Portugal tem de transformar atratividade em valor

Portugal não atrai só visitantes. Segurança, estabilidade e qualidade de vida transformaram-no em escolha de casa e património. Desafio é convertê-la em investimento produtivo, habitação e serviços.

Durante muitos anos, o sucesso internacional de Portugal foi medido pelo número de turistas que nos visitavam. O turismo colocou o país no mapa internacional e permitiu que milhões de pessoas descobrissem atributos que hoje pesam nas decisões de longo prazo: a segurança, o clima, o património, a hospitalidade e a qualidade de vida.

Essa relação tornou-se mais profunda. Portugal deixou de ser apenas um destino de férias ou de segunda habitação e, para muitas famílias internacionais, passou a representar um lugar onde é possível viver, educar os filhos, trabalhar, criar negócios, gerir empresas e proteger o património num contexto europeu estável.

Esta mudança altera a competição entre países. Quando alguém escolhe um destino turístico, compara experiências e quando escolhe um país para viver ou investir compara confiança e avalia regras, segurança jurídica, qualidade das instituições, acesso à saúde e educação e possibilidade de construir um projeto de futuro.

Portugal conquistou uma posição relevante nessa escolha. A sua pertença à União Europeia e à Zona Euro, a estabilidade institucional e a qualidade de vida que oferece são uma proposta difícil de replicar. Num mundo marcado pela incerteza, estes fatores passaram a estar no centro das decisões de residência e de gestão patrimonial.

O mercado imobiliário é uma das expressões mais visíveis desta transformação, mas não é o seu ponto de partida. Antes de escolher uma casa, escolhe-se um país, um sistema jurídico, uma comunidade e uma perspetiva de futuro.

E esta procura representa uma oportunidade. A entrada de novos residentes e de capital internacional dinamiza a reabilitação urbana, cria procura para empresas e serviços e reforça a projeção externa de Portugal, mas o sucesso não pode ser medido apenas pelo número de transações ou pelo valor dos imóveis.

O verdadeiro desafio é transformar a atratividade em capacidade económica. Atrair capital é positivo, mas será mais relevante se contribuir para criar empresas, emprego qualificado, inovação e novas ligações aos mercados internacionais. Receber pessoas com experiência e redes globais terá maior impacto se conseguirmos aproximá-las da economia portuguesa.

O mesmo se aplica à habitação. Portugal precisa de continuar aberto ao investimento e à mobilidade internacional, mas precisa também de aumentar a oferta, acelerar o licenciamento, promover a reabilitação e criar soluções para diferentes rendimentos. Construir mais é essencial, mas também é necessário garantir que as cidades continuam acessíveis a quem vive dos rendimentos gerados no país.

Este equilíbrio é decisivo. Um país muito atrativo para quem chega, mas progressivamente inacessível para quem cá vive, arrisca comprometer a sua proposta de valor. A segurança e a estabilidade dependem também da coesão social e da perceção de que o crescimento cria oportunidades partilhadas.

Para que esta transformação aconteça, Portugal precisa também de assumir uma ambição coletiva: tornar-se o país menos burocrático da Europa. Pode parecer um objetivo excessivamente ambicioso, mas é precisamente este tipo de meta que pode alinhar, em uníssono, o Governo, as câmaras municipais e as restantes entidades reguladoras em torno de uma prioridade concreta: simplificar processos, reduzir a incerteza e encurtar os tempos de decisão.

Para empresas nacionais e estrangeiras, fundos de investimento, fundos de pensões e outros investidores de longo prazo, a competitividade de um país não se mede apenas pelo custo dos ativos ou pelas condições financeiras. Mede-se também pela previsibilidade: saber quais são as regras, quanto tempo demora uma decisão e se um projeto pode avançar dentro de um horizonte razoável. A burocracia, quando é excessiva ou imprevisível, deixa de ser apenas um incómodo administrativo e torna-se um custo económico e uma barreira à criação de valor.

Na habitação, o Simplex pode ser um primeiro passo, mas a diferença será feita na execução. É necessário colocá-lo em marcha, simplificar procedimentos, acelerar licenciamentos e garantir maior coerência na aplicação das regras entre entidades e municípios. Ainda existe um longo caminho a percorrer, mas fazer da simplificação uma prioridade nacional pode ser um dos grandes fatores de competitividade de Portugal e uma condição essencial para que mais investimento se traduza em mais oferta, mais atividade económica e benefícios concretos para quem cá vive.

Portugal já conquistou a confiança de quem pode escolher entre várias geografias. O turismo abriu a porta ao mundo e a qualidade de vida fez com que muitas pessoas quisessem ficar. A próxima etapa é garantir que essa escolha gera mais do que a procura imobiliária. Deve gerar investimento produtivo, melhores cidades, serviços mais fortes e novas oportunidades.

Atrair deixou de ser o objetivo final. O verdadeiro valor de Portugal estará na capacidade de transformar confiança internacional em prosperidade partilhada. Isso exige objetivos ambiciosos, vontade de execução e a capacidade de mobilizar a nossa força coletiva em torno do que realmente faz a diferença para criar valor.

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