Em defesa do capitalismo liberal
O harakiri dos jornais está a ser provocado e aproveitado pelas tecnológicas (já tinha sido pelas telco) e poderá provocar uma disrupção democrática semelhante a praga bíblica.
Num momento em que a chamada “direita”, mais ou menos liberal, se afirma no mundo perante a alegre perda ponderal da esquerda, pequenas elites lusitanas (nas redações, na indústria do comentário, no parlamento ou mesmo no Snob), insistem em falar para públicos imaginários, numa convocação maquiavélica do “Príncipe”.
Um dos males do mundo ainda é, para muitos daqueles, o capitalismo, essa fonte de opressão, desigualdade e iniquidade. O erro analítico é total e profundo — que, tal como a ignorância e insubsistência, são livres.
O capitalismo liberal nasce em conflito com o feudalismo e o mercantilismo e ganha respeitabilidade e forma com Adam Smith: iniciativa individual, propriedade privada, concorrência e um Estado que garante regras e previsibilidade. Ao longo de dois séculos, o modelo mudou (do liberalismo clássico ao Estado social e, mais tarde, a vagas de desregulação), mas o essencial manteve-se: mercados como mecanismo de coordenação e incentivos à criação de valor.
O argumento a seu favor é histórico e quantitativo. Desde a Revolução Industrial, o mundo enriqueceu de forma sem precedentes: o PIB per capita global multiplicou-se (13 vezes mais), permitindo níveis de consumo, conforto e mobilidade impensáveis para a maioria das populações no passado. Essa criação de riqueza não é apenas “economia”: é a base material que tornou viável financiar ciência, infraestruturas e serviços públicos modernos.
A queda da pobreza extrema é outro elemento decisivo. Durante quase toda a história, a pobreza foi a condição normal; nas últimas décadas, o número de pessoas em pobreza extrema caiu drasticamente. A correlação com industrialização, produtividade, comércio e integração económica não é ignorável.
Na saúde, a transformação é ainda mais clara: a esperança média de vida aumentou fortemente e a mortalidade infantil caiu como folha de árvore. Vacinas, antibióticos, saneamento, hospitais, logística e investigação exigem capacidade produtiva e tecnológica que cresceu sobretudo em economias de mercado (muitas vezes combinadas com políticas públicas de acesso universal).
Na educação, a alfabetização e a massificação da escola expandiram-se ferozmente. O capitalismo não “garante” educação per se, mas cria procura por qualificações e, em sociedades mais ricas, meios para a financiar.
As críticas ao modelo (mesmo as menos elaboradas) merecem atenção. A desigualdade e a concentração de riqueza corroem a coesão e a mobilidade social. Persistem exclusões e assimetrias no acesso a serviços, o que pode gerar descontentamento e amor à margem.
Mas o capitalismo liberal tem sido, em termos agregados, o sistema mais eficaz a gerar prosperidade e progresso material. O desafio, agora, não é “voltar atrás”, mas corrigir falhas — com concorrência real, regulação inteligente, redes de proteção — para que o melhor período da história não seja apenas um intervalo.
Quando, nos partidos, nas redações e em algumas elites se perguntarem porque faltam eleitores, leitores e seguidores — a procura –, aconselho vivamente que recapitulem os fundamentais do capitalismo: falham porque falhou a oferta.
Jornais, partidos ou intelectuais que no seu ecossistema fechado (aka “bolha”) falam para públicos imaginários estão condenados. Insistir em comboios a vapor na era da alta velocidade é tolo e inútil e só conduz a mais pobreza — no caso dos Media a menos audiências até ao estertor final. Mas a informação é uma necessidade básica, que não vai desaparecer. O harakiri de muitos jornais está a ser provocado e aproveitado pelas tecnológicas (já tinha sido pelas telco) e poderá provocar uma disrupção democrática semelhante a praga bíblica. Pode ser esse o objetivo, digo eu que não acredito em teorias da conspiração.
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