Receber não é integrar

  • Marlene Gaspar
  • 12:00

Imigração não é um problema de comunicação. É um problema de falta dela, clara, honesta e baseada em factos.

Somos um povo de brandos costumes e muito acolhedores. Creio que todos temos uma costela de taxista, porque sempre que alguém nos aborda, fale a língua que falar, tuga que é tuga arranja forma de se entender. Sai-nos um “Good morning”, um “Bonjour”, um “Buenos días”, um “Buongiorno”, um “Guten Morgen”, um “Bom dia”, um “Ciao”, um “Hola”, fácil. Somos poliglotas emocionais quando queremos. Mas estamos no mesmo nível no que toca à integração de pessoas de outras proveniências, culturas ou etnias?

Recebemos de portas abertas, de mesa posta. Fomos emigrantes, somos emigrantes e continuaremos a sê-lo. Sabemos o que é chegar a outro país com sotaque, medo e esperança na mesma mala, mesmo já não sendo de cartão.

Vivemos em plena campanha eleitoral e a imigração volta a ser bandeira, megafone e arma de arremesso. Uns pintam-na como solução para todos os problemas demográficos e económicos. Outros como a origem de todos os males.

A minha escuta ativa em conversa de café, de rua, da comunicação social e afins começa quase sempre da mesma forma: “Eu não sou contra, mas…” e é o “mas” que lixa tudo.

A escuta ativa baseada em dados, essa sim a que conta, porque é fidedigna, diz-nos que Portugal é dos países europeus onde a migração tem efeitos económicos mais positivos: profissionais migrantes já representam cerca de 20% da força de trabalho nos setores de tecnologia e inovação, e são essenciais para crescimento e competitividade. No turismo e na hotelaria foram decisivos na recuperação pós-pandemia e e na agricultura asseguram colheitas que muitos pensavam impossíveis sem mão de obra externa.

A imigração aumenta receitas fiscais, contribui para a segurança social e ajuda a mitigar o forte envelhecimento demográfico que ameaça a sustentabilidade dos nossos sistemas públicos.

Ganhamos com a imigração. Ganhamos diversidade, força de trabalho, rejuvenescimento demográfico e inovação. Perdemos quando não existe planeamento, integração, dados concretos e política pública consequente.

Os portugueses não rejeitam quem chega. O que rejeitam é o caos. Preferem uma imigração organizada, previsível e responsável, que não depende da boa vontade do acaso nem da sobrecarga silenciosa dos serviços públicos. Uma imigração que funcione em benefício de todos.

Eu trabalho na Avenida da Liberdade e um dia destes entrei num café em frente ao escritório e fui recebida com um simpático “Good morning!”. Sorrio e penso que o meu look internacional está mesmo a fazer efeito! O meu entusiasmo terminou ali, pois não foi o meu ar de cidadã do mundo que o fez dirigir-se a mim em inglês. Ao dizer-lhe que podia falar comigo em português, porque sou portuguesa, sou surpreendida por um: “But I’m not. Do you want to call my colleague?”

Este episódio, além de sui generis (se calhar cada vez menos), revela várias coisas: boa vontade, falta de integração, espaço para todos e também desencontro. Na mesma semana, uma colega, à espera de um serviço TVDE dizia-me: “eu só espero que não me calhe um motorista que não fale português, porque senão como lhe peço ajuda para descarregar as bagagens”!

Não se trata de exigir perfeição linguística à chegada. Trata-se de perceber que a língua é mais do que comunicação, é pertença. É ponte. É sinal de querer ficar, não apenas passar.

Todos temos uma costela de taxista, mas integração não se faz só de simpatia. Talvez por isso me encantei pela 1789.ª vez, no final do ano passado a rever a cena de Love Actually em que Colin Firth representa um inglês, que conheceu uma portuguesa (interpretada pela “nossa” talentosa Lúcia Moniz) e aprende a falar português. Com esforço, ele fala. E isso é irresistível (ele também é um bocadinho, o que parecendo que não, facilita, vá!). Não é realismo. É simbolismo. É o gesto de quem tenta entrar verdadeiramente no outro mundo.

Em novembro passado acolhi uma menina dos Países Baixos em minha casa, que este ano vai receber a minha filha na sua terra natal, num programa de intercâmbio. Foi uma semana, logo um prazo de validade com os dias contados. Ainda assim, já deu para entender as diferenças culturais, a necessidade de adaptação, a necessidade de ajustar a nossa forma de estar em casa, de escutar, de ser simpática e sobretudo empática. E, curiosamente, a língua foi a menor das barreiras. Ou seja, não é o mesmo que receber um amigo em casa. É preciso mais.

Este é um tema no qual que sinto que precisamos urgentemente de baixar o tom e subir o nível. Apurar mais dados. Comparar dados globais. Contextualizar. Parar de enfatizar apenas o lado bom ou apenas o mau. Porque quando se comunica sem contexto, cria-se ruído. E o ruído é o terreno preferido dos extremos.

Imigração não é um problema de comunicação. É um problema de falta dela, clara, honesta e baseada em factos. Porque integração não se faz só de simpatia. Faz-se de políticas, dados e contexto. Acolher não é só deixar entrar, é integrar de forma que faça sentido para quem chega e para quem já está cá. Sejamos cidadãos do mundo e não apenas cidadãos de Portugal e do Bangladesh.

 

*Este texto foi revisto e editado com o apoio de IA, respeitando o estilo e a ortografia definidos pela autora.

  • Marlene Gaspar
  • Diretora-Geral da LLYC

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Receber não é integrar

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião