Jornalismo português “não está preparado” para IA
O Livro Branco apresenta dez medidas que os autores consideram "estruturantes para promover um uso responsável, transparente e eticamente robusto da IA nos media".
A maioria (83,8%) dos jornalistas portugueses nunca teve formação em inteligência artificial (IA). É esta uma das principais conclusões do Livro Branco sobre Inteligência Artificial aplicada ao Jornalismo, o primeiro estudo deste âmbito a nível nacional. A investigação foi coordenada pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa (NOVA FCSH) e financiada pela Fundação Calouste Gulbenkian através do European Media and Information Fund. Foi oficialmente apresentado pelas 15h desta segunda-feira.
“A maioria das das redações portuguesas continua sem formação, sem políticas internas e sem mecanismos de transparência para lidar com a IA“, pode ler-se em comunicado, onde os investigadores alertam que “o setor não está preparado para esta nova realidade“.
“Portugal enfrenta um défice estrutural de preparação, que poderá comprometer a qualidade da informação, a proteção das audiências e a sustentabilidade das empresas jornalísticas“, conclui ainda o Livro Branco. Para este cenário contribuiu, por exemplo, o facto de 64% dos jornalistas reportarem que não existe qualquer código de conduta sobre IA nas suas redações.
A falta de formação específica não tem impedido a utilização de aplicações de IA na atividade jornalística, com apenas 19,7% dos jornalistas inquiridos a dizer que nunca utiliza. O padrão de uso é predominantemente ocasional (28,1%) ou raro (25,4%), com apenas uma minoria a reportar uso diário (11,2%). É no jornalismo online que a IA é mais utilizada, com 57,6% a reportar um uso diário. Em contraste está a televisão, com 18% a indicar nunca usarem.

A utilização de IA nas redações portuguesas é tendencialmente mais operacional, sendo aplicada maioritariamente na pesquisa e recolha de informação (56,1%), com a tradução automática de textos (41%) e a transcrição (40%) a ocuparem ainda um lugar de relevância.

A partir dos dados, o estudo traça então três perfis de uso: (1) inexistente, (2) pontual/individualizado (maioritário) e (3) regular/orientado, estando este último concentrado em grupos de media de maior dimensão.
O Livro Branco destaca ainda o pessimismo do setor, com os profissionais de imprensa escrita (52,9%) a antecipar um impacto muito negativo no mercado de trabalho do setor. Por sua vez, é no online onde o impacto positivo tem um maior peso (31,6%).

Persistem lacunas generalizadas em dimensões fundamentais de governação. No contexto português, 64,4% dos profissionais afirmam que a IA terá impacto negativo ou muito negativo na disseminação de desinformação, com a imprensa escrita a concentrar as avaliações mais negativas (50,5%). Quase metade (48%) antecipa impactos negativos na ética e deontologia profissional.
Dados como a inexistência de cláusulas contratuais sobre IA (80,4%), de códigos de conduta (64%) e de protocolo de validação pré-publicação (63,4%) não contribuem para uma positividade.
Para contrariar este cenário, o Livro Branco apresenta dez medidas (com evidências de suporte) que os autores consideram “estruturantes para promover um uso responsável, transparente e eticamente robusto da IA nos media“, apelando que várias entidades como a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), RTP e Cenjor liderem essas iniciativas. Entre as sugestões destacam-se:
- Criação de um quadro nacional de recomendações, com orientações claras e endereçadas a todo o setor;
- Criação de um Manual Interno de boas práticas e políticas organizacionais de IA, em cada organização de media;
- Revisão do Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos, para ter em conta o uso de obras protegidas no treino de modelos de IA e a produção de conteúdos sintéticos;
- Criação de um programa nacional de apoio à inovação em IA aplicada no jornalismo;
- Criação de um programa nacional de formação, reskilling e upskilling, liderado pelo Cenjor.
Paulo Nuno Vicente, coordenador do estudo, aponta que “identificámos áreas críticas de intervenção e propomos um conjunto de recomendações, com especial enfoque na necessidade de cooperação interinstitucional e intersetorial, na inovação e na salvaguarda de direitos fundamentais“.
Nesse sentido, o investigador declara que o Livro Branco é “um ponto de partida para um processo que assume como princípio e fim a preservação de uma base de informação pública de qualidade, essencial à vitalidade das sociedades democráticas” e no qual se quer envolver todos os stakeholders, incluindo a sociedade civil.
Metodologia
Para produzir este retrato detalhado da integração da IA no jornalismo português, os investigadores aplicaram uma metodologia composta por um inquérito nacional a órgãos de comunicação social registados na ERC, entrevistas e grupos de foco com jornalistas, editores e representantes do setor em todas as regiões de Portugal, entre outros.
O estudo foi coordenado pela Universidade NOVA de Lisboa e contou com a colaboração da Universidade do Minho, da Universidade Católica Portuguesa, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, da Universidade Europeia, da Universidade da Beira Interior, da Universidade de Coimbra, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Jornalismo português “não está preparado” para IA
{{ noCommentsLabel }}