O poder de “quando a comunidade cria a história”
Como transformar 1,5 dólares de plástico em 150? Lars Silberbauer, com uma carreira em marcas como a Lego, revela o poder das histórias para um marca.

Qual é o poder de uma história para uma marca? As histórias são aquilo que leva as peças da Lego a valorizarem de cerca de 1,5 dólares por quilo para 150 dólares, começa logo por destacar Lars Silberbauer na sua intervenção na Visit Portugal Conference 2026.
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Atualmente Value Accelerator Advisor na Goldman Sachs, Lars Silberbauer conta com uma carreira em marcas como a HMD Global — atual responsável pelos smartphones Nokia –, Lego Group, Paramount e Comité Olímpico Internacional. Mesmo o setor financeiro, no qual agora trabalha, “é ainda muito sobre histórias. Histórias que destroem o mercado, assim como histórias que constroem o mercado e empresas”.
Mais do que as empresas estarem “prontas para a mudança”, defende que devem ser elas a conduzir essa mudança. “Precisamos realmente de ser os impulsionadores da mudança em tudo o que fazemos. Se esperarmos que os outros mudem, já estamos demasiado atrasados”, argumenta.
Porque é que mudar é tão difícil?
Lars Silberbauer recorre à teoria da dissonância cognitiva de Leon Festinger, explicando que a “mente humana tem um impulso interior para manter atitudes e comportamentos em harmonia”. Quando as empresas resistem à mudança, aplicam quatro táticas para negociar essa harmonia interna:
- Modificação — “Temos um website. Por que deveríamos ir para o mobile?”
- Trivialização — “O Mike saiu para ir para um concorrente, mas eles vão falhar como nós!”
- Adicionar cognição — Justificar que “o ROI é impulsionado por anúncios de televisão” para não mudar o modelo
- Negação — Ignorar a realidade afirmando que “os dados provavelmente estão errados”.
A solução para superar estas barreiras “é descobrir a verdadeira essência da marca e ir além da superfície”, questionando, como no caso da Lego, “por que é que a marca existe?”. “Precisamos de mais peças de plástico? Provavelmente não. Mas a Lego entrega algo de diferente […], a ‘alegria de construir juntos’ e o ‘orgulho da criação'”, responde. A Lego transportou, durante o seu tempo, esse conceito para o digital com o projeto “Build With Chrome”, em parceria com a Google.
Mas mais poderoso do que uma marca que conta histórias, “e essa é a chave para o sucesso da Lego”, “é quando a comunidade cria a história”, tendo por isso apostado na plataforma Lego Ideas. “Ninguém acreditava nele”, recorda. “Agora a Lego gera um volume de negócios de mais de mil milhões de dólares todos os anos apenas neste único projeto”, exemplifica.
Através da plataforma de crowdsourcing, a comunidade pode submeter ideias para conjuntos de Lego. No entanto alerta, que é necessário trabalhar com a comunidade e não abordar numa ótica de gestão de comunidade. Muitas vezes, o próprio marketing dos conjuntos já vem desenhado pelos fãs, e o ‘apetite’ por estas ideias era tal que criava um fenómeno curioso. “Quando lançámos estes produtos, e eles ainda lançam novos produtos, há um vácuo no mercado, então basicamente desaparecem das prateleiras”, destaca.
Do símbolo para a relação
Já durante os seus dois anos no Comité Olímpico Internacional, marcado pelos Jogos Olímpicos de Verão em Tóquio, o objetivo foi em “mudar de um símbolo para uma relação”, que inspirasse as pessoas a viver os valores olímpicos durante os Jogos.
O lado emocional também foi um dos focos. “Precisamos de sentir algo real com cada palavra alimentada pelo coração humano”, defende. Com a introdução do slogan “Mais alto. Mais rápido. Mais forte. Juntos” levaram “toda a história da marca de uma marca individual única para uma marca de união universal”, explica.
A mudança de data de 2020 para 2021, fruto da pandemia, levou-os a apostar numa campanha de celebração dos atletas que viam os seus sonhos a serem adiados por um ano com “Stronger Together”.
A saúde mental foi outro dos tópicos que a sua equipa abordou, através da voz da tenista japonesa Naomi Osaka. O sucesso da campanha, que chegou à primeira página da Time Magazine, levou à amplificação da mensagem através de outdoors.
A procura pela autenticidade levou também a um confronto com o conservadorismo do próprio Comité Olímpico na introdução do skate nos Jogos. Contra a resistência da equipa jurídica, que não queria mostrar quedas, a campanha incluiu atletas a cair, de forma a obter aceitação da comunidade. “O skate não é sobre estar triste. Não é sobre as lágrimas e os choros. É sobre amor porque se cai muito, mas é tudo sobre voltar a levantar-se”, justifica.
“Façam o que parece certo, não o que parece seguro. Precisamos de nos desafiar constantemente, como pessoas, como equipas, como empresas para realmente encontrar o espaço em branco que existe e realmente ir atrás dele”, conclui.
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