“Precisamos agora, mais do que nunca, dos fact-checkers”

Lusa,

"A IA coloca um desafio urgente sobre como podemos ter um discurso público significativo, numa altura em que qualquer pessoa pode afirmar que mesmo as provas reais são falsas", alerta Lucas Graves.

Lucas Graves, especialista norte-americano em verificação de factos (fact-checking), considera que esta atividade tem de se “reiventar” economicamente, no momento em que se tornou indispensável com o aumento dos conteúdos gerados por inteligência artificial.

“A IA coloca-nos um desafio urgente sobre como podemos ter um discurso público significativo, numa altura em que qualquer pessoa pode afirmar que mesmo as provas reais são falsas, como o presidente [norte-americano, Donald] Trump pode dizer que nunca disse o que disse”, explica em entrevista à Lusa.

Para o professor da Universidade de Wisconsin, agora a ensinar na Universidade Carlos III, de Madrid, esta circunstância aumenta a relevância do fact-checking, porque “continua a haver necessidade de as pessoas saberem se um vídeo é verdadeiro ou falso“, alega.

Lucas Graves, considerado um dos grandes estudiosos do fact-checking desde os seus primórdios, sustenta, por isso, que “há uma necessidade urgente de alguém que possa gerir esses diferentes tipos de meios de verificação e fornecer um selo de autoridade”.

O professor não duvida de que a procura de verificação de factos entre as pessoas comuns irá aumentar, “num mundo em que se duvida da autenticidade de vídeos reais”, mas previne que este não é um desafio apenas para fact-checkers e cidadãos, mas para a sociedade em geral.

Precisamos agora, mais do que nunca, deste papel de pessoas que dizem que este é um vídeo verdadeiro e aquele não é, especialmente no domínio da política“, alerta Graves, que se mudou para Madrid em outubro passado, precisamente porque vê como “muito difícil” a situação nos Estados Unidos, depois da eleição do presidente Trump.

Segundo o professor, tudo isto acontece num momento em que as grandes plataformas como a Meta ou a Google estão a retirar os seus apoios ao fact-checking, tendo-o mesmo eliminado nos Estados Unidos, ou substituído o fact-checking por outras formas mais ténues e menos verificáveis.

Lucas Graves sustenta que o lançamento de programas de verificação de factos no passado, nomeadamente pela Meta — dona do Facebook –, foi uma “iniciativa de relações públicas, porque em 2016 precisavam de mostrar que estavam a fazer alguma coisa em relação ao problema da desinformação”, devido ao papel desta na eleição de Donald Trump e no Brexit.

Agora, o fim desses programas tem um intuito político. “O momento e a linguagem em torno da mudança parecem ter sido motivados pelo facto de quererem preservar uma boa relação com o novo presidente, que poderia dificultar-lhes a vida, o negócio”, diz.

Graves admite, no entanto, que todas as plataformas tecnológicas nos Estados Unidos sempre tiveram como posição padrão a não-moderação dos conteúdos, dizendo que se limitaram a criar uma plataforma para as pessoas se expressarem.

O especialista adverte que a circunstância de deixarem de ser financiados, por um lado, e de já não estarem integrados no sistema de fact-checking das plataformas, por outro, vai obrigar os verificadores de factos a ter de reencontrar a sua “conexão com o público” e a diversificar o seu financiamento, sob pena de reduzirem a sua atividade — um facto tanto mais contraditório quanto são hoje mais necessários, afirma.

Neste sentido, o desafio do fact-checking não é diferente daquele que as organizações noticiosas enfrentaram quando saíram do período de “integração” no Facebook, afirma.

O professor recorda o tempo em que as empresas noticiosas foram encorajadas a partilhar os seus conteúdos naquela rede social, o que lhes permitiu aumentar as audiências, enfraquecendo porém a ligação do público com a sua marca, que passou a ser feita num ambiente controlado por outrem.

Tudo isso tornou essas empresas muito vulneráveis a partir do momento em que — diz – “o algoritmo mudou para diminuir a importância das notícias ou quando houve a famosa mudança para o vídeo, em que muitas organizações noticiosas começaram a colocar todos os seus recursos no vídeo, porque foi a isso que o Facebook disse que daria prioridade. Depois, quando o Facebook retirou a prioridade às notícias, muito desse dinheiro foi desperdiçado”, acrescenta.

Apesar do “perigo real” que antevê pelos impactos que pode ter num momento crucial da vida em comum um vídeo falso, ou um vídeo real tomado por falso, o professor Graves pensa que não estamos a evoluir para uma sociedade de “não crentes” ou céticos.

No fim de contas, “como seres humanos, precisamos de heurísticas para estabelecer a verdade para nos movimentarmos no mundo todos os dias, porque dependemos da confiança nos indivíduos e nas instituições”, considera. O professor vê, aliás, analogias históricas com os debates sobre o impacto da imprensa, quando ela surgiu.

No passado, lembra, “surgiram instituições [como a convenção sobre os direitos de autor] que nos ajudaram a distinguir entre publicações fiáveis e não fiáveis e a relacionar as publicações com os seus autores num novo meio de comunicação”.

Agora, de certa forma, conclui, “a verificação de factos é uma dessas instituições, que surgiu precisamente quando a internet começou a tornar-se o meio de comunicação dominante“.

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