Media: contra todas as adversidades, resistir
O contexto continua adverso e as ameaças são globais, mas a missão não muda. Liberdade, diversidade, credibilidade e informação responsável são os territórios dos media.
- Este artigo integra a edição 17.ª do ECO magazine
“Neste 20 anos passámos por duas crises graves. A primeira, em 2010, de natureza financeira, e a segunda, em 2020, associada ao covid. Parece-me previsível que nos próximos cinco anos ou seis anos teremos outra crise grave”, antecipava em novembro Pedro Morais Leitão, CEO da Media Capital, na conferência que assinalou os 20 anos da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC). O gestor referia-se às consequências da Inteligência artificial (IA), que em sua opinião “vai acelerar qualquer que seja o efeito da próxima crise nas receitas dos grupos de media”.
Em simultâneo, o setor “está a atingir uma robustez financeira que há muito tempo não existia”, apontava o gestor também, dando como exemplo, na época a possível entrada da italiana Media for Europe (MFE) no capital da Impresa — o que acabou por se concretizar —, os 14 empresários com capacidade de investimento que apostam na Media Capital, a “personalidade de maior visibilidade do país”, Ronaldo, e os restantes investidores da MediaLivre, a Sonae que suporta o Público e a “Santa Igreja”, acionista do Grupo Renascença Multimédia. “Temos uma estrutura financeira que não nos deve envergonhar nem assustar. Pelo menos, estas entidades acham que algo fazemos de bem”, dizia o responsável do grupo dono da TVI, da Plural e agora também do jornal Sol, num enquadramento que serve de contexto para os desafios e também oportunidades que se avizinham no setor dos media.
Tardam os desenvolvimentos do Plano de Acção para a Comunicação Social, lançado pelo Governo no final de 2024.
O problema, como resumia no mesmo palco Luís Santana, é que a concorrência deixou de ser entre pares e passou a ser de entidades que “não conheço, não sei quem são, não estão em Portugal, não pagam impostos em Portugal, levam dois terços das nossas receitas de publicidade — na casa dos 170 milhões — e eu não tenho capacidade de competir com essas forças gigantescas, que falam sempre de milhares de milhões, enquanto nós aqui falamos de cêntimos”. A juntar a esta, outra questão. “Todos os dias somos roubados de forma absolutamente indescritível”, afirma o CEO do grupo dono da CMTV e do Now, referindo-se às redes sociais e à “pirataria sem controlo”.
O diagnóstico faz eco nas palavras de Luís Nazaré, diretor executivo da Plataforma de Meios Privados (PMP), órgão que reúne os principais grupos de comunicação social do país. Questionado sobre os principais desafios e oportunidades para os media em 2026, o responsável reitera que “o desafio da reinvenção e da aderência às preferências do mercado, por parte dos media tradicionais, esbarra no poder avassalador das plataformas digitais, que beneficiam de condições ímpares na acessibilidade, na ausência de escrutínio noticioso, no domínio da fileira publicitária digital e na fiscalidade”.
Quanto a grandes tendências, o cenário não é muito diferente do dos últimos anos. “Manter-se-ão as tendências que vêm sendo registadas nos últimos anos — primazia do meio digital sobre os tradicionais, ajustamento dos comportamentos de consumo no sentido de uma maior especialização, dificuldades acrescidas na imprensa escrita e na sua distribuição, inoperância dos órgãos reguladores face aos abusos de poder dominante das plataformas tecnológicas globais”, enumera Luís Nazaré.
Lembrando que a primeira grande tendência será a consolidação de modelos híbridos, “que combinam o papel, o digital e novos formatos multimédia”, Cláudia Maia, presidente da Associação Portuguesa de Imprensa, aponta também que outra tendência incontornável será a generalização do uso da inteligência artificial em toda a cadeia de valor da imprensa. “Em 2026, a IA deixará de ser um instrumento experimental para se tornar uma ferramenta quotidiana aplicada à edição, à produção de conteúdos, à personalização da oferta, à gestão de assinaturas e à análise de dados”, diz. “O desafio será aproveitar o seu potencial sem comprometer a ética e a credibilidade editorial, assegurando transparência no modo como é utilizada.”
Independentemente do contexto, a missão dos media será a mesma. “Continuarão a assumir, com total empenho, os desafios da liberdade, diversidade, credibilidade e informação responsável”, assegura Luís Nazaré. Para o Governo, um lembrete: “Tardam os desenvolvimentos do Plano de Ação para a Comunicação Social, lançado pelo Governo no final de 2024, cujos propósitos e programas de ação se afiguravam promissores na mitigação dos constrangimentos económicos e concorrenciais do setor, mas que ainda não levantaram voo.”
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