Voyah Courage: Um chinês com mais autoestima que um bávaro
Um SUV elétrico chinês que combina luxo, espaço e massagem sem rebentar o orçamento da família. Quem disse que o futuro tem de vir da Alemanha ou dos EUA?
O Voyah Courage não é mais um SUV elétrico chinês que passa despercebido no trânsito. É, acima de tudo, um manifesto do pragmatismo provando que o value for money num automóvel pode ter um nome próprio e chegar do Império do Meio.
Com preços que arrancam nos 51 mil euros e sobem até aos 58 mil na versão de tração integral “Luxury”, este modelo da Dongfeng – importado pelo grupo Salvador Caetano – posiciona-se num segmento tão concorrido como o dos SUV elétricos de dimensão média, onde o Tesla Model Y e a Skoda Enyaq já não têm o monopólio da racionalidade.
A história da Voyah é recente, mas não desprovida de ambição. Nascida sob o guarda-chuva do gigante chinês Dongfeng, a marca chegou a Portugal com o Free e o Dream, mas é com o Courage que pretende conquistar o coração (e a carteira) das famílias portuguesas. E o nome “Courage” não é mera retórica: é preciso coragem para enfrentar um mercado saturado de propostas com mais anos de estrada e reputação consolidada. Mas, como se sabe, na China a ousadia é matéria-prima.
A primeira coisa que salta à vista no Courage é o espaço. Com 4,72 metros de comprimento e uma distância entre eixos generosa, o habitáculo é uma lição de arquitetura elétrica: não há túnel de transmissão, o piso é plano e até um condutor com 1,80 metros se sente em casa.
A bagageira oferece 527 litros mais 70 litros no compartimento inferior, o que, na prática, significa que uma viagem de fim-de-semana com a família e as respetivas tralhas não é problema. A forma da bagageira não é a mais ortogonal, mas o espaço está lá.
Os materiais de construção surpreendem pela positiva. O tablier é revestido a materiais macios, os estofos em pele sintética têm boa textura, e os detalhes em preto brilhante – embora propensos a dedadas – transmitem uma sensação de modernidade. O teto panorâmico tem cortina elétrica e, numa viagem pela cidade durante a semana, a luz natural transforma o ambiente. O único senão: a ausência de vidros duplos na versão de entrada, que se nota em velocidades de autoestrada.
O ecrã central de 15 polegadas é a estrela do show. Curvo, com resolução aceitável e uma interface que lembra um tablet, concentra quase todas as funções. Mas a verdadeira inovação está na sua mobilidade: desliza sobre um carril para se posicionar em frente ao condutor, ao pendura ou numa posição central.
É uma solução disruptiva que elimina a necessidade de múltiplos ecrãs e que, numa viagem mais longa permite ao pendura ver um filme enquanto o condutor se foca na navegação. O único problema: a navegação não é integrada, depende do Apple CarPlay ou Android Auto.
Conforto sobre rodas e também na carteira
Os bancos da frente são elétricos, aquecidos, ventilados e com massagem em três modos. Funcionam bem e são um aliado precioso no trânsito da cidade. Na versão Luxury, testada pelo ECO, os bancos traseiros também são aquecidos – um detalhe que os alemães cobram a peso de ouro.
O volante aquecido, curiosamente, só aparece na versão topo de gama, o que é uma falha num carro que se quer premium. A massagem, porém, compensa: três modos diferentes que, combinados com a função de aromatização do habitáculo (três compostos de cheiros), criam uma atmosfera que faz esquecer o stress do dia-a-dia.
O Voyah Courage não é um desportivo e não pretende ser. A versão de entrada tem 292 cavalos e tração traseira, o que chega e sobra para a maioria das situações. A aceleração dos 0 aos 100 km/h demora 6,9 segundos – suficiente para deixar para trás a maioria dos carros a combustão no semáforo.
A bateria de 80 kWh (LFP) promete 476 quilómetros de autonomia WLTP, mas na realidade esperam-se cerca de 400 quilómetros em condução mista. O carregamento DC até 145 kW não é a referência do segmento, mas carrega de 10% a 80% em 35 minutos – tempo suficiente para um café e uma sandes na A2.
O Voyah Courage entra no mercado com um argumento simples: mais equipamento por menos dinheiro através de uma versão de entrada por 51 mil euros muito bem equipada.
A condução é confortável. A suspensão, mesmo com jantes de 20 polegadas, filtra bem as imperfeições do piso lisboeta e a direção tem peso, o que é refrescante num mundo de volantes demasiado leves. Na autoestrada, o Courage mantém-se estável e silencioso, com assistentes de condução que funcionam bem, à exceção do alerta de atenção do condutor: uma câmara no pilar A que solta um apito ao mínimo desvio de olhar e que, mesmo desligada, continua a vigiar. É irritante e representa uma das poucas falhas de usabilidade.
O Voyah Courage entra no mercado com um argumento simples: mais equipamento por menos dinheiro. A versão de entrada, por 51 mil euros oferece massagem, bancos aquecidos e ventilados, ecrã deslizante, teto panorâmico, carregamento wireless refrigerado e assistentes de condução. A concorrência direta – Tesla Model Y, Skoda Enyaq, VW ID.4 – cobra mais por menos. A versão Luxury, nos 58 mil euros, acrescenta tração integral, 435 cavalos, volante aquecido e bancos traseiros aquecidos, posicionando-se bem abaixo de um BMW iX3 ou Mercedes EQC.
A garantia e a rede de assistência são os pontos de interrogação. O grupo Salvador Caetano tem experiência com marcas chinesas, mas a Voyah ainda não provou a sua fiabilidade a longo prazo. O valor de revenda é uma incógnita e a marca carece do prestígio dos construtores alemães ou suecos. Mas, para quem prioriza o value for money, estes são riscos calculados.
O Voyah Courage não é perfeito. Tem assistentes irritantes, falta de navegação integrada e uma marca sem história. Mas é espaçoso, bem equipado, confortável e tem detalhes únicos que o desmarcam da massa. Para o consumidor comum que faz viagens urbanas durante a semana e escapadelas familiares é uma proposta séria e racional. A China não tem limites – e o Courage prova que, por vezes, o futuro chega de onde menos se espera, com um ecrã que desliza e um preço que faz tremer a concorrência.
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