Vamos olhar para o digital dos publishers portugueses: um retrato de estagnação!
Há potencial, há capacidade editorial e há procura por parte dos leitores - mas falta a criação sistemática de produtos digitais contemporâneos e de novas fontes de receita.
Nos últimos anos, o Setor dos media atravessou uma fase de transformação acelerada em praticamente todos os mercados europeus. A digitalização tornou-se o eixo central do desenvolvimento de novos produtos, modelos de receita e estratégias de crescimento. No entanto, quando se observa a realidade portuguesa, verifica-se um desfasamento evidente face ao que tem acontecido noutros países.
A posição de Portugal no contexto europeu
Em diversos mercados europeus, o digital já representa uma parte substancial da faturação dos principais grupos de media.
- Axel Springer (Alemanha), onde a atividade digital já ultrapassa os 70% das receitas totais;
- Schibsted (Noruega e Suécia), cuja operação digital representa mais de metade do negócio;
- Ringier (Suíça), com cerca de 45% das receitas já provenientes de produtos e iniciativas digitais;
- Mediahuis (Bélgica, Holanda e Irlanda), consistentemente acima dos 30% em receitas digitais;
- Prisa Notícias (Espanha), que tem reforçado o peso do digital através do crescimento de subscrições e novos serviços.
Estes exemplos mostram uma tendência clara: nos grandes mercados europeus, o digital é hoje um pilar central da estratégia e não apenas uma extensão dos produtos tradicionais.
O panorama português: crescimento limitado e pouco expressivo
Em Portugal, o cenário é bastante diferente. Os principais grupos de media — Impresa, Media Capital e Medialivre — apresentam há vários anos um peso do digital que se situa entre 10% e 15% das suas receitas totais.
Ao analisar os relatórios e contas publicados ao longo dos últimos cinco anos, observa-se que:
- O peso relativo do digital se mantém praticamente constante;
- Não se registam alterações estruturais ou incrementos significativos;
- A evolução é marcada por pequenas oscilações, mas sem tendência de crescimento sustentado;
- Não surgiram, neste período, iniciativas digitais capazes de alterar a composição das receitas ou de criar novas fontes relevantes de monetização.
Este padrão sugere que o digital continua a desempenhar um papel secundário no modelo de negócio dos publishers portugueses, apesar de serem empresas com marcas fortes, elevada notoriedade e grande alcance nas plataformas digitais.
Ausência de iniciativas estruturantes
Nos mercados onde o digital mais tem avançado, esse crescimento foi alimentado por:
- O lançamento de paywalls e modelos de subscrição;
- O desenvolvimento de novas plataformas de vídeo e áudio;
- A criação de produtos premium e membership programs;
- A aposta em content commerce, marketplaces e serviços complementares;
- A utilização de modelos avançados de publicidade (como formatos de atenção, impacto ou dados próprios);
- O lançamento contínuo de produtos editoriais digitais, newsletters segmentadas, apps e áreas temáticas.
Em Portugal, não se observaram movimentos comparáveis em escala, profundidade ou continuidade. Durante vários anos, os grandes grupos mantiveram essencialmente a mesma oferta digital, centrada nos seus sites principais, nas versões mobile e na publicidade display tradicional. A introdução de novos produtos, canais ou modelos de monetização tem sido limitada e esporádica, sem impacto significativo nas receitas.
Riscos associados à estagnação digital
Este atraso na evolução do digital coloca um conjunto de riscos relevantes para os publishers portugueses:
- Redução da competitividade – Num contexto europeu em que os concorrentes diretos conseguem gerar 30%, 40% ou até 70% das receitas no digital, a capacidade de investimento dos grupos portugueses torna-se limitada. Isto reduz a velocidade de inovação e amplia o fosso competitivo.
- Dependência de receitas tradicionais em declínio – À medida que o impresso e a televisão linear continuam a perder faturação, a ausência de crescimento digital dificulta a compensação desse declínio, colocando pressão no volume global de receitas.
- Atração de talento mais difícil – As equipas digitais tendem a procurar contextos dinâmicos, com projetos inovadores e perspetiva de crescimento. A falta de novos produtos e iniciativas dificulta a capacidade de atrair e reter profissionais especializados.
- Menor relevância na cadeia de valor – O ecossistema de comunicação e publicidade evoluiu rapidamente para uma lógica digital first. Sem diversificação digital, os publishers tornam-se menos relevantes para marcas, agências e tecnologias, perdendo espaço para plataformas globais, redes sociais e novos criadores de conteúdo.
Uma transformação ainda por concretizar
Apesar de Portugal ter marcas de media fortes, audiências significativas e um mercado digital em crescimento, a evolução dos modelos de negócio dos grandes publishers permanece limitada. Há potencial, há capacidade editorial e há procura por parte dos leitores – mas falta a criação sistemática de produtos digitais contemporâneos e de novas fontes de receita.
A transição digital dos media portugueses continua, assim, numa etapa inicial, marcada mais por manutenção do que por desenvolvimento. Enquanto os restantes mercados europeus consolidam modelos digitais robustos, Portugal enfrenta o desafio de iniciar verdadeiramente essa transformação — antes que a distância se torne demasiado difícil de recuperar.
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