A guerra como espetáculo
Para Trump, a comunicação não acompanha a ação política, é a ação política. A guerra, na sua narrativa, não se trava só com mísseis trava-se com frases curtas e dramatismo constante.
A ofensiva contra o Irão, desencadeada pelos Estados Unidos em coordenação com Israel, mostrou, com nitidez, como Donald Trump transforma a comunicação não apenas num instrumento, mas no próprio centro da ação política. O anúncio do ataque, apresentado num vídeo coreografado com nomes épicos como “Operation Epic Fury” não procurou explicar, contextualizar ou justificar. Procurou, antes, criar um momento, um ato simbólico capaz de dominar o ciclo mediático, reforçar a imagem de força e impor uma leitura única sobre o que estava prestes a acontecer e o discurso trouxe impacto, mas não trouxe estratégia.
Para perceber as guerras nesta região é preciso manter várias ideias em simultâneo, porque se trata de um caleidoscópio onde religião, petróleo, políticas tribais e rivalidades entre grandes potências se cruzam. Quem procura uma narrativa a preto e branco cai facilmente numa leitura simplista. Reduzir o Irão a um povo que espera ser “salvo” de fora é errado. E o que tornou este anúncio diferente foi o incitamento aberto aos iranianos.
No próprio vídeo, Trump pediu aos militares, à polícia e aos Guardas Revolucionários que depusessem as armas e instou o povo a “tomar de volta o país”, deixando implícito que, depois do ataque externo, caberia aos iranianos “fazer o resto”, completar a mudança política de dentro. Esta convocatória deslocou o foco da operação militar para uma narrativa quase insurrecional, empurrando os iranianos para uma ação que a própria Casa Branca não acompanhou, publicamente, de um plano político de transição.
É aqui que o “derrube do regime” ganha contornos de conto simples, como se a democracia fosse um resultado automático, porque “libertar” no discurso não é o mesmo que garantir um Estado funcional no dia seguinte.
A seguir ao anúncio, Trump manteve um tom triunfalista, garantiu que a operação estava “adiantada face ao previsto”, disse que “a vingança” pelos militares norte-americanos continuaria e enquadrou a retaliação iraniana, mísseis e drones lançados contra países do Golfo, como prova da sua determinação e da eficácia da ofensiva. Esta capacidade de transformar escalada em narrativa de vitória é central na forma como Trump comunica.
Há, contudo, um ponto cego estrutural, a operação foi lançada sem explicação pública consistente, sem validação do congresso e sem uma estratégia para os iranianos no “dia seguinte”, pelo menos sem a explicitar.
Além disso, nos últimos meses terão sido enfraquecidas algumas ferramentas públicas que poderiam sustentar uma transição legítima (media em farsi e projetos de apoio cívico), o que esvazia de substância o apelo para que “o povo” conclua a mudança. Esta crítica amplamente discutida na imprensa internacional sublinha o desfasamento entre a performance comunicacional e a engenharia política necessária para estabilizar o pós-conflito.
Em suma, pede-se ao povo iraniano que avance, mas sem lhes ser dado um caminho político credível para onde avançar. A linguagem de “salvação” ajuda a fechar a discussão, mas não substitui um plano.
A isto soma-se o terreno institucional interno dos EUA, segundo o mesmo enquadramento factual, o ataque reacendeu o debate sobre poderes de guerra. O Congresso detém o poder constitucional de declarar guerra, mas a prática presidencial, especialmente em crises recentes, abriu precedentes que deixam o Presidente operar numa zona cinzenta. Ainda assim, a divisão é clara republicanos defendem que a Gang of Eight foi notificada, democratas acusam Trump de lançar uma guerra sem autorização e avançam para discutir uma resolução de poderes de guerra. Trump, na sua comunicação, ignora completamente este ponto e ao ignorá-lo, protege-se.
Entretanto, os factos não ficaram suspensos na narrativa. Os números que vão sendo atualizados são muito mais elevados com alvos múltiplos e uma vaga de ataques continua. Ao mesmo tempo, Trump admite que a operação pode durar “quatro ou cinco semanas”, mantendo o argumento de que decorre “ahead of schedule”.
Nada disto alterou o tom da Casa Branca, Trump reafirma que o ataque continuará “até todos os objetivos serem alcançados” e reiterou a ideia de que os iranianos devem “agarrar o momento”, isto é, continuar a obra iniciada pelos mísseis norte-americanos.
E é aqui que se revela a essência da comunicação de Trump nesta crise, não visa explicar, visa dominar. Não visa informar, visa mobilizar emoção. Não visa preparar o futuro, visa controlar o presente narrativo.
Quanto menos estratégia existe no terreno, mais exuberante se torna a retórica que a tenta substituir. Quando a própria operação decorre num cenário de retaliações contínuas e incerteza regional, a comunicação de Trump continua a tratar a guerra como espetáculo e a narrativa como vitória. Para Trump, a comunicação não acompanha a ação política, é a ação política. A guerra, na sua narrativa, não se trava só com mísseis trava-se com frases curtas, dramatismo constante e uma convocação estratégica ao “povo” iraniano que serve mais a performance do que a diplomacia ou a estabilidade regional. Isto é mais um alerta contra slogans que prometem “libertação” sem reconhecer o custo de uma transição.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
A guerra como espetáculo
{{ noCommentsLabel }}