Jornalistas da Visão angariam mais de 224 mil euros para comprar o título
“Se alguém quiser comprar a Visão, tem que falar com a redação“, dizia em entrevista ao +M, na passada sexta-feira, Rui Tavares Guedes, diretor do título.
A campanha de angariação de fundos lançada pelos jornalistas que, nos últimos meses, têm feito a revista Visão, com vista à aquisição do título, arrecadou até à manhã desta segunda-feira mais de 224 mil euros, superior ao objetivo inicial da iniciativa de 200 mil.
Alexandra Correia, subdiretora da Visão, que integra o grupo de 12 jornalistas que continuam semanalmente a trabalhar para colocar a revista nas bancas, disse à agência Lusa ser “impressionante” a adesão a esta campanha de crowdfunding, quer dos leitores, quer de muitas figuras públicas.”Ficámos impressionados. Dá-nos muita força”, afirmou a jornalista, assegurando que a campanha continuará aberta.
“O dinheiro destina-se a concorrermos ao leilão [pelo título], que prevemos que decorra em março, pelo que não vai ser usado para qualquer outra coisa. Estamos focados em ficar com a Visão“, revista que Alexandra Correia sublinha que “não existe sem os seus jornalistas”. Os 12 jornalistas que se mantêm em atividade serão o núcleo central da próxima sociedade que, entretanto, será criada, para concorrerem ao leilão.
Em entrevista ao +M, publicada na sexta-feira, Rui Tavares Guedes, diretor do título, defendia que “se alguém quiser comprar a Visão, tem que falar com a redação“. “O que a Visão vale hoje é aquilo que nós estamos a fazer semanalmente pela Visão. Porque se a Visão tivesse fechado em junho, quanto é que valia? Há pessoas que dizem que vale um euro. Nós achamos que a Visão vale muito, para nós”, declarou ainda.
No dia a dia, a revista está a ser feita por este grupo de profissionais, com os proveitos das vendas da revista a ser usados para as despesas como a impressão ou as licenças de software.
“Quando sobra alguma coisa, o administrador de insolvência vai pagando os salários“, por frações, mas cujo pagamento regista atrasos significativos, não estando ainda liquidadas verbas referentes aos meses desde setembro de 2025. O último mês integralmente pago foi agosto do ano passado.
Numa publicação neste domingo nas redes sociais, os jornalistas da Visão registam que “em menos de uma dezena de dias”, foi alcançado o objetivo inicial desta campanha. “Graças ao apoio de mais de 4.500 doadores, atingimos os 200 mil euros – um valor que muitos nos disseram que seria impossível, irrealista e exagerado. Mas que, afinal, foi alcançado com uma rapidez que, sinceramente, também nos surpreendeu, preparados que estávamos para um processo que, prudentemente, imaginávamos que poderia ser demorado, lento e difícil”, escrevem na mensagem.
Os jornalistas acrescentam que “este resultado demonstra que a Visão tem uma comunidade de leitores relevante, ativa e solidária. Mas revela também que em Portugal somos muitos os que insistimos em lutar por uma Imprensa livre, independente e de qualidade“.
Os jornalistas sublinham ainda que o leilão, “que só deverá iniciar-se em março, na melhor das hipóteses, será sempre uma incógnita no que diz respeito ao valor das licitações”, pelo que decidiram “manter a recolha de fundos aberta a mais doações, atendendo a todos aqueles que continuam a manifestar o seu interesse em procurar garantir o futuro da Visão com os jornalistas que a fazem”. Caso não consigam a licitação, não estão ainda decididos os passos futuros, embora exista uma certeza: “não iremos parar”, assegurou Alexandra Correia.
No texto de apresentação da campanha, na plataforma GoFundMe, os jornalistas dizem querer “estar preparados para apresentar, em leilão, uma proposta sólida e vencedora — que resista às investidas de um qualquer aventureiro ou de alguma entidade de origem desconhecida”.
“Precisamos também de investimento para o arranque da nova fase da VISÃO, gerida por uma empresa de jornalistas, criada do zero, ainda sem receitas, mas já com custos nos primeiros meses: de impressão, de produção, de equipamentos, de licenças de software, de armazenamento de dados, de telecomunicações e, naturalmente, de salários”, acrescentam, garantindo terem “um plano de negócios, prudente e realista, com um horizonte a 10 anos, que demonstra que a Visão é financeiramente sustentável com as receitas que gera”.
Segundo estes profissionais, “a ideia é começar com uma estrutura muito reduzida (…). Depois, num horizonte temporal relativamente curto, segundo o (…) plano de negócios, (…) ir reforçando a redação — o coração deste projeto — tanto na edição impressa como no digital”.
“Aos poucos, queremos retomar a publicação da Visão História, da Visão Biografia, da Visão Júnior, da Visão Saúde e de outras marcas com a chancela Visão, que têm um público fiel e ativo”, afirmam.
Rui Tavares Guedes, diretor do título, explicava, em entrevista ao +M publicada na sexta-feira, que ainda não sabia que modelo de gestão financeira iriam escolher. “O importante é ser a redação, serem os jornalistas, no centro disto tudo. No plano de negócios — também houve um empresário que nos ajudou — o nosso principal gasto é na redação”, sem revelar a identidade desse empresário.
A assembleia de credores da Trust in News (TiN) aprovou no dia 1 de outubro a cessação da atividade da empresa, dona da Visão e outros títulos. Além da aprovação da cessação de atividade, foi aprovado na assembleia de credores, no tribunal da Comarca de Lisboa Oeste, com abstenção dos dois principais credores (Segurança Social e Autoridade Tributária) um requerimento, apresentado por trabalhadores da Visão, para assegurar a produção da revista até à sua venda.
Fundada em 2017, a Trust in News detinha 16 órgãos de comunicação social, em papel e plataformas digitais, como a Exame, Caras, Courrier Internacional, Jornal de Letras, Activa, Telenovelas, TV Mais, entre outros.
Recorde aqui a entrevista a Rui Tavares Guedes:
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