Mete gelo
A decisão do melhor momento para fazer as coisas é estratégica. Não pode ser descuidada. Com isso definido e resolvido, é meter gelo. E confiar no processo.
“Confia no processo.”
I wish. Está bem, está. Fácil de dizer, mais desafiante fazer.
No meu último passeio pela praia com uma amiga daquelas onde cabe tudo na conversa: inquietações, gargalhadas, desabafos, alegrias e as coisas que nos tiram o sono, ela diz-me uma frase que a filha lhe repete vezes sem conta e que foi a primeira a ensinar-lhe: “confia no processo”.
Estou a interiorizar esse mantra.
Vivemos num tempo em que tudo é urgente, tudo é prioritário, tudo é para ontem. E sempre com a sensação de que estamos em falta. Que estamos atrasados. Quem não? Ainda não cheguei ali. Ainda não fiz isto. Ainda nem comecei. E há sempre mais qualquer coisa.
Criámos uma espécie de estado permanente de insuficiência. Como se estivéssemos sempre em escassez de alguma coisa, mesmo quando estamos, objetivamente, a cumprir com as nossas funções.
Talvez por isso aquela expressão brasileira que sempre me tirou do sério “tá-se fazendo” comece a fazer mais sentido do que alguma vez pensei.
Porque a verdade é esta: o sentimento não vai desaparecer, mas podemos mudar a forma como lidamos com ele. Tenho tentado dar-lhe menos espaço. Nem sempre consigo.
É exigente e exige prática. E isto reflete-se muito na comunicação, onde o timing é vendido como tudo. E é. Mas o timing também pode — e deve — ser gerido estrategicamente.
Dou por mim a sair de um evento com a sensação de que tenho de publicar já, porque, se não for agora, parece que não aconteceu.
Mas quem me impõe esse prazo? Muitas vezes sou eu.
Percebo o valor da rapidez. Mas nem tudo tem de acontecer à velocidade da notícia ou do acontecimento — quando não se é jornalista.
Temos deadlines, claro. Compromissos são compromissos. Mas muitas vezes o peso não vem daí. Vem de nós. Do que achamos que os outros esperam. Do que antecipamos. Do que projetamos. E, muitas vezes, não faz diferença não ser em tempo real.
Tenho tentado fazer um exercício simples: fiz, ótimo. Não fiz hoje e isso não compromete o acordado, não vem mal ao mundo. E já aconteceu que, ao fazê-lo mais tarde, foi — curiosamente — mais oportuno.
Mais uma expressão da que nunca fui fã, mas que está a ganhar a minha atenção: “mete gelo”. Soava-me a qualquer coisa que nem sei bem explicar. E agora a inner voice sussurra-me: “mete gelo”. E, curiosamente, já me tranquilizou. Já me ajudou a relativizar, a desbloquear, a não reagir imediatamente.
Não é sobre não fazer. É sobre não sofrer por não fazer imediatamente o que acabou de acontecer.
Muitas vezes, pode funcionar como o arroz de marisco, que sabe melhor no dia seguinte, quando está mais apurado.
Nem tudo exige resposta instantânea. Nem tudo perde valor se vier um dia depois.
Estar sempre “on” tem um custo. Estudos da Harvard Business School mostram que níveis elevados de pressão contínua reduzem a capacidade de pensamento crítico e criativo, mesmo quando aumentam a sensação de produtividade. E uma investigação do MIT Sloan School of Management demonstra que pausas e distanciamento não prejudicam a performance — fazem parte dela.
Ou seja, abrandar não é perder.
É, muitas vezes, ganhar melhor.
Não sei se faço esta reflexão para o todo ou mais para mim. Ainda ando às voltas com este tema. Ainda me apanho a acelerar quando não preciso e a beneficiar quando “freno”.
E agora digo isto em voz alta, mais vezes, para ver se consigo monitorizar melhor a gestão do tempo da comunicação. Garantir que não há desleixo nem falta de compromisso, mas que há espaço para fazer algumas coisas com mais tempo, mais intenção, mais presença. Porque aquilo que entregamos também carrega isso.
A decisão do melhor momento para fazer as coisas é estratégica. Não pode ser descuidada.
Com isso definido e resolvido, é meter gelo. E confiar no processo.
*Este texto foi revisto e editado com o apoio de IA, respeitando o estilo e a ortografia definidos pela autora.
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