A paixão pelo aborrecimento

  • Marlene Gaspar
  • 19 Março 2026

Talvez por isso devêssemos abrir mais espaço ao aborrecimento. Não para ficar lá muito tempo. Apenas o suficiente para deixar que algo aconteça.

– “Estou tão aborrecida. Não tenho nada para fazer!”

Esta é uma frase que ouço frequentemente da boca das minhas filhas sempre que não têm um estímulo (aka, um telemóvel) ou quando não há nada imediatamente disponível para as entreter. Inventem. Procurem alguma coisa para fazer. “Façam exatamente aquilo que menos esperavam fazer”, respondo eu esbaforida.

Deixámos de saber ocupar o nosso tempo se não tivermos nada para fazer.

Há uns dias, numa conferência em que participei, perguntaram ao painel que conselho daríamos a jovens que estão agora a entrar no mercado de trabalho. Além do que foi dito sobre questionar, ter pensamento crítico e investir em literacia digital, tudo fundamental, respondi que considero relevante que se apaixonem pelo que fazem. Porque mesmo quando fazemos aquilo de que gostamos, encontramos desafios e provações. E acrescentei algo que digo às minhas filhas quando estão tão aborrecidas: – apaixonem-se pelo aborrecimento.

Pode parecer um conselho estranho numa época em que tudo compete pela nossa atenção. Mas talvez seja precisamente por isso que o aborrecimento se tenha tornado tão raro e tão valioso. Porque o aborrecimento, curiosamente, é muitas vezes o início de algo interessante.

Vivemos numa época em que o algoritmo nos protege do tédio. O feed é uma história interminável. Ao contrário de um livro, de um jogo ou de uma conversa que têm princípio, meio e fim, o feed nunca acaba. Se quisermos estar sempre entretidos, ele está lá, pronto a alimentar-nos infinitamente.

Mas a criatividade não nasce só da saturação. Muitas vezes nasce do vazio.

Quando nos aborrecemos, os sentidos despertam. Começamos a reparar em coisas que normalmente ignoramos: pequenos detalhes, objetos sem importância, ideias soltas que não teriam espaço no meio do ruído constante.

O aborrecimento obriga-nos a olhar.
E, às vezes, a pensar.

Trabalho numa empresa de origem espanhola e uma das primeiras palavras que aprendi foi “aburrido”, “aborrecido” em português. Sempre gostei de semântica e do som das palavras. Há palavras que nos conquistam pelo significado e outras, simplesmente, pela forma como soam. Esta é, sem dúvida, da segunda categoria. “Aburrido” sempre me pareceu uma palavra mais interessante do que o próprio conceito. Quero acreditar que é porque o aborrecimento, afinal, não é tão aborrecido quanto parece.

Para mim, muitas ideias nasceram precisamente nesses momentos de tédio e frustração. Sempre gostei mais de escrever do que de falar. Curiosamente, agora estou a “flertar” mais com a oratória e tenho adaptado o meu processo criativo.

Para escrever este artigo experimentei uma coisa diferente. Em vez de me sentar imediatamente a escrever, como faço habitualmente, fui dar um passeio e falei em voz alta para o telemóvel sobre as ideias que me iam surgindo sobre este tema. Não é o meu método habitual. Mas se queremos resultados diferentes, vale a pena experimentar caminhos diferentes.

Talvez funcione. Talvez não. Como quando nos dizem para lavar os dentes com a mão contrária ou para mudar pequenas rotinas do dia a dia. Nem tudo desbloqueia a criatividade. Mas experimentar também faz parte do processo.

E muitas vezes o aborrecimento é precisamente o espaço onde essas experiências aparecem.

É como contar carneiros antes de adormecer. Parece que não acrescenta nada à nossa vida. Mas, de repente, um carneiro transforma-se numa ideia, numa memória, numa associação inesperada que nos leva para outro sítio. Não é a atividade que importa. É o espaço mental que se abre.

Claro que ninguém quer viver permanentemente aborrecido. Nem deve. Mas não podemos estar sempre em euforia, e também não podemos ficar presos no tédio. O segredo está em saber usar esses momentos a nosso favor.

Como uma pausa criativa.

Há dias em que me sinto profundamente aborrecida comigo própria. E a verdade é que muitas vezes, mais vezes do que gostaria, isso não tem interesse nenhum. Mas também há momentos em que esses estados de frustração acabam por gerar ideias que resolvem problemas ou desbloqueiam decisões.

Talvez por isso acredite que o aborrecimento e a frustração são, muitas vezes, pequenos elixires de criatividade para a comunicação.

Uma das minhas filhas, que acabou de fazer uma semana de intercâmbio nos Países Baixos, a relatar um dos seus dias, contou de forma muito entusiasmada que tinha ido a um parque de diversões e que, devido a uma condição de saúde que partilha com a colega que a acolheu, tiveram acesso a um cartão especial que lhes permitia entrar nas atrações sem fila.

– “Mãe, andei quatro vezes na montanha-russa. Os outros só conseguiram uma.” Foi a primeira vez que a ouvi ver vantagem onde sempre viu obstáculos. Desta vez, escolheu o copo meio cheio. Até me emocionei.

Não se trata de romantizar dificuldades. Trata-se apenas de olhar para a mesma situação por outro ângulo e perguntar: o que posso fazer com isto?

Nem sempre conseguimos. Eu própria falho muitas vezes nesse exercício. Mas acredito que é isso que nos torna mais interessantes e, muitas vezes, mais criativos.

Como disse Bertrand Russell: “O trabalho é desejável, primeiro e antes de tudo como um preventivo contra o aborrecimento, pois o aborrecimento que um Homem sente ao executar um trabalho necessário, embora monótono, não se compara ao que sente quando nada tem que fazer.”

Talvez por isso devêssemos abrir mais espaço ao aborrecimento. Não para ficar lá muito tempo. Apenas o suficiente para deixar que algo aconteça. Porque às vezes o aborrecimento não é vazio. É apenas o espaço onde as ideias começam.

E eu não vos aborreço mais com este tema.

 

*Este texto foi revisto e editado com o apoio de IA, respeitando o estilo e a ortografia definidos pela autora.

 

  • Marlene Gaspar
  • Diretora-Geral da LLYC

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