A adaptabilidade não se instala com tecnologia

  • João Guerra
  • 12:22

O que permanece é a curiosidade, a capacidade de aprender e a abertura para questionar aquilo que sempre fizemos. A tecnologia muda. A adaptabilidade permanece.

É frequentemente atribuída a Charles Darwin a frase: “Não é a espécie mais forte que sobrevive, nem a mais inteligente, mas aquela que melhor se adapta à mudança.” Embora Darwin nunca a tenha escrito exatamente desta forma, a ideia traduz um dos princípios essenciais da seleção natural: não sobrevivem necessariamente os organismos mais fortes, mas aqueles cujas características melhor se ajustam ao ambiente em que vivem. Quando o ambiente muda, a capacidade de adaptação torna-se determinante.

Esta ideia é particularmente relevante num mundo marcado pela volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade, aquilo a que habitualmente chamamos um mundo VUCA. As condições mudam rapidamente, as decisões têm de ser tomadas com informação incompleta e aquilo que hoje parece uma vantagem pode tornar-se irrelevante amanhã.

Neste contexto, a adaptabilidade deixou de ser apenas uma qualidade desejável. Tornou-se uma competência essencial para profissionais e empresas.

Durante muito tempo, o percurso profissional parecia relativamente previsível: escolhíamos uma área de formação, adquiríamos um conjunto de competências e construíamos uma carreira com base nesse conhecimento. Hoje, essa lógica é muito mais frágil.

Já não podemos assumir que a licenciatura que concluímos, a função que desempenhamos ou as ferramentas que dominamos continuarão a ser igualmente relevantes ao longo de toda a nossa vida profissional. As profissões evoluem, surgem novas tecnologias, os modelos de negócio transformam-se e muitas competências tornam-se rapidamente desatualizadas.

A verdadeira vantagem não está, por isso, apenas no conhecimento que acumulamos. Está na capacidade de continuar a aprender, desaprender e voltar a aprender. Mais importante do que ter todas as respostas é saber como agir quando ainda não existe uma resposta clara.

Pessoalmente, gosto de procurar algum desconforto de forma intencional. Procuro colocar-me em situações novas, em contextos que não domino totalmente ou perante desafios em que tenho de me adaptar e encontrar soluções. Não porque o desconforto seja um fim em si mesmo, mas porque acredito que a capacidade de adaptação também se treina.

Fala-se muito de inteligência artificial, automação, digitalização e novas plataformas. Mas a transformação não é, em primeiro lugar, uma questão de tecnologia. É uma questão de mentalidade.

A tecnologia pode acelerar a mudança, mas é a mentalidade que determina a nossa capacidade para lhe responder. Uma organização pode investir nas melhores ferramentas e continuar presa a processos rígidos, decisões lentas e culturas avessas ao risco. Da mesma forma, um profissional pode dominar uma determinada tecnologia e perder relevância quando essa ferramenta é substituída.

O que permanece é a curiosidade, a capacidade de aprender e a abertura para questionar aquilo que sempre fizemos. A tecnologia muda. A adaptabilidade permanece.

O mesmo princípio aplica-se às empresas. As organizações demasiado rígidas têm mais dificuldade em responder a alterações no mercado, a novas tecnologias, às expectativas dos clientes ou ao aparecimento de novos concorrentes. Não é necessariamente a maior empresa, a mais antiga ou a que dispõe de mais recursos que estará mais bem preparada para o futuro, mas aquela que consegue interpretar a mudança e adaptar-se sem perder o seu propósito.

No setor energético, esta relação entre competitividade e adaptação é particularmente evidente. Durante anos, a transição energética esteve sobretudo centrada na produção renovável. A prioridade era instalar mais capacidade solar e eólica e reduzir a dependência dos combustíveis fósseis.

Esse objetivo continua a ser fundamental, mas já não é suficiente.

À medida que a produção renovável aumenta, torna-se igualmente necessário decidir quando consumir, armazenar ou disponibilizar energia à rede. A competitividade passa, assim, não apenas pela capacidade de produzir energia limpa, mas também pela capacidade de a gerir de forma inteligente.

Na transição energética, a vantagem não pertence apenas a quem produz mais energia, mas a quem melhor consegue adaptar a forma como a produz, armazena e consome.

A adaptabilidade não significa ausência de direção. Significa saber onde queremos chegar e estar preparados para mudar de caminho quando o contexto se altera.

Porque a tecnologia pode acelerar a mudança. Mas é a mentalidade que determina se conseguimos acompanhá-la.

  • João Guerra
  • Head of marketing & communication Helexia Group

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