Indecisos vencerão

  • Edson Athayde
  • 11:20

O bom eleitor é aquele que entra na cabine com dúvidas, escolhe apesar delas e sai decidido a vigiar. Sabe que não há candidatos perfeitos, mas há escolhas melhores do que outras.

Há um filme americano chamado “Swing Vote”, lançado em 2008 e protagonizado por Kevin Costner. Em Portugal chamou-se “Promessas de um Cara de Pau”, um título curioso, talvez escolhido porque alguém achou que, por cá, a obra merecia um nome mais sincero. Costner interpreta um pai solteiro politicamente desligado que falha o voto numa eleição presidencial fictícia nos Estados Unidos. Um erro técnico transforma esse não voto no voto decisivo. Com as eleições tecnicamente empatadas, de repente, o cidadão mais indiferente do país passa a ser o mais importante.

Segue-se uma comédia em tom de sátira: candidatos a mudarem de opinião como quem muda de gravata, assessores a sorrirem com convicção profissional, promessas feitas à medida de um único eleitor. O filme brinca com o absurdo, mas acerta no alvo. Em eleições, os indecisos mandam. Mandam porque desequilibram. Mandam porque ninguém sabe para onde caem.

Fora do cinema, porém, a coisa complica-se. Mal a campanha pela segunda volta das presidenciais começou e um dos tipos mais comuns do indeciso real andou a agitar as redes sociais. Estamos a falar daquele que indeciso que exige um candidato perfeito. Quer alguém competente em tudo, moralmente irrepreensível, imune a contradições e com um programa que resolva o país sem incomodar ninguém (sobretudo a ele próprio, o indeciso). Como esse candidato não existe (nem nunca existirá), o indeciso conclui que nenhum serve. Decide não votar.

Este indeciso não costuma ser discreto. Explica em letras maiúsculas nos seus comentários por que razão todos são maus e por que ele próprio, alecrim dourado que é, está acima das opções disponíveis.

O problema é que este radicalismo sem racionalidade acaba por ser um dos caminhos mais eficazes para a ascensão de candidatos autoritários. O fascista moderno cresce na polarização, no cansaço da sociedade.

Ao apresentar-se como o “homem providência”, o candidato extremista não espera que todos acreditem na sua fábula do líder sem falhas. Nem precisa. A estratégia é elevar artificialmente a fasquia moral e política a um nível impossível, para que todos os outros candidatos pareçam, por contraste, corruptos, incompetentes ou moralmente falidos. Nesse cenário, a mentira não precisa de convencer. Basta contaminar.

Ainda assim, convém não deitar os indecisos fora com a água do banho. Há um lado virtuoso na indecisão. Talvez devêssemos todos ser indecisos ao votar. Não indecisos ao ponto da paralisia, mas indecisos no sentido crítico. Votar sem devoção, sem paixão cega, sem cheques em branco. Dar o voto como quem assina um contrato com cláusula de fiscalização permanente. A democracia não termina no boletim de voto, começa aí.

O bom eleitor é aquele que entra na cabine com dúvidas, escolhe apesar delas e sai decidido a vigiar. Sabe que não há candidatos perfeitos, mas há escolhas melhores do que outras. E sabe, sobretudo, que ficar de fora não é neutralidade, é abdicação.

Votar e reclamar depois é, convenhamos, uma tradição democrática respeitável. Porque, no fim de contas, como diria o meu tio Olavo: “Os indecisos vencem sempre. A questão é apenas a quem entregam a taça”.

  • Edson Athayde
  • CEO e CCO da FCB Lisboa

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