Alegoria da Caverna 2.0
Esses algoritmos, alimentados por machine learning, aprendem rapidamente que medo, raiva e ódio geram mais envolvimento do que moderação ou nuance. A virtude está no meio, mas não gera cliques.
Num mundo permanentemente em guerra — militar, económica e informacional — o conteúdo que consumimos espelha a volatilidade do tempo em que vivemos. Da guerra em Gaza e na Ucrânia, ao alastramento do conflito no Médio Oriente, com tensões entre Israel, Irão e os seus aliados, passando pela instabilidade no Mar Vermelho e na Península Arábica, a sucessão vertiginosa de acontecimentos cria a ilusão de que estamos perante um fenómeno novo. Não estamos.
Trata-se de um tema atual e pertinente, mas não mais do que a evolução sob o efeito de esteroides de um mecanismo ancestral: a manipulação da perceção coletiva. A novidade reside na escala e na velocidade, potenciadas pela disrupção tecnológica, pela capacidade computacional e pela virtualização quase total dos meios e canais de comunicação.
Efetivamente, a produção de informação falsa, tendenciosa ou orientada para condicionar o pensamento das populações atravessa a história da humanidade. No Império Romano, a propaganda — do latim propagare, difundir — surgia gravada nas paredes das praças públicas, sob a forma de graffitis. Em contexto de guerra, a contra-informação tornou-se uma arte, com especial sofisticação no exército russo através da doutrina maskirovka: confundir, ocultar, enganar.
Roland Barthes, referência incontornável da semiologia moderna, analisou os artifícios técnicos usados pela imprensa para explorar os sentimentos do recetor, promovendo emoções que oscilam entre o medo, a surpresa e a indignação. O linguista debruçou-se sobre a proliferação dos fait divers nos órgãos de comunicação social — a génese do sensacionalismo. Recordemo-nos da sua definição: a capacidade de transformar factos banais em acontecimentos extraordinários, explorando não apenas o que aconteceu, mas o que poderia ter acontecido.
Esta definição poderia, sem esforço, aplicar-se hoje ao conceito de fake news.
No estudo da propaganda e da manipulação da opinião pública, outro nome é incontornável: Noam Chomsky. Linguista, professor e investigador no MIT, foi preso diversas vezes nos anos 70 pelas suas posições anti establishment, sobretudo durante o mandato de Richard Nixon. Chomsky escreveu extensivamente sobre o tema, mas sintetizou de forma particularmente eficaz as chamadas “10 estratégias de manipulação pelos média”:
- Estratégia da distração — Criar entretenimento permanente para desviar a atenção dos assuntos socialmente relevantes.
- Criar problemas e oferecer soluções — Introduzir uma crise para legitimar respostas que, noutro contexto, seriam rejeitadas.
- Estratégia gradual — Implementar medidas impopulares de forma progressiva.
- Estratégia do adiamento — Anunciar hoje sacrifícios que só serão aplicados amanhã.
- Discurso paternalista — Infantilizar o público.
- Apelo à emoção em detrimento da razão — Emoções mobilizam mais do que argumentos.
- Manter o público na ignorância — Impedir a compreensão dos mecanismos de controlo.
- Encorajar a mediocridade — Normalizar a ausência de pensamento crítico.
- Incentivar à autocomiseração — Levar o indivíduo a culpar-se a si próprio.
- Conhecer melhor o indivíduo do que ele próprio — Usar psicologia e neurociência para antecipar comportamentos.
Estas técnicas são utilizadas, sem exceção, por regimes democráticos e autocráticos, em tempos de guerra e de paz.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a propaganda nazi construiu a figura do “inimigo interno”, desumanizando os judeus. Em paralelo, a imprensa norte-americana representava os japoneses de forma caricatural e desumanizante. Se no primeiro caso o desfecho foi o Holocausto, no segundo levou Franklin D. Roosevelt a assinar uma ordem executiva que resultou na clausura de mais de 120 mil cidadãos de origem japonesa, durante três anos, sem acusação formal.
O que distingue, então, o fenómeno atual daquele que sempre existiu?
A resposta está no volume, na intensidade e na automatização da informação, exponencialmente amplificados pela inteligência artificial. A cada minuto são visualizadas centenas de milhares de horas de vídeo no YouTube e realizadas milhões de pesquisas no Google. Os fait divers de Barthes transformaram-se numa avalanche contínua de (des)informação que nos retira a capacidade de foco sobre o essencial.
Quem domina a tecnologia — retomando o ponto 7 de Chomsky — mantém o público na ignorância.
O poder das redes sociais sobre a opinião pública é praticamente ilimitado. As nossas interações digitais são o combustível da máquina: cada clique, cada scroll, cada like contribui para a construção de um perfil onde o produto somos nós.
Se por um lado somos vendidos como audiência segmentada a anunciantes, por outro somos alvo de conteúdos editoriais e propagandísticos escolhidos por algoritmos que “decidem” o que queremos ver.
Esses algoritmos, alimentados por machine learning, aprendem rapidamente que medo, raiva e ódio — emoções ancestrais — geram mais envolvimento do que moderação ou nuance. A virtude está no meio, mas não gera cliques.
Análises da Pew Research Center demonstraram que publicações de políticos norte-americanos geram muito mais interações quando mencionam adversários do que quando apresentam propostas. O medo ativa o cortisol, coloca-nos em alerta e prende a atenção.
A internet tornou-se um terreno fértil para alimentar sentimentos de revolta, oferecendo versões fragmentadas da “verdade”. Movimentos como o QAnon, a radicalização política nos EUA ou a ascensão da extrema-direita na Europa são sintomas desse fenómeno.
O que podemos fazer para contrariar a máquina?
Num tempo marcado por conflitos armados, crises diplomáticas e guerras narrativas, torna-se essencial praticar a tolerância, promover o diálogo e recordar o avanço civilizacional que resultou do multilateralismo do pós Segunda Guerra Mundial. A empatia continua a ser a ferramenta mais poderosa para reconhecer o outro. A diversidade e o pluralismo — esperemos — ainda têm capacidade de baralhar o algoritmo e enriquecer o ser humano.
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