norma. Dados recentes, divulgados pela Accenture, indicam que 66% das organizações continuam a depender, sobretudo, de capacidades de IA nativas das plataformas/software que utilizam, enquanto apenas 32% estão a desenvolver agentes agnósticos ao modelo, distribuídos por múltiplos sistemas. Ou seja, a ambição de flexibilidade está a crescer mais rapidamente do que a capacidade do mercado, e das próprias organizações, para a concretizar.
Por isso, tal como no passado, a velocidade, e a rapidez de resposta às exigências dos consumidores, stakeholders e do negócio continuam a ser um fator determinante. A velocidade é inegociável, mas já não é o único driver. A próxima geração de plataformas de software empresarial será avaliada por muito mais do que a rapidez com que permite às equipas desenvolver. Será avaliada pela sua capacidade de ajudar as organizações a construir, executar, governar e integrar aplicações e agentes de forma segura, adaptável e pronta para produção.
É para aí que a inovação tecnológica está a evoluir. E as organizações que perceberem essa mudança mais cedo serão as que definirão o que vem a seguir.
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