Leiria quer país solidário e que Governo “ponha a mão” na consciência
Três semanas após a depressão Kristin, autarca faz balanço de danos e projeta centenas de milhões necessárias para retomar a normalidade. Um novo mandato começou a 28 de janeiro, diz Gonçalo Lopes.

No dia em que se completaram três semanas da passagem da depressão Kristin, o presidente da Câmara de Leiria sintetizou os danos de centenas de milhões de euros já apurados, projetou muitas dezenas mais e deixou uma antevisão do muito que ainda está por reportar após os escombros deixados pela tempestade. Entre os prejuízos de difícil quantificação estão carros estacionados nas ruas e garagens, eletrodomésticos e mobiliário, para lá do trabalho de centenas de voluntários, nota Gonçalo Lopes.
Para o autarca socialista, esta é a hora de Leiria ser recompensada pelo resto do país pelo muito com que tem contribuído para a economia. “Os apoios resultam de impostos. Não estou a pedir nada de mais. Estamos habituados a trabalhar, pagar impostos e fazer coesão com os territórios. Está na altura de o país agora nos ajudar a nós”.
Numa das reivindicações da região, a isenção de portagens a todos aqueles carentes de alternativas rodoviárias após os danos em muitas das estradas não portajadas, Gonçalo Lopes nota: “Estamos forrados de portagens à volta de Leiria, quando outras capitais de distrito têm circulares”.
Sobre o avanço anunciado pela Comunidade Intermunicipal de Leiria de assunção do valor das portagens, após o Governo terminar a isenção que vigorou durante o estado de calamidade, o autarca considera ser “uma maneira reivindicativa”.
A CIM assumiu essa responsabilidade, é um modelo extremamente burocrático, tendo em conta que os que as pessoas querem é isenção como tiveram durante este período. Aqui, a tentativa é de que o Governo ponha a mão na consciência, e pelo menos durante este período de meses em que estamos a desimpedir vias, arranjar estradas, pelo menos durante este período, se possa isentar de portagens. Era um sinal de compaixão, de alento, um sinal político que seria dado.
“A CIM assumiu essa responsabilidade, é um modelo extremamente burocrático, tendo em conta que os que as pessoas querem é isenção como tiveram durante este período. Aqui, a tentativa é de que o Governo ponha a mão na consciência, e pelo menos durante este período de meses em que estamos a desimpedir vias, arranjar estradas, pelo menos durante este período, se possa isentar de portagens. Era um sinal de compaixão, de alento, um sinal político que seria dado”, considera o autarca na conversa com o ECO/Local Online.
Município com mais pedidos de apoio para casas e mais seguros ativados
Pouco mais de quatro meses após as eleições autárquicas de outubro, Gonçalo Lopes vem agora dizer que este mandato, com um novo programa de governo municipal, começou, verdadeiramente, a 28 de janeiro. Sentido figurativo para assinalar a dimensão da obra que está pela frente, e que durará todo o mandato, assegura o socialista, que logo no dia 28 de janeiro veio pedir um “Plano Marshall” para o concelho, ainda o primeiro-ministro considerava prematura a decisão de avançar para estado de calamidade.
Os prejuízos apurados, até ao momento, superam os 230 milhões de euros, dos quais mais de 170 milhões respeitantes às atividades económicas.
Relativamente aos 2,5 mil milhões de euros de apoios prometidos pelo Governo, Gonçalo Lopes mostra-se desconfiado: “Estou muito preocupado com a economia, porque [o apoio] é assente em empréstimos, e não é suficiente”, afiança o autarca ao ECO/Local Online. “É por isso que há uma baixa taxa de participação para aquilo que é a nossa expectativa. Se existisse outras condições de apoio, algum capital a fundo perdido, mais tempo para pagar o empréstimo, acho que haveria mais pessoas para arregaçar as mangas e seguir em frente. Neste momento, estão num impasse, nota-se perfeitamente”, diz.
Em Leiria apresentaram-se já 724 empresas com pedido de apoio mas, diz o autarca, “há muito mais. São empresários que neste momento equacionam ou não retomar a atividade. Se não voltarem à atividade, o progresso económico da região e do país tem um retrocesso assinalável”, alerta.
Leiria é o concelho com mais apólices de seguro acionadas (43,4% das 115 mil a nível nacional) e com mais candidaturas e de maior montante ativadas ao abrigo da linha de apoio das CCDR para habitação.
Ainda no campo da matemática, a autarquia viu serem afetados 486 edifícios municipais, o hospital de Leiria recebeu 1.834 feridos, dos quais 775 do concelho, já há a lamentar seis mortos leirienses no total de 18 decorrentes da tempestade e dos trabalhos de recuperação. Ao longo destas três semanas passaram pelo terreno mais de 10 mil operacionais (incluindo os bombeiros sapadores de Lisboa, forças armadas, INEM, Cruz Vermelha, GNR e PSP), com 3.285 veículos, em parte com apoio dado às 344 pessoas evacuadas de suas casas.

Num balanço com muitos números em cima da mesa, Gonçalo Lopes aponta uma previsão de 13,3 milhões de euros afetos à limpeza do espaço público, mobilidade, a transportes, incluindo o novo terminal rodoviário provisório, 21 equipamentos culturais, 18 desportivos e um total de 112 escolas. Estas, assegura, foram “praticamente todas atingidas”, e no regresso às aulas há 17 salas em contentores, com 1,43% dos alunos ainda com lições online.
Praticamente metade do valor irá, precisamente, para os espaços públicos e escolas, que exigem 6,5 milhões de euros. No desporto, há pavilhões com destruição total. Por outro lado, nos locais de culto estão 26,7% do total de prejuízos.
Com crítica velada à E-Redes, o autarca nota que a autarquia colocou no terreno 129 geradores (entre empréstimos, alugueres e aquisições), dos quais 26 tiveram de ser cedidos à empresa privada. Dos 94 mil clientes e 554 postos de transformação sem energia em Leiria no final de janeiro, mantêm-se, atualmente, fora da rede cerca de quatro mil clientes e 45 postos.
O esforço despendido pela autarquia incluiu a mobilização de espaços de apoio à população, de onde saíram 1,75 milhões de metros quadrados de lonas para 42 mil pessoas, 3.000 telhas e 380 toneladas de bens alimentares e de higiene para 8.677 famílias.
Mesmo que a maioria das 200 pessoas deslocadas e 84 desalojadas já tenham uma solução, a autarquia continua a dar guarida a 22 cidadãos em estruturas próprias ou alugadas, incluindo casas modulares adquiridas pela Câmara. O problema da habitação não será indissociável de traumas psicológicos, aos quais o município tem respondido com visitas domiciliárias (568) e atendimentos médicos (155). “Vai continuar, tendo em conta o impacto na vida psicológica das pessoas”, diz o presidente.
O atendimento aos cidadãos assume várias formas, incluindo uma espécie de espaço do cidadão criado no Mercado de Sant’Ana, o batizado Reerguer Leiria. Com pontos de atendimento da Autoridade Tributária, Segurança Social, Nerlei, Ordem dos Advogados e, desde esta terça-feira, o Banco de Fomento, já realizou mais de 1.800 atendimentos, aos quais se somam os efetuados nas juntas de freguesia, onde a Câmara ministrou formação para resposta aos pedidos de apoio dos fregueses.
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