O silêncio faz barulho

  • Marlene Gaspar
  • 18 Fevereiro 2026

O silêncio também exige competência. Não é instintivo nem confortável. Exige experiência, sensibilidade e coragem. Coragem para não ceder à ansiedade coletiva de dizer alguma coisa.

Se “a cultura come a estratégia ao pequeno-almoço”, como afirma Peter Drucker, também se poderá dizer o mesmo do contexto. E come-a sem aviso.

Temos visto isso acontecer diversas vezes suficientes. Mudam ciclos políticos, surgem crises inesperadas, acontecem tragédias que ninguém antecipou. E aquilo que parecia uma estratégia sólida revela-se insuficiente perante a realidade. A estratégia continua essencial, mas o contexto passou a ser o verdadeiro filtro da relevância.

Neste cenário, há uma competência que se torna decisiva e nem sempre confortável para quem gere comunicação: saber quando não falar. O silêncio é uma forma de comunicar. E diz muito. Sabemos que uma imagem vale mais do que mil palavras. Em determinadas circunstâncias, o silêncio vale muito mais do que mil mensagens.

Não como ausência, mas como opção. Na gestão de marcas, e particularmente em momentos de dor coletiva, o silêncio pode ser a forma mais elevada de respeito. O silêncio ativo. Não é inação nem falta de posicionamento, é a decisão consciente de não acrescentar ruído quando não há valor a acrescentar.

A solidariedade das marcas vive neste território delicado. Só é legítima quando existe coerência entre o que a marca faz e o que a marca diz. O consumidor é um descodificador de intenções. Distingue ajuda de protagonismo sem pestanejar. A tentação do (story)telling sem o doing é traiçoeira. Se a narrativa pesa mais do que a ação, a legitimidade desaparece.

Em contextos críticos, comunicar só faz sentido se houver utilidade. Se a mensagem informa, mobiliza ou resolve, comunicar não só é útil, como fundamental. Caso contrário, o silêncio é muitas vezes a melhor resposta.

Esta maturidade serve não só às marcas, mas a qualquer situação que precisemos de gerir. Sempre fui de falar, falar, falar e falar e tenho-me (es)forçado a este exercício: “Falar resolve algum problema real?” Se não resolve, talvez não precise de ser comunicado. Nem sempre consigo, mas para lá caminho.

A diferença entre uma ação oportuna e uma ação oportunista raramente está na intenção. Está na utilidade. Uma ação genuína resolve algo concreto e, quase sempre, está alinhada com o core do negócio. Um banco financia. Uma transportadora move pessoas. Um retalhista distribui bens essenciais. Faz sentido. É útil. E não precisa de amplificação excessiva.

O oportunismo nasce do desajuste. Quando a marca entra num território que não domina ou transforma a dor em conteúdo. O consumidor percebe e reage.

Quando comunicar é necessário, a forma importa tanto quanto o conteúdo. Em momentos sensíveis, a sobriedade é a nova criatividade. Brevidade, factualidade e propósito. Três perguntas que temos de fazer na definição estratégica de comunicação: O que estamos a oferecer? Quem pode beneficiar? Como aceder? Sem adjetivos em excesso. Sem dramatizações. Sem protagonismo. A reputação, nesses casos, constrói-se quase em silêncio. Surge depois, como consequência natural da utilidade. Não porque foi amplificada, mas porque foi sentida.

Talvez o maior erro seja confundir presença com relevância. A pressão para falar é enorme. Mas liderança não é ocupar espaço, é dar-lhe significado. E isso exige preparação. Preparação para a incerteza. Planos de contingência, leitura de sinais, capacidade de resposta. Prevenir continua a ser melhor do que remediar. E, na comunicação, prevenir inclui saber quando não comunicar.

Porque o silêncio também exige competência. Não é instintivo nem confortável. Exige experiência, sensibilidade e coragem. Coragem para não ceder à ansiedade coletiva de dizer alguma coisa. Coragem para aceitar que nem sempre precisamos de falar e até estar presentes.

Numa economia de excesso, o silêncio bem usado diferencia. Funciona como uma pausa num mundo saturado de ruído. Comunicar não é apenas saber o que dizer. É saber quando dizer. E, sobretudo, quando não dizer. E, com isto, remeto-me ao silêncio.

 

“Este texto foi revisto e editado com o apoio de IA, respeitando o estilo e a ortografia definidos pela autora.”

  • Marlene Gaspar
  • Diretora-Geral da LLYC

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