Triple Watt: “O solar fotovoltaico veio para ficar e será das tecnologias mais utilizadas na descarbonização da economia”

O setor da energia assume um papel crucial na economia e hoje vê-se a braços com períodos de grandes mudanças. Por um lado, a crescente inovação ligada sobretudo às renováveis, instigada pela urgência da descarbonização, e por outro, a grande instabilidade nos preços, fruto do contexto económico e político que se vive na Europa.

No caso da energia solar, Portugal está numa posição privilegiada: além de ser considerado um país seguro para receber investimento estrangeiro, graças a uma legislação estável, também as condições técnicas são das mais favoráveis para receber tecnologia solar fotovoltaica. É o que nos explica nesta entrevista Alberto Varela, cofundador e managing director da Triple Watt, uma empresa portuguesa que desenvolve sobretudo projetos de tecnologia solar fotovoltaica.

Varela acredita que o solar fotovoltaico é um “uma das tecnologias com maior margem de progressão e atualmente das mais competitivas no setor das energias renováveis”, podendo ajudar Portugal a posicionar-se como “um dos principais atores a nível europeu na produção de energia sustentável e renovável”. Mas há alguns desafios a superar.

Em que projetos está a Triple Watt neste momento a trabalhar em Portugal e no estrangeiro e em que fase de desenvolvimento estão?

A Triple Watt é um grupo empresarial português, sediado em Viseu, que se dedica ao desenvolvimento de projetos de geração de energia limpa e renovável, com especial enfoque na tecnologia solar fotovoltaica, prestando serviços e know-how especializado em toda a cadeia de valor dos projetos, desde a conceção até à fase de operação dos mesmos. De momento estamos a trabalhar em vários projetos de Norte a Sul do país, tendo igualmente presença no estrangeiro e em diversos países, tais como, Espanha, Egito, México ou Quénia. Como prestamos serviços em toda a cadeia de valor dos projetos, alguns encontram-se em fase de licenciamento, outros a iniciar a construção, e ainda outros que já estão na fase de operação.

Quais as principais oportunidades que existem no investimento na energia solar em Portugal?

As principais oportunidades estão relacionadas com o “apetite” que Portugal desperta ao investimento estrangeiro, pois sendo um país legislativamente estável, faz com que o investidor não tenha receio de vir para Portugal, mesmo quando falamos de projetos a longo prazo, como é o caso de projetos solares fotovoltaicos. Se compararmos Portugal com outros países, onde já existiram alterações legislativas com impactos retroativos, isso torna o nosso país um “porto seguro” para o investimento em projetos desta natureza. Aliado a isto, Portugal tem condições técnicas absolutamente fantásticas para a implementação da tecnologia solar fotovoltaica. A irradiação solar em Portugal é das melhores a nível europeu, e só para termos uma ideia, a Alemanha tem aproximadamente menos 35% de irradiação solar e tem mais de 58GW de potência solar instalada, quando Portugal tem apenas cerca de 1,7GW, até ao momento. É certo que a Alemanha é maior que Portugal, no entanto, considero que ainda estamos no início de uma grande oportunidade para o país, pois podemos estrategicamente posicionar Portugal como um dos principais atores a nível europeu na produção de energia sustentável e renovável, onde o solar fotovoltaico terá um papel fundamental, podendo revolucionar toda a nossa economia e tornar a nossa indústria e serviços mais competitivos face a outros países, com eletricidade mais barata que os restantes.

Quais os principais constrangimentos e como podiam ser resolvidos?

O que mais notamos é a falta de conhecimento geral sobre esta tecnologia, fazendo com que muitas pessoas ainda considerem que é melhor implementar este tipo de projetos no terreno do vizinho ou até no país vizinho, podendo Portugal perder a oportunidade de energeticamente ser um país determinante na Europa. Neste sentido, cabe-nos a nós, players do mercado, explicar melhor as vantagens e enquadrar de forma harmoniosa os projetos nas comunidades locais, eliminando alguns mitos existentes. A título de exemplo, já fomos abordados com questões sobre se a temperatura aumenta nos locais onde implementamos este tipo de projetos, questão que respondemos indicando que a temperatura não sofre qualquer alteração. Esta questão é totalmente legítima quando desconhecemos uma tecnologia e essa é a nossa função, difundir a importância das energias renováveis e explicar ao público em geral como tudo funciona.

Como vê a evolução do setor nos próximos anos? Quais as principais tendências?

Sendo uma das tecnologias com maior margem de progressão e atualmente das mais competitivas no setor das energias renováveis, considero que o solar fotovoltaico veio para ficar e será das tecnologias mais utilizadas na descarbonização da economia, pois além de poder ser utilizado em quase todos os locais, uma vez que temos sol em qualquer localização do país, esta tecnologia pode ser utilizada em projetos de grande escala ou projetos de pequena escala, no solo ou em telhados, atuando de forma isolada ou associada a outras tecnologias como na produção de hidrogénio verde, na hibridização de centros eletroprodutores como os eólicos, entre outras possibilidades. Quanto à limitação de só termos sol durante o dia, essa é uma situação que será rapidamente resolvida com a introdução de baterias para armazenamento, podendo assim suprir as necessidades durante as 24 horas do dia, e embora ainda não se vejam muitos projetos implementados em que tenham associado o armazenamento, já temos muitas centrais solares em Portugal projetadas que vão incorporar esta possibilidade.

Alberto Varela, co-fundador e managing director Triple Watt, acredita que a rentabilidade dos projetos neste setor vai manter-se constante no futuro.

Que impacto o contexto geopolítico na Europa e os preços elevados da energia poderão ter nas políticas para o setor?

Como todos sabemos, o contexto de guerra que atualmente vivenciamos veio colocar pressão sobre muito setores, mas fundamentalmente sobre os preços de energia. Embora a Europa tenha aumentado as metas para implementação de projetos renováveis, através do plano REPowerEU, e Portugal tenha tomado medidas quase imediatas para acelerar a implementação deste tipo de projetos com o objetivo de tornar a Europa menos dependente da importação de combustíveis fósseis, como por exemplo através do DL 30-A/2022, de 18 de Abril, nota-se que depois “no terreno” é difícil colocar em prática rapidamente estas políticas, uma vez que as distintas entidades públicas intervenientes nestes processos muitas vezes não têm os recursos humanos necessários para responder às diferentes solicitações nos tempos legalmente estipulados. Assim, acredito que o principal desafio da Europa e consequentemente Portugal é conseguirem operacionalizar de forma rápida e eficaz as políticas implementadas.

Qual o impacto da subida das taxas de juro no financiamento do setor?

Acreditamos que o impacto da subida das taxas de juro será mínimo pois como este tipo de projetos tem uma vida útil muitas vezes superior a 30 anos, isto é, de longo prazo, e por outro lado, como sabemos, as variações das taxas de juro são cíclicas, com períodos que variam entre 5 e 10 anos, consideramos que o setor continuará o seu caminho sem graves problemas de financiamento.

Teme um aumento do custo dos painéis fotovoltaicos e outros fatores de produção devido à inflação e ao crescimento da procura na Europa?

O aumento do custo dos módulos solares fotovoltaicos e outros componentes é já uma realidade, não devido ao aumento da procura na Europa, mas principalmente devido aos problemas logísticos e falta de componentes a que assistimos globalmente em diversos setores. Adicionalmente, a desvalorização do euro face ao dólar veio piorar o preço final, uma vez que principalmente os módulos solares fotovoltaicos são transacionados em dólares. Quanto ao crescimento da procura de módulos solares fotovoltaicos na Europa, considero que esta não tem um grande impacto no setor, uma vez que os grandes mercados do setor solar continuam a ser sobretudo os Estados Unidos da América e a China, com grandes crescimentos anuais ao longo dos anos.

A rentabilidade dos projetos será menor no futuro?

Acredito que se vão manter mais ou menos constantes no futuro. Se é verdade que o custo operacional em projetos desta natureza é mais baixo, comparando com o custo operacional em projetos de tecnologias que utilizam combustíveis fósseis, também é verdade que devem ser adicionadas outras questões à equação, tais como a mobilidade, situação que ainda não está a ter impacto nos preços de energia em mercado.

Relacionados