Como se define a próxima geração de leitores de notícias?

Rafael Correia,

Uma investigação da FT Strategies e do Knight Lab analisou os hábitos e desejos da próxima geração de consumidores de notícias, de forma a antecipar as tendências de comportamento em 2030.

Mais de metade (55%) da nova geração de consumidores de notícias — jovens adultos entre os 18 e os 25 anos — interage, pelo menos, diariamente com conteúdos de informação, apesar de também reportarem sentir-se assoberbados pela quantidade de notícias e informação. Esta é a principal conclusão do estudo “Next Gen News 2”, promovido pela FT Strategies, consultora de media detida pelo Financial Times, e o Knight Lab, da Universidade de Northwestern, nos Estados Unidos.

Antes de entrar pelos dados, importa distinguir o que é uma notícia para esta nova geração, que vai ser a dominante em 2030. Para eles, uma notícia é algo que contém informação cívica, tem um impacto pessoal, é algo “que toda a gente fala”, é algo que entretêm e não é ficção.

“Este âmbito alargado do que são as notícias põe em destaque o que este público vê como uma competição constante pela sua atenção. A sensação de sobrecarga que sentem reflete que eles não consomem como os consumidores de notícias tradicionais. Estes públicos mais jovens dependem da confiança e da afinidade como filtros fundamentais para superar a sua fadiga informativa. A confiança tem menos a ver com marcas institucionais e mais com uma relação parassocial com o produtor de notícias”, pode ler-se no estudo.

Esta sobrecarga leva a que quase 54% dos jovens adultos concordem que “manter-se a par das notícias não deveria ocupar muito tempo”. Para combater o fenómeno utilizam estratégias como fazer pausas, apagar aplicações e desligar notificações. No entanto, mais de 65% respondem que “quando um tema [os] interessa, preferem uma história aprofundada a um resumo”.

A relação destes consumidores com as notícias divide-se, então, em dois grandes grupos: a filtragem e o consumo. No primeiro grupo, esta nova geração descobre a informação através de um scroll nas suas plataformas preferidas — onde encontra acidentalmente uma notícia –, de uma procura intencional ou recebe-a de fontes que confiam e já subscrevem. As redes sociais (76%), a televisão/rádio (73%) e os motores de pesquisa (70%) são as principais fontes de informação.

Depois, quando se interessa por um tema ou uma história, procura verificar os factos — substanciar –, desenvolver o seu conhecimento — estudar — e perceber outras perspetivas — compreender. Estes consumidores também têm uma relação bidirecional com as notícias através da socialização — isto é, querem receber informação e conectar-se com outros através dessa partilha.

Como os jovens interagem com as notícias? O gráfico detalha as duas fases do consumo de notícias: filtragem (como descobrimos a informação através de busca, scroll ou assinaturas) e o consumo (o que extraímos dela, seja para validar factos, estudar ou compreender novas perspetivas).Estudo "Next Gen News 2"

 

Como tornar estes dados em ação?

Com base nesta metodologia, o relatório tem várias recomendações para os produtores de notícias, destinados a cada modo de interação identificado. Focando-se primeiro na filtragem recomenda-se:

Scroll

  • Adaptar o conteúdo para se adequar ao ritmo e algoritmo de cada plataforma
  • Selecionar histórias que funcionem para a plataforma e em modelos de narrativa (storytelling)
  • Captar a atenção em poucos segundos através ganchos e pistas visuais

Procurar

  • Facilitar a descoberta através de uma curadoria cuidada e de uma interface intuitiva
  • Criar formas para que os utilizadores personalizem a sua experiência noticiosa para melhorar a capacidade de descoberta
  • Combinar o controlo do utilizador com uma personalização inteligente

Subscrever

  • Conceber a entrega de conteúdo em função das rotinas e preferências do público, e não do ciclo de produção
  • Criar conteúdos de subscrição densos e fáceis de concluir (finishability)

Analisando agora o consumo, o estudo aponta que “os públicos têm maior probabilidade de se envolver mais profundamente quando uma história lhes parece pessoalmente relevante, emocionalmente ressonante ou quando desperta a sua curiosidade. A forma como encontram essa história pela primeira vez não dita o que acontece a seguir”.

Nesse sentido, para responder à forma como esse consumo noticioso é feito, o “Next Gen News 2” nota que os produtores de notícias devem “entregar prontamente, indo ao encontro dos utilizadores onde eles estão e quando eles esperam“, “começar pela informação mais importante e privilegiar a clareza” e “incluir provas e mostrar o seu processo” para responder à necessidade de que esta geração tem de conteúdos substanciados.

Para desenvolver o conhecimento destes consumidores, sugere-se que os produtores “destaquem o interesse pessoal numa história e partilhem o que foi aprendido ao longo do caminho”, “aprofundem a informação” e “deem vida ao conteúdo” com reportagens no terreno e maior valor de produção.

Ainda na grande categoria do consumo, está o campo de “compreender”. O estudo sugere a promoção de conversas abertas, a orientação da audiência através do design, responder aos pedidos da audiência e incorporar os seus pontos de vista e, finalmente, usar a sátira para estimular o pensamento crítico.

Finalmente, no campo da socialização, recomenda-se:

  • Dar destaque a histórias humanas
  • Utilizar memes para gerar significado e humor
  • Tornar a partilha uma funcionalidade do produto

Metodologia

A investigação teve como base um inquérito com consumidores em cinco países — Brasil, Índia, Nigéria, Reino Unido e Estados Unidos –, com 1.000 pessoas em cada país, tendo estes mais de 18 anos. Também foi realizado um estudo diário com 84 inquiridos dos 18 aos 28 anos, provenientes desses países.

O estudo entrevistou ainda 19 produtores de notícias de todo o mundo que estão a se adaptar às mudanças nos comportamentos do consumidor.

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