Portugal dos Pequenitos
Agora que a Louis Vuitton já coloca “made in Portugal” nos seus produtos, já podemos dizer que o problema da marca Portugal está resolvido?
A notícia de que a Louis Vuitton começou a assumir a designação “made in Portugal” em peças de marroquinaria em couro foi recebida com natural entusiasmo por governantes e associações empresariais. E, em certa medida, compreende-se. Trata-se do reconhecimento claro da qualidade da nossa indústria e do saber fazer dos nossos artesãos. Num país habituado a ter o seu valor escondido, qualquer visibilidade parece uma vitória.
Mas convém manter a lucidez e o sentido crítico.
Quando uma marca de luxo passa a identificar Portugal como origem produtiva, não estamos perante uma mudança estrutural do posicionamento do país no mapa dos produtos de grande valor acrescentado. Estamos, isso sim, perante a confirmação de algo que muitos setores conhecem há muito: Portugal é excelente a produzir para os outros. E é precisamente aqui que reside o problema.
O luxo vive de marcas, pelo que a captura de valor na cadeia do luxo acontece sobretudo para quem controla a conceção, a narrativa, e o controlo da distribuição. Ou seja, quem detém a marca fica com a margem, o prestígio e o poder. Quem produz, mesmo com extrema excelência, fica tipicamente com a parte mais magra da equação económica.
Portugal construiu, ao longo de décadas, uma reputação sólida em setores como o calçado, o têxtil e a marroquinaria, entre outros. Temos clusters eficientes, mão-de-obra altamente qualificada e uma capacidade industrial reconhecida e apreciada internacionalmente. O que continua a faltar, de forma estrutural, é escala e ambição na construção de marcas globais.
Celebrar o “made in Portugal” em produtos de terceiros é, no fundo, celebrar uma posição confortável — mas muito pequena. É aceitar um papel de bastidor num palco onde outros recolhem os aplausos e os lucros.
Portugal tem talento de qualidade, tem artesãos e tem capacidade industrial. O que precisa, com urgência, é de transformar esta competência produtiva em imagem de marca. Caso contrário, continuará a ser necessário…, mas substituível.
E para terminar, a pergunta impõe-se, com alguma ironia: Agora que a Louis Vuitton já coloca “made in Portugal” nos seus produtos, já podemos dizer que o problema da marca Portugal está resolvido?
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