O império do jogo que paga 4.500 euros a empresa familiar do primeiro-ministro

A relação entre a Solverde e a empresa familiar de Luís Montenegro é marcada pela aproximação da renovação das concessões dos casinos de Espinho e do Algarve, ativos do grupo.

Com um volume de negócios que ultrapassou os 146 milhões de euros em 2023, mais 7,1% face ao ano anterior, e um crescimento de 11,6% dos lucros para 14,59 milhões de euros, o grupo Solverde confirma-se como um dos gigantes do setor do jogo e da hotelaria em Portugal.

Este grupo económico, que detém cinco casinos e quatro hotéis em Portugal, é também um dos clientes da Spinumviva, a empresa familiar do primeiro-ministro Luís Montenegro.

Segundo revela o Expresso esta sexta-feira, a Solverde paga mensalmente 4.500 euros à Spinumviva por “serviços especializados de compliance e definição de procedimentos no domínio da proteção de dados pessoais”.

Esta ligação comercial ganha contornos particularmente sensíveis num momento em que se aproxima o final das concessões dos casinos de Espinho e do Algarve (ativos da Solverde), previsto para o final de 2025, cuja decisão sobre renovação caberá ao governo liderado por Montenegro — precisamente o homem que entre 2018 e 2022 representou o grupo nas negociações anteriores com o Estado.

Um negócio de casinos e hotéis detido pela família Violas

A Solverde foi fundada a 12 de abril de 1972 por Manuel de Oliveira Violas, tendo-se consolidado como um dos principais grupos empresariais portugueses no setor do jogo e hotelaria, que é comprovado por um crescimento de 7,4% do EBITDA ajustado em 2023 (últimas contas conhecidas) para mais de 33 milhões de euros e rácio de autonomia financeira de 73,25% (um aumento de 6,34 pontos percentuais face a 2022).

Contudo, o risco de delinquency (atrasos em pagamentos) é classificado como “elevado” pela Informa D&B, refletindo litígios trabalhistas por via de 31 ações judiciais ao longo dos últimos cinco anos.

Com sede em Espinho, o grupo detém a concessão de cinco casinos estrategicamente localizados em território nacional: Espinho, Vilamoura, Monte Gordo, Praia da Rocha (Algarve Casino) e Chaves. Em 2017, antecipando tendências de mercado, a Solverde expandiu a sua operação para o mundo digital com o lançamento do seu casino online — um investimento que rondou os 2 milhões de euros e criou cerca de 40 postos de trabalho em Espinho. Este empreendimento digital tornar-se-ia conhecido como “o sexto casino da Solverde”.

Luís Montenegro admitiu ser amigo pessoal dos acionistas do grupo Solverde, os irmãos Manuel e Rita Violas, e prometeu impor a si próprio uma “inibição total de intervir em qualquer decisão” relacionada com a Solverde.

Complementando a operação de jogo, a empresa explora quatro unidades hoteleiras: Hotel Casino Chaves, Hotel Apartamentos Solverde em Espinho, Hotel Solverde em Vila Nova de Gaia, e Hotel Algarve Casino na Praia da Rocha.

A trajetória financeira do grupo Solverde tem demonstrado resiliência e capacidade de adaptação, mesmo diante dos desafios impostos pela pandemia. Em 2022, o grupo atingiu um volume de negócios de 136,6 milhões de euros, representando um aumento de 60% face a 2021, e superando em 14% os resultados de 2019, último ano pré-pandemia. Este crescimento foi impulsionado principalmente pelo desempenho do casino online, que faturou 48 milhões de euros em 2022 (um crescimento de 288% comparado com 2019), segundo o relatório e contas de 2022 do grupo

O grupo Solverde é detida integralmente pela Violas SGPS, a holding familiar controlada em partes iguais pelos irmãos Manuel Soares de Oliveira Violas e Rita Celeste Soares Violas e Sá. Esta holding estende as suas ramificações para além do setor do jogo e da hotelaria, mantendo participações maioritárias em oito empresas, incluindo a Cotesi (têxteis), o Colégio Luso-Internacional do Porto (CLIP) e a Viacer, que por sua vez controla 56% do grupo Super Bock. A Violas SGPS ainda detém participações minoritárias em sete empresas, entre as quais a Companhia de Seguros Caravela e as empresas brasileiras Aquiraz e Agesco.

Além dos indicadores financeiros, o grupo Solverde e a família Violas têm estado sob escrutínio público por outras razões. Em 2021, Manuel Violas, presidente do grupo, foi identificado nos “Pandora Papers” como proprietário da Marplex Enterprises Limited, uma empresa offshore criada em 2010 nas Ilhas Virgens Britânicas. Quando questionado sobre o propósito desta sociedade, o empresário declinou esclarecimentos.

Como o Expresso noticiou esta sexta-feira, a Solverde tem uma relação comercial com a Spinumviva, empresa familiar de Luís Montenegro, desde julho de 2021. Este contrato, inicialmente de 2.500 euros mensais, foi renovado e aumentado para 4.500 euros em 2022, quando Montenegro assumiu a liderança do PSD e transferiu a sua participação na empresa para a esposa e filhos.

Montenegro trabalhou para a Solverde entre 2018 e 2022, representando a empresa nas negociações com o Estado que resultaram numa prorrogação dos contratos de concessão dos casinos de Espinho e do Algarve até 2025. Estas concessões terminam no final deste ano, momento em que o Governo, agora liderado por Luís Montenegro, terá de decidir sobre o futuro dessas licenças.

No debate da moção de censura apresentada pelo Chega, Luís Montenegro admitiu ser amigo pessoal dos acionistas da empresa, os irmãos Manuel e Rita Violas, e prometeu impor a si próprio uma “inibição total de intervir em qualquer decisão” relacionada com a Solverde ou outras empresas com que “estiver ligado por relações familiares, de amizade ou razões profissionais”. No entanto, até ao momento, não houve qualquer pedido formal de escusa por parte do primeiro-ministro sobre qualquer matéria.

O grupo Solverde consolidou-se como um dos principais operadores no setor do jogo e hotelaria em Portugal. Contudo, as relações comerciais e pessoais com o atual primeiro-ministro, levantam questões sensíveis sobre transparência e potenciais conflitos de interesse no horizonte das decisões governamentais sobre as concessões de jogo que expiram no final de 2025.

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