Emergência climática: o dever de comunicar sustentabilidade com verdade

  • João Francisco Ferreira
  • 8 Abril 2026

Quando a narrativa se distancia da realidade, não é apenas a reputação da marca que é colocada em causa, é também a credibilidade do próprio conceito de sustentabilidade que se fragiliza.

Se a sustentabilidade ambiental já começava a assumir um papel cada vez mais relevante no contexto corporativo, a devastação a que assistimos no nosso país veio sublinhar a urgência de olharmos com toda a seriedade para este tema. Já não basta prometer responsabilidade ambiental, é necessário demonstrá-la de forma rigorosa e consistente. Neste contexto, o Marketing ocupa uma posição central, não apenas enquanto disciplina que aproxima organizações e pessoas, mas sobretudo como mediador de comportamentos e criador de sentido num mundo que exige escolhas cada vez mais conscientes.

O Marketing Sustentável não é um exercício de linguagem. É um compromisso ético, cuja missão passa pela capacidade de promover hábitos que contribuem para a preservação dos recursos naturais, para a redução dos impactos humanos e para a construção de uma cultura sensível ao bem coletivo, ao ambiente e ao futuro. Quando uma marca comunica gestos que convidam o consumidor a adotar práticas mais responsáveis, está a participar numa transformação que beneficia a sociedade como um todo. Esta influência é um privilégio, mas também uma responsabilidade que precisa de ser assumida com rigor.

Num 2026 tão marcado pela devastação causada por intensos fenómenos climáticos, vemos corroborada, de uma forma tragicamente próxima, a relevância dos dados da ONU apresentados na COP 30, que destacaram de forma contundente o impacto crescente dos eventos climáticos extremos na saúde e na segurança de populações a nível global.

Estes acontecimentos demarcam, com cada vez mais clareza, que a sustentabilidade passou a ser uma necessidade urgente no que respeita a mudanças culturais, comportamentais e comunicacionais. Para o Marketing, este contexto global funciona como um lembrete de que cada mensagem deve ser sustentada em verdade e contribuir para uma perceção mais lúcida do que está em causa.

É neste ponto que a transparência se torna indispensável. A fronteira que separa comunicação responsável de greenwashing é ténue e facilmente ultrapassada quando a pressa de acompanhar tendências se sobrepõe ao rigor dos factos, e à vontade de implementar mudanças concretas e sustentadas.

Os consumidores estão mais atentos, informados, conscientes e conectados, exigindo que as promessas sejam verificáveis e que os resultados sejam tangíveis. Quando a narrativa se distancia da realidade, não é apenas a reputação da marca que é colocada em causa, é também a credibilidade do próprio conceito de sustentabilidade que se fragiliza sempre que é usado de forma superficial. O Marketing tem, por isso, o dever de se tornar guardião da autenticidade.

O papel das instituições científicas e dos espaços de educação ambiental assume hoje uma responsabilidade acrescida. Centros científicos e outras estruturas de conservação prestam um contributo insubstituível na divulgação de conhecimento sobre a biodiversidade e preservação ambiental. Para muitos cidadãos, são estes locais que revelam, pela primeira vez, a complexidade dos ecossistemas oceânicos e a urgência da sua proteção. Através da investigação, da pedagogia e da experiência sensorial direta, estes espaços conseguem transformar curiosidade em envolvimento emocional, e esse envolvimento é o primeiro passo para uma consciencialização duradoura.

Quando se comunica o trabalho destas instituições com rigor e sensibilidade, criam-se pontes entre a ciência e a sociedade, e contribui-se para que o debate ambiental seja mais acessível e participativo. Através de narrativas e ações bem construídas, capazes de traduzir conhecimento e linguagem técnica em mensagens claras, a sustentabilidade deixa de pertencer apenas a um nicho de especialistas para se tornar, finalmente, uma causa coletiva. O que está é a construção de uma consciência crítica e de um sentido de responsabilidade que nos diz respeito a todos.

Vivemos um momento em que expectativas e ações precisam de convergir. O Marketing pode ser um agente de mudança, pode elevar o nível da discussão, dar voz às melhores práticas, valorizar a ciência e incentivar escolhas que contribuam para um planeta, e consequentemente um país, mais seguro. Para isso, precisa apenas de se manter fiel ao princípio mais simples e mais exigente da sustentabilidade: agir com verdade, comunicar com honestidade e colocar o bem comum no centro da sua missão.

  • João Francisco Ferreira
  • Diretor de marketing do Sea Life Porto

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