Yahoo espiava todos os e-mails dos clientes sob ordem das secretas americanas

  • Marta Santos Silva
  • 4 Outubro 2016

A tecnológica norte-americana criou um software especializado para poder procurar informação em todos os e-mails enviados pelos clientes. E passava a informação a agências como a NSA e o FBI.

A tecnológica norte-americana Yahoo terá criado um software especializado para poder procurar e recolher informação específica em todos os e-mails recebidos pelos seus clientes e fazê-la chegar a agentes das secretas dos Estados Unidos.

Segundo a Reuters, que cita dois antigos empregados da Yahoo e uma terceira fonte com conhecimento do assunto, a empresa espiou os e-mails recebidos por centenas de milhões de contas nos seus servidores, seguindo uma diretiva confidencial emitida em 2015 pelo governo dos Estados Unidos, para procurar fazer chegar às secretas FBI e NSA certas informações que estas pediam.

Não se sabe ainda quais as informações que as secretas norte-americanas queriam que fossem pesquisadas nos e-mails dos clientes Yahoo Mail. Segundo as fontes da Reuters, tratava-se de um conjunto de carateres que deviam ser pesquisados em todos os e-mails recebidos pelos clientes da Yahoo, podendo tratar-se de palavras ou expressões. Em resposta à Reuters, a empresa recusou comentar para além de uma curta declaração: “A Yahoo é uma empresa que obedece à lei, e segue as leis dos Estados Unidos”.

Também ainda não se sabe se outras empresas foram abordadas pelo governo dos Estados Unidos para realizarem tarefas semelhantes, ou se mais alguma terá correspondido. Este é o primeiro caso em que é revelado que uma grande empresa tecnológica realizou espionagem desta envergadura à correspondência dos clientes sob ordem governamental.

O caso é contrastante com o que se passou na Apple ainda este ano, quando a empresa se recusou a corresponder a um pedido do FBI para criar um novo software que permitisse aceder ao iPhone bloqueado de um dos terroristas responsáveis pelo ataque em San Bernardino, na Califórnia. O FBI acabou por desistir do pedido quando conseguiu entrar no iPhone por outros meios, sem a ajuda da tecnológica.

"É difícil de acreditar que este programa estivesse limitado à Yahoo.”

Glenn Greenwald

Jornalista ligado às revelações de Snowden

Alguns peritos na legislação FISA, ou Foreign Intelligence Surveillance Act, ao abrigo da qual as secretas norte-americanas podem fazer pedidos de informação confidencial dos clientes às empresas tecnológicas, disseram à Reuters que a Yahoo podia ter-se recusado a responder ao pedido com a justificação de ter de desenvolver todo um novo software de raiz para poder realizar a tarefa que era exigida.

Os antigos empregados da Yahoo que falaram à Reuters sob anonimato acrescentaram que a obediência da CEO da Yahoo, Marissa Mayer, à diretiva governamental que foi enviada para o departamento legal da empresa provocou a saída de Alex Stamos do posto de dirigente da segurança informacional na empresa, para se tornar mais tarde o dirigente de segurança no Facebook.

O software de espionagem foi descoberto pela equipa que Stamos liderava poucas semanas depois de ter sido instalado, em 2015. Stamos terá pensado inicialmente que o programa tivesse sido instalado por hackers, mas quando descobriu que tinha sido ordem de Mayer, optou por demitir-se. Alex Stamos não confirmou esta versão da história, e não tinha mencionado qualquer problema com a Yahoo quando anunciou a sua demissão.

É a mais recente — e mais grave — revelação contra as políticas de privacidade da Yahoo, que há poucas semanas revelou que uma falha no seu sistema de segurança tinha permitido a um hacker ter acesso às contas de cerca de 500 milhões de utilizadores. O pirata terá posteriormente vendido informação dos utilizadores da Yahoo, incluindo palavras-passe, nomes de utilizador e datas de nascimento, no mercado negro digital.

 

Após a publicação da notícia pela Reuters, Edward Snowden, responsável pelas revelações de uma enorme rede de espionagem orquestrada pela National Security Agency (NSA) junto de tecnológicas e empresas de telecomunicações, que se encontra exilado, aconselhou no Twitter a que os utilizadores do serviço de e-mail da Yahoo fechassem as contas ainda hoje. “Eles leram secretamente tudo o que alguma vez escreveste, indo muito além do que o requerido por lei”, escreveu.

Também no Twitter, o jornalista norte-americano Glenn Greenwald, um dos principais autores das reportagens de 2013 no jornal The Guardian que divulgaram os programas de espionagem expostos por Edward Snowden, disse duvidar que a história se ficasse por aqui. “É difícil de acreditar que este programa estivesse limitado à Yahoo”, afirmou.

Artigo editado por Paulo Moutinho

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