O diabo veste crédito

  • Rosália Amorim
  • 8 Maio 2026

Vamos acreditar que o sistema financeiro está muito mais saudável, como afirmam os banqueiros, mas o diabo está nos detalhes ou, como ironizo, está no crédito e pode vestir Prada.

Há poucos dias assisti ao filme o ‘Diabo Veste Prada 2’. É uma muita oportuna reflexão sobre a crise dos media, os desafios das plataformas digitais, a pressão dos anunciantes e a euforia consumista do luxo.

Aparentemente poderia apenas ser um filme fútil sobre questões da moda, mas não. É um argumento que vai mais fundo, na componente de negócio e de comportamentos em sociedade.

Curiosamente, nos dias seguintes o Banco de Portugal (BdP) anunciou o valor mais alto de sempre no crédito ao consumo, em Portugal, desde 2013, quer em número quer em montante. Trata-se de uma subida em todas as vertentes. As informações divulgadas pelo BdP sobre a contratação de crédito aos consumidores consideram crédito pessoal, crédito automóvel e crédito renovável, que inclui cartões de crédito, facilidades de descoberto e linhas de crédito.

Em parte, tudo isto é já o reflexo do aumento do custo de vida. Desde o cabaz alimentar aos combustíveis, das taxas de juro aos preços da habitação, tudo mudou e encareceu. Assim, muitas famílias em dificuldades endividaram-se ainda mais para honrar alguns compromissos.

Ao ler estes dados, lembrei-me do filme e do comportamento do consumidor. Por vezes, haja ou não crise, alguns não prescindem de manter o seu alto padrão de consumo e estilo de vida e até se endividam para, por exemplo, comprar uma viagem para férias.

Aliás, os últimos indicadores revelam também que atingimos o valor mais alto de sempre de portugueses a adquirir viagens de para férias no estrangeiro, no verão. E está tudo certo, desde que a carteira o permita. A somar a isso, os shoppings estão cheios, os restaurantes também e já não há mesa livre sem reserva antecipada.

Espera-se que a história não se repita, mas vale a pena lembrar o que se passou antes da depressão de 2008. Houve uma crise de combustíveis e vários avisos do Banco de Portugal sobre o excesso de crédito. Neste contexto, com a queda do Lehman Brothers, e outras instituições que abalaram a estrutura do sistema financeiro, vários pilares do setor ruíram.

Em suma, a queda gerou um efeito dominó, paralisando o crédito mundial, provocando quedas nas bolsas, falências de outras instituições, desemprego em massa e intervenções governamentais recorde para salvar o sistema financeiro.

A nossa memória tem, ou deveria ter, registada essa forte crise internacional que vivemos, nos Estados Unidos da América e na Europa. Em Portugal teve um impacto tão forte que em 2008 o país fez um pedido de resgate e sofreu a intervenção da troika.

Vamos acreditar que o contexto e a realidade são completamente diferentes e que o sistema financeiro está muito mais saudável, como afirmam os banqueiros, mas o diabo está nos detalhes ou, como ironizei no início deste artigo, o Diabo está no crédito e pode vestir Prada.

  • Rosália Amorim
  • brand, marketing & communication director do portuguese cluster da EY

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

O diabo veste crédito

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião