Estado de calamidade: como deve comunicar o Governo?

A comunicação é determinante na forma de lidar [e de liderar] com a situação que o país atravessa, no rescaldo da tempestade Kristin. O que fazer e quais as linhas vermelhas?

Governo decidiu decretar na manhã desta quinta-feira situação de calamidade nas zonas mais afetadas pela tempestade Kristin. Com o país ainda no rescaldo das consequências da tempestade, a comunicação é essencial para informar a população de forma clara e rápida, orientando sobre riscos, medidas de segurança e acesso à ajuda. E é também garante de transparência e provavelmente a melhor forma de combater a desinformação e fortalecer a confiança nas autoridades.

Num situação como a que assola o país desde a noite de quarta-feira, e com algumas zonas do país a viver um novo ‘apagão’, o que deve o Governo fazer? E, em sentido contrário, quais os sinais vermelhos? A pedido do ECO/+M, Maria Domingas Carvalhosa, managing parter da Wisdom, aponta as prioridades e alerta também para os erros.

Neste caso concreto, e numa primeira avaliação à atuação do Governo, Maria Domingas Carvalhosa defende que a recente declaração de estado de calamidade, bem como a visita do primeiro-ministro às regiões mais afetadas, “são sinais de uma comunicação politicamente responsável, que reconhece a dimensão humana da crise e transmite proximidade do poder central aos territórios”

Agora, aguarda-se a comunicação de como essa coordenação se traduz em meios, decisões e apoios no terreno, “o que será determinante para consolidar a perceção de controlo, eficácia e coesão institucional na resposta à crise“.

Para já, a também presidente da APECOM – Associação Portuguesa das Empresas de Comunicação dá nota positiva ao Governo. “A comunicação do Governo, até ao momento, parece-me globalmente competente, não só pela rapidez com que foi prestado um ponto de situação, através de uma conferência de imprensa com o Secretário de Estado da Proteção Civil e o Presidente da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, na presença do primeiro-ministro e da ministra da Administração Interna, mas também porque assentou em mensagens de empatia e de factualidade, claras e úteis para a compreensão da gravidade da situação“, começa por defender.

O que devem fazer:

  1. Dizer a verdade cedo e a uma só voz – Num contexto de crise, a confiança constrói-se com informação clara, regular e centralizada. Um ponto de situação conjunto entre Governo, Proteção Civil, IPMA e operadores críticos é essencial para evitar ruído e versões paralelas. Dizer “não sabemos ainda” é muitas vezes mais credível do que prometer prazos que não se conseguem cumprir. Em crises desta natureza, a coerência vale tanto quanto a rapidez.
  2. Dar instruções práticas orientadas à vida real das pessoas – A comunicação tem de responder à pergunta básica: “O que faço agora?”. Onde carregar telemóveis? Onde obter água? Que estradas estão transitáveis? Que escolas estão encerradas? Uma comunicação eficaz traduz dados técnicos em soluções imediatas para o quotidiano das populações afetadas.
  3. Demonstrar coordenação visível com as autarquias – As câmaras municipais são a primeira linha de contacto com as populações. Tornar pública essa articulação — equipas conjuntas, prioridades definidas, apoio logístico reforçado — aumenta a perceção de controlo e proximidade do Estado.

O que não devem fazer:

  1. Não normalizar a situação antes de tempo Falar em “normalização” quando ainda há milhares de pessoas sem serviços básicos cria frustração e descredibiliza a autoridade. Em crises meteorológicas, a prudência comunicacional é uma forma de respeito institucional.
  2. Não comunicar apenas em números operacionais – Dizer quantas ocorrências houve ou quantos meios estão no terreno é insuficiente se não se explicar o que isso muda para quem está sem luz, sem água ou sem rede móvel. Os números precisam sempre de tradução humana.
  3. Não dispersar porta-vozes nem mensagens – Quando cada entidade fala por si, a perceção pública é de desorganização. Um porta-voz político e um técnico, com mensagens alinhadas e um Q&A único, reforçam autoridade e serenidade.

 

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