Como sei se estou errado?
O algoritmo digital, que ocupa o lugar do réu nos diagnósticos sobre a polarização e a intolerância, é culpado de muita coisa, mas não inventou o instinto de nos rodearmos de quem nos confirma.
Há uma pergunta que raramente fazemos em voz alta e que, quando a fazemos, quase nunca esperamos uma resposta honesta. Não porque tenhamos medo da verdade, mas porque deixámos de sentir falta dela. Ao longo da vida vamos construindo um ecossistema de confirmações tão eficiente que a dúvida chega a parecer, muitas vezes, uma falha de caráter. Chamamos a isso convicção, podia chamar-se outra coisa.
O algoritmo digital, que ocupa hoje o lugar do réu em quase todos os diagnósticos sobre a polarização e a intolerância, é culpado de muita coisa, mas não inventou o instinto de nos rodearmos de quem nos confirma. Apenas o serviu com mais eficiência.
Muito antes de qualquer plataforma calcular o que nos apetece ver, já vivíamos dentro de bolhas que não reconhecíamos como tal. Chamamos-lhes família, escola, bairro ou clube de futebol.
Nenhuma destas pertenças foi escolhida por nós com plena consciência. Elas escolheram-nos, foram-nos impostas, moldaram-nos e entregaram-nos ao mundo com uma certa ideia do que é normal, do que é aceitável. O problema não é pertencer: é, acima de tudo, não reconhecer que se pertence e, portanto, ignorar a origem dos nossos dogmas.
O filósofo e matemático britânico Bertrand Russell escreveu, em 1933, que “o problema do mundo é que os estúpidos estão seguros e os inteligentes não”. A frase é atribuída com tanta frequência a Russell como a Yeats, o que é, em si mesmo, uma demonstração do problema. Mas o diagnóstico é preciso: a certeza excessiva raramente resulta de um pensamento mais profundo. Resulta, quase sempre, de um pensamento mais curto.
E aqui chegamos à questão da etiqueta. O cérebro humano é preguiçoso por design e não por defeito: processar cada pessoa, cada ideia, cada notícia com atenção plena seria cognitivamente insuportável. Por isso criámos categorias: conservador, progressista, beato, populista, elitista…
São atalhos úteis, até ao momento em que substituem o pensamento. Quando etiquetamos alguém antes de o ouvir, deixamos de participar num diálogo e passamos a executar uma validação disfarçada de conversa. A intolerância raramente se apresenta como intolerância.
Apresenta-se como clareza, como evidência, como aquilo que “qualquer pessoa com bom senso percebe”. É precisamente essa aparência de razoabilidade que a torna tão resistente ao exame.
A polarização não é, neste sentido, um fenómeno recente. O que mudou foi o seu custo. Durante séculos, viver em comunidade obrigava a uma negociação constante com a diferença. Essa fricção, tantas vezes desconfortável, tinha um efeito civilizador que hoje subestimamos.
Hoje é possível construir uma vida inteira sem sermos verdadeiramente desafiados: as plataformas mostram-nos aquilo que nos confirma, os ambientes que escolhemos replicam as nossas preferências e o desacordo tornou-se, para muitos, uma anomalia perturbadora em vez de uma condição natural da vida em sociedade.
O resultado é previsível. Quando nos surpreende que alguém pense diferente de nós, a surpresa converte-se rapidamente em desconfiança. E quando a desconfiança se instala, a conversa acaba antes de começar.
Há uma diferença importante entre ceticismo e cinismo que convém não perder de vista. O cético questiona porque quer perceber, o cínico rejeita porque dispensa o esforço de perceber.
Num tempo em que a desinformação prolifera, em que a confiança nas instituições se corrói e em que o ruído mediático recompensa a provocação sobre a nuance, é tentador deslizar do primeiro para o segundo. Mas o cinismo que se apresenta como sofisticação intelectual é, na maioria dos casos, apenas preguiça com melhor aparência.
O pensamento crítico não é desconfiar de tudo. É a recusa de aceitar qualquer coisa sem perguntar quem diz, porquê, o que ganha com isso e o que não estamos a ver. Num ecossistema que recompensa a velocidade sobre a profundidade, fazê-lo de forma deliberada deixou de ser um hábito intelectual para se tornar uma escolha.
Talvez o maior sinal de maturidade intelectual seja a capacidade de dizer, sem desconforto, “não sei” ou “mudei de ideias”. São duas das frases mais inteligentes que existem em qualquer língua.
E duas das menos frequentes no espaço público, onde a certeza é moeda de troca e a dúvida é lida como fraqueza. Num sistema que recompensa a convicção e penaliza a hesitação, aprender a hesitar com método é, paradoxalmente, um ato de resistência.
Será que eu estou errado? Como sei se estou errado? As perguntas são simples, mas a resposta, se for honesta, nunca o será. É precisamente por isso que vale a pena fazê-las com regularidade e sem pressa, antes que a certeza se torne um hábito demasiado confortável para abandonar.
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