O Super Bowl já não reflete os EUA, legitima o mundo
No fim, a atenção é o ativo mais escasso da economia mediática. E, quando o centro cultural se desloca, o maior palco do mundo não anuncia a mudança, legitima‑a.
No dia 8 de fevereiro, mais de cem milhões de pessoas voltaram a fazer a mesma coisa ao mesmo tempo, parar. Parar para ver futebol americano claro, mas sobretudo para ver comunicação. O Super Bowl já não é apenas um evento desportivo é o último grande momento de atenção coletiva num ecossistema mediático fragmentado. Este ano, um spot de 30 segundos voltou a bater recordes. Não compra apenas audiência, compra centralidade cultural. O que mudou não foi o valor, foi a natureza da disputa.
Durante décadas, as marcas iam ao Super Bowl para serem vistas. Hoje vão para ser interpretadas. A vitória mede‑se mais na circulação, partilha, apropriação e permanência.
Mas, este ano a atuação de Bad Bunny não foi apenas entretenimento foi um sinal, produzida como um dos espetáculos mais complexos da história do Super Bowl, com milhares de efeitos pirotécnicos e centenas de performers. Mais do que espetáculo, foi uma afirmação simbólica, o estádio transformou‑se numa metáfora visual de Porto Rico e, por extensão, da centralidade da cultura latino americana no mainstream global.
A escolha surgiu num contexto politicamente tenso nos Estados Unidos, marcado por debates sobre língua, identidade e pertença. Ainda assim, ou precisamente por isso, não soou disruptiva, mas sim inevitável. Não foi uma aposta, foi o reconhecimento de onde já está o centro cultural. E num país profundamente polarizado, o halftime show foi lido, paradoxalmente, como um dos poucos momentos unificadores da esfera pública americana, com a presença de mensagens explícitas de unidade, “Together, we are America”.
Há muito que se sabe que os media e a indústria de entretenimento não criam cultura, seguem aquilo que já ganhou tração real. O caso Bad Bunny é sintomático, a cultura latino americana não está a pedir legitimação, já é dominante e é o mainstream que se adapta a ela. Momentos como o Super Bowl funcionam como selo institucional tardio de fenómenos que já são inevitáveis.
Por isso, o halftime show deixou há muito de ser apenas pop entertainment. Tornou‑se uma infraestrutura cultural e um statement simbólico. A Super Bowl já não revela tendências americanas para exportação, reflete tendências globais que os EUA começam a importar. E a escolha de artistas revela quem já domina a cultura global, não quem está a emergir.
O paradoxo permanece. Nunca houve tanta fragmentação, e ainda assim, uma noite por ano continua a concentrar parte significativa da atenção mediática global. O Super Bowl é o último grande ritual partilhado. E funciona como barómetro da comunicação contemporânea, menos interrupção, mais integração, menos mensagem, mais experiência e mais momento de identidade cultural.
No fim, a atenção é o ativo mais escasso da economia mediática. E, quando o centro cultural se desloca, o maior palco do mundo não anuncia a mudança, legitima‑a.
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