Não é sobre números. É sobre apoio na decisão

  • Ana Louro
  • 29 Maio 2026

A discussão sobre o futuro da contabilidade não pode ficar centrada apenas em obrigações, prazos ou ferramentas. O que está em causa é a forma como a informação é utilizada para decidir.

Durante demasiado tempo, o contabilista certificado foi colocado num papel confortável para todos, mas limitado: o de quem cumpre, reporta e fecha números. Cumpre para a Autoridade Tributária, reporta para o gestor, fecha para cumprir prazos. Esse papel continua a ser necessário, mas tornou-se insuficiente.

A realidade empresarial mudou. Tornou-se mais exigente, mais rápida e mais exposta ao risco. E, nesse contexto, o contabilista deixou de ser apenas um executor técnico. Hoje, é frequentemente o primeiro a identificar desvios, a antecipar impactos fiscais e a traduzir a atividade das empresas em informação crítica para decisão. Na prática, já não está apenas na execução. Está no centro do processo de decisão.

O problema é que este reposicionamento não foi acompanhado por uma mudança clara na forma como o seu papel é reconhecido. O contabilista continua, muitas vezes, a ser tratado como um custo operacional, quando na realidade suporta decisões com impacto financeiro relevante. Assume responsabilidade crescente, trabalha com informação crítica e responde a exigências cada vez maiores, mas nem sempre tem acesso atempado à informação, nem participa quando as decisões são tomadas.

Este desfasamento cria um modelo desequilibrado. Em qualquer contexto de gestão, quem assume risco deve ter acesso à informação, contexto para interpretar e capacidade de intervenção. Quando isso não acontece, o resultado é previsível: decisões tardias, correções constantes e aumento do risco para todos os intervenientes.

Ao mesmo tempo, está em curso uma transformação estrutural que não pode ser ignorada. A automatização do lançamento, classificação e tratamento de documentos deixou de ser uma tendência para se tornar uma realidade crescente. Num prazo relativamente curto, uma parte significativa do trabalho operacional será assegurada por sistemas cada vez mais eficientes. Esta evolução não diminui o papel do contabilista. Obriga a redefini-lo.

O valor deixa de estar centrado na execução e passa a estar na interpretação, na antecipação e na capacidade de apoiar decisões. O contabilista certificado tem condições únicas para assumir um papel mais próximo de gestor de risco e parceiro de decisão: lê a empresa através dos números, identifica padrões e desvios, traduz impacto fiscal e financeiro e antecipa consequências.

Para que este reposicionamento aconteça, são necessárias mudanças em três níveis.

  • Nas empresas, é fundamental reconhecer que a informação financeira não é um mero output administrativo. Integrar o contabilista nos processos de decisão é uma forma de reduzir risco e melhorar a qualidade da gestão.
  • Na relação com a administração fiscal, importa garantir maior clareza de papéis e equilíbrio de responsabilidades. O contabilista não pode ser tratado apenas como extensão do contribuinte quando desempenha uma função técnica essencial para a fiabilidade do sistema.
  • Na própria profissão, a valorização passa também por uma mudança de posicionamento. Enquanto o papel for assumido como predominantemente operacional, será reconhecido como tal. O futuro exige mais capacidade de análise, mais pensamento crítico e maior proximidade aos processos de decisão.

A discussão sobre o futuro da contabilidade não pode ficar centrada apenas em obrigações, prazos ou ferramentas. Esses temas são relevantes, mas não são estruturais. O que está em causa é a forma como a informação é utilizada para decidir.

Num contexto em que a automatização tende a assumir uma parte significativa do trabalho técnico, o risco não é a perda de relevância da profissão. O risco é não ocupar, a tempo, o espaço que naturalmente se abre ao nível da decisão.

A contabilidade não está a desaparecer. Está a reposicionar-se. E nesse reposicionamento, o contabilista certificado pode continuar a ser central, mas num papel diferente: menos executor, mais decisor; menos tarefa, mais valor. Porque, no fim, não é sobre números. É sobre apoio na decisão.

  • Ana Louro
  • Regional partner da Moneris

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