O preço dos afetos
Aprender a não reagir ao acaso seria um primeiro sinal importante para o novo Chefe de Estado. Nem todas as polémicas merecem o comentário presidencial, e nem todo o microfone demanda uma resposta.
A democracia portuguesa demorou dez anos a perceber que popularidade e autoridade não são a mesma coisa. Um político pode e deve ambicionar ambas, mas terá de saber lidar com um equilíbrio difícil que impeça que uma anule a outra.
Marcelo Rebelo de Sousa chegou a Belém, em 2016, com uma vantagem decisiva. Era mais que um Professor respeitado pelos seus alunos. Era um comunicador que dava notas dominicais, conhecia bem o ritmo mediático e intuía, como poucos, o momento certo para aparecer. Depois de uma presidência marcada pela reserva institucional, o contraste foi marcante.
O Presidente passou a estar em todo o lado. Nas tragédias, nas celebrações e nos momentos emocionais do país, mas também na rotina mediática diária. Tirava selfies, comentava futebol e reagia muito rapidamente e quase sem critério à atualidade. Criou uma relação de proximidade inédita com os portugueses, e os portugueses souberam responder-lhe na mesma moeda.
Os níveis de popularidade tornaram-se excecionais para um cargo que não governa. Mas a popularidade vive da presença constante. A autoridade institucional funciona de outra forma. Precisa de contenção e, sobretudo, de exceção. Um Presidente ganha peso quando a sua palavra não é banal, quando falar não é automático e quando o silêncio também comunica.
Ao longo dos últimos anos, Marcelo optou por reduzir essa distância. Fê-lo com empatia genuína e uma leitura política eficaz do país emocional. Mas há um efeito inevitável: quando o Presidente comenta tudo, deixa de existir o momento em que a sua intervenção altera verdadeiramente o equilíbrio político.
A palavra presidencial tornou-se permanente. E como tudo o que existe em abundância deixa de ser extraordinário e perde valor, o resultado é um paradoxo difícil de ignorar. Marcelo terminará o mandato como o Presidente mais próximo de sempre dos cidadãos, mas deixa também uma Presidência de baixa densidade institucional. Não por falha, mas por excesso. Porque o capital afetivo cresceu mais depressa do que o capital institucional.
O próximo Presidente herdará precisamente esse dilema. Uma instituição querida, mas menos sacralizada. A tentação será a de continuar o modelo, porque a popularidade raramente penaliza no curto prazo. António José Seguro já se comprometeu com as presidências abertas, que servirão para garantir proximidade e, desta forma, alimentar a popularidade. Mas o seu verdadeiro desafio será o de fazer o contrário.
Aprender a não reagir ao acaso seria um primeiro sinal importante para o novo Chefe de Estado. Nem todas as polémicas merecem o comentário presidencial, e nem todo o microfone demanda uma resposta. Há momentos em que o silêncio reforça mais autoridade do que uma sucessão de declarações em catadupa.
Também será essencial resistir à lógica do comentário permanente. A Presidência da República não existe para participar diariamente na arena mediática, existe para garantir equilíbrio quando o sistema político entra em tensão. E esses momentos chegam sempre.
Talvez a principal mudança passe por substituir “presença” por “coerência”. Não é indispensável estar em todo o lado, é relevante que, quando o Presidente intervém, o país saiba o que espera. A previsibilidade institucional gera confiança, ao contrário da reação constante que é geradora de ruído.
A democracia portuguesa dispensa um Presidente-celebridade, mas carece de um Presidente-árbitro. Um Presidente próximo, mas consciente de que a autoridade do cargo depende em certa medida da distância que souber preservar.
Os afetos são um ativo político muito poderoso. Mas quando passam a ser o principal instrumento de exercício do poder, acabam por cobrar um preço. E, como acontece com quase todas as faturas que se vão acumulando de forma lenta e quase invisível, esse preço só se torna aparente quando já não há margem para corrigir o caminho.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
O preço dos afetos
{{ noCommentsLabel }}