O lado negro dos emojis
Os emojis têm múltiplos significados para além do que foi pretendido ou da forma como são rotulados, e a sua utilização pode ser muito subjetiva.
Os emojis, pequenos ícones digitais utilizados para expressar emoções, ideias ou objetos, são já uma parte inerente da comunicação digital moderna. E embora a sua aparência inocente seja muitas vezes benigna, há um número crescente de provas que apontam para um lado mais sombrio que sustenta atividades ilícitas e criminosas.
Aparentemente inofensivos e universais, os emojis têm vindo a ser apropriados pelo mundo do cibercrime como uma linguagem codificada que permite comunicar intenções ilícitas sem levantar suspeitas imediatas. Em fóruns clandestinos, canais de Telegram e marketplaces da dark web, os emojis são utilizados para substituir palavras-chave sensíveis (como drogas, malware, cartões roubados ou ataques), contornar sistemas de moderação automática e reduzir o risco de deteção por autoridades ou plataformas. Um simples 💳 pode indicar cartões de crédito roubados, 🔥 pode sinalizar dados “frescos” acabados de ser comprometidos, e 🛠️ pode referir-se a kits de hacking ou serviços de ataque, criando um vocabulário visual compreendido apenas por quem faz parte do ecossistema criminal.
Quando se trata de comunicação ilícita, os cibercrimosos têm demonstrado uma particular agilidade em se adaptar. Tem sido já amplamente discutido como as plataformas de comunicação altamente encriptadas têm vindo a desempenhar um papel cada vez mais crucial no ecossistema digital do crime organizado, no entanto, por vezes, a comunicação ilícita começa em pequenos detalhes subtis que passam despercebidos — precisamente, com o uso dos emojis.
Os criminosos têm vindo a explorar os emojis para comunicarem secretamente, realizando transações ilegais e visando vítimas inocentes, tudo isto, enquanto escapam à aplicação da lei e aos sistemas de deteção baseados em texto.
A maioria dos métodos tradicionais de deteção depende muito da análise textual, que muitas vezes não tem em conta a interpretação precisa do contexto e do significado dos emojis em vários canais de comunicação. Os emojis são símbolos gráficos e, por isso, podem ser ignorados pelos filtros e sistemas de deteção. A tecnologia pode ser capaz de sinalizar o uso de emojis, contudo, em última análise, exige que um analista infira o significado — mas, como suprimir a ambiguidade? Como saber se o propósito é de humor ou para comunicar algo ilícito?
Os emojis têm múltiplos significados para além do que foi pretendido ou da forma como são rotulados, e a sua utilização pode ser muito subjetiva. Esta ambiguidade dificulta que os profissionais e os próprios sistemas de deteção distingam se um emoji está a ser utilizado conforme o pretendido ou com um significado malicioso.
A verdade é que, os emojis não podem ser considerados uma linguagem universal, principalmente quando pensamos nas interpretações distintas que variam de acordo com a cultura em questão. Por exemplo, um emoji de “thumbs-up” tem sido debatido como ofensivo ou vulgar no Médio Oriente, enquanto no Ocidente é um sinal de algo bom e positivo.
A ambiguidade e o uso contextual dos emojis representam desafios significativos para as forças policiais e sobretudo para os profissionais de cibersegurança no combate a criminosos ilícitos e maliciosos. É necessário, no entanto, um entendimento mais profundo no que diz respeito à compreensão do fenómeno dos hieróglifos na atualidade para que as forças policiais, os investigadores e os sistemas de deteção possam identificar e, idealmente, impedir que os utilizadores digitais se tornem mais vítimas.
Além disso, é também crucial que a sociedade digital esteja particularmente atenta ao fenómeno e aos seus múltiplos significados ocultos.
Para além da codificação, os emojis desempenham também um papel psicológico e social no cibercrime, ajudando a normalizar atividades ilegais e a criar um sentimento de comunidade entre criminosos digitais. O uso de símbolos lúdicos reduz a perceção de risco e gravidade, tornando crimes complexos — como ransomware, fraude financeira ou tráfico digital — mais acessíveis e “gamificados”, sobretudo para novos membros. Este lado negro dos emojis representa um desafio crescente para investigadores e equipas de cibersegurança, que necessitam interpretar contextos culturais e semânticos em constante mutação, onde um simples ícone pode esconder um ataque iminente ou uma transação criminosa em curso.
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