O comando já não é meu
O Mundial tinha uma geografia simples: TV da sala. A família reunia-se, alguém monopolizava o comando, gritos sincronizados e um vizinho que festejava três segundos antes por ter uma box diferente.
Há empates que acordam um país. Ontem foi o Congo. Um balde de água fria servido logo à sobremesa.
Portugal empatou, as redes sociais encheram-se de treinadores de bancada, especialistas em tática e adeptos que, dois minutos antes, nem sabiam bem quem era o lateral esquerdo. O costume. Mas, curiosamente, o mais interessante talvez nem tenha sido o resultado
Durante décadas, um Mundial tinha uma geografia muito simples: a televisão da sala. A família reunia-se à mesma hora, alguém monopolizava o comando, havia gritos sincronizados, discussões sobre foras de jogo e um vizinho que festejava sempre três segundos antes por ter uma box diferente.
Hoje já ninguém vive o Mundial assim.
Em minha casa, por exemplo, há três fanáticos por futebol e uma pessoa que continua a achar que um 4-3-3 é, provavelmente, um código do multibanco. Essa pessoa sou eu 😊
O meu marido instala-se em frente à televisão como se tivesse sido convocado pelo selecionador. O Vasco acompanha estatísticas em tempo real. O Vicente comenta os lances nos grupos de WhatsApp antes de eles acontecerem na televisão. E eu descubro, uma vez mais, que marcar um jantar durante um Mundial exige praticamente a mesma coordenação logística que organizar uma cimeira da NATO.
Porque este Mundial veio confirmar uma coisa: o futebol já não precisa de um ecrã principal. Precisa apenas de um ecrã. Ou melhor… de muitos. Enquanto alguns continuam fiéis à televisão, outros seguem a transmissão no YouTube, recebem alertas no telemóvel, discutem lances no WhatsApp, consultam estatísticas no iPad e, pelo caminho, ainda publicam uma indignação estratégica nas redes sociais antes de o árbitro apitar.
Já não existe “ver o jogo”. Existem dezenas de formas de viver exatamente o mesmo jogo. E isso ajuda a explicar um dos fenómenos mediáticos deste Mundial. Nos primeiros dias da competição, a LiveModeTV chegou a mais de 1,2 milhões de dispositivos únicos em Portugal através do YouTube. O encontro Brasil–Marrocos ultrapassou os 300 mil dispositivos em simultâneo e entrou para a história da plataforma em Portugal.
A televisão continua relevante. Continua a produzir grandes momentos coletivos. Continua a ser o ecrã mais confortável para ver um jogo inteiro. Mas deixou de ser filha única. E isso explica parte da tensão que hoje atravessa o mercado audiovisual português. RTP, SIC e TVI alertam para regras que consideram desequilibradas. A LiveMode responde que não veio substituir ninguém, veio falar com quem já tinha saído da sala. Talvez ambos tenham razão.
Porque a verdadeira mudança não está na plataforma, mas no comportamento. Durante décadas, o Mundial era um momento de atenção coletiva e hoje é um momento de atenção distribuída. Estamos todos a ver o mesmo jogo. Só que cada um vive um Mundial diferente.
Lá em casa, continuo sem conseguir escolher o canal. Mas a verdade é que isso já nem interessa. O comando deixou de decidir o que vemos, apenas escolhe qual dos muitos ecrãs temos à frente.
O verdadeiro poder mudou de mãos há muito tempo. Já não está na televisão, nem nas estações, nem sequer em quem compra os direitos de transmissão. Está na atenção das pessoas. E essa, ao contrário do comando da sala, já ninguém consegue monopolizar.
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