O viagra do criativo

  • Marcelo Lourenço
  • 15:40

2026 já avisou que não vai ser um ano fácil. Os problemas, as más notícias e as situações que parecem não ter solução são lenha para a fogueira da criatividade.

Nos anos 60, o americano Gene Roddenberry já havia tentado de tudo na vida: tinha sido polícia, jornalista, segurança e agora tentava a carreira de argumentista e produtor televisivo. Tinha esta ideia esquisita sobre uma nave espacial que viajava pelas galáxias a tentar fazer contacto com novas formas de vida. No conceito original da série, a tal nave espacial deveria ir a um novo planeta por episódio, onde uma segunda nave menor, um transporte, levava os tripulantes até à superfície do novo mundo. A série acabou por ser aprovada, mas o estúdio disse: não temos dinheiro para construir duas maquetes de nave espacial — corta lá o transporte. Foi então que Gene teve uma ideia: criou uma sala onde os tripulantes desapareciam num efeito manhoso de luz e apareciam novamente já na superfície do planeta.

A série era Star Trek, um dos maiores fenómenos da história da televisão, e o famoso teletransporte da Enterprise, criado devido à falta de orçamento, é até hoje uma das marcas registadas da série.

Stan Lee começou a trabalhar na Marvel Comics como estagiário, limpando mesas e levando café para os artistas da casa. Foi sendo promovido e, cargo a cargo, chegou a editor-chefe. E, já perto dos 40 anos, achava aquilo tudo uma perda de tempo. Estava cansado de escrever histórias sobre super-heróis, que eram sempre a mesma coisa. Queria ser jornalista, escritor, qualquer outra profissão onde pudesse fazer algo de que se orgulhasse. E anunciou à mulher: vou pedir demissão. E ouviu um belo conselho da patroa: já que queres sair, porque não aproveitas e fazes ao menos uma história do jeito que tu achas certo? Assim, mandam-te embora.

Foi então que Stan Lee teve uma ideia: decidiu criar uma história que ia contra todas as boas regras da banda desenhada, um grupo de super-heróis que eram, na verdade, uma família, onde a esposa se chateava com o marido, o cunhado era um pacóvio que só arrumava confusão e um dos membros do grupo detestava ser super-herói. O grupo chamava-se O Quarteto Fantástico e foi um sucesso tão grande que os chefes de Stan Lee pediram mais. E Stan Lee deu-lhes mais: o Homem-Aranha, o Demolidor, os Vingadores, o Homem de Ferro — personagens complexos e diferentes dos heróis de então, que ajudaram a transformar a Marvel, hoje, na maior e mais lucrativa força criativa do mundo.

No verão de 1816, o mundo teve uma das suas piores colheitas de sempre, o que levou a uma falta generalizada de alimentos. Quem pagou foram os cavalos, que começaram a ser abatidos para alimentar a malta. E, com a falta de cavalos, o principal meio de transporte da época, veio também uma crise na mobilidade. Foi então que um alemão, o barão Karl von Drais, teve uma ideia: inventou a primeira bicicleta da história.

Nos anos 20, durante a Lei Seca, a polícia perseguia toda a gente que produzisse, vendesse ou consumisse álcool em público. Foi então que os donos de bares tiveram uma ideia: começaram a misturar sumos e outras bebidas coloridas com álcool de fraca qualidade para disfarçar o sabor — e assim nasceram os primeiros cocktails da história.

O dono de uma pizzaria, Richard Davis, saiu um dia para fazer o seu trabalho, mas como o fazia numa cidade perigosa dos Estados Unidos, foi assaltado e acabou por levar dois tiros. Enquanto recuperava no hospital, Richard teve uma ideia: criar um acessório que o protegesse da próxima vez que alguém resolvesse assaltar a sua pizzaria. E assim foi criado o primeiro colete à prova de bala.

Nos anos 90, a Pfizer investiu um dinheirão para criar um remédio para tratar problemas cardíacos. Fez testes, testes e mais testes e, afinal, o remédio era um fracasso. Mas causava um efeito colateral interessante: dava aos pacientes masculinos uma bela de uma ereção. A Pfizer teve então uma ideia: transformou o remédio na famosa pílula azul conhecida como Viagra, a alegria de muitos homens mundo afora, e um gigantesco sucesso de vendas.

Todas estas histórias têm uma coisa em comum, algo que vale a pena lembrar agora que 2026 já avisou que não vai ser um ano nada fácil: os problemas, as más notícias e as situações que parecem não ter solução são lenha para a fogueira da criatividade.

São, aproveitando o exemplo anterior, o Viagra do criativo.

Então, feliz 2026 — e Viagra nisso.

  • Marcelo Lourenço
  • Co-fundador da Coming Soon Lisboa

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