Chocolates, perfumes e… carros. Porquê?

A época natalícia faz disparar a venda de chocolates e perfumes. Mas as fabricantes de automóveis também querem entrar na lista de compras. Há campanhas, mas só até 31 de dezembro. Ou será mesmo "só"?

Tem reparado na publicidade nos sites, jornais, rádios e televisões? Há anúncios a brinquedos para os mais pequenos, a chocolates e muitas campanhas que promovem perfumes. São um clássico desta época natalícia a que, nos últimos anos, se têm juntado as fabricantes de automóveis. São spots atrás de spots a promover os atuais e novos modelos com preços mais baixos até ao final do ano numa luta por aumentar as vendas. E as quotas de mercado. Quem quer comprar pode fazer um bom negócio.

O Natal é, tradicionalmente, uma época em que a compra de chocolates dispara. As vendas de bombons na quadra natalícia do ano passado representaram 63% das vendas totais do ano. E as de figuras de chocolate chegaram a 42% do total desse ano, de acordo com os dados da Nielsen. O mesmo acontece com os perfumes que, diz a consultora, também vivem um período “especial” no Natal. Daí a cadência de anúncios que promovem as fragrâncias. E, embora bastante mais caros — e não sendo um presente qualquer –, os automóveis também procuram entrar na lista de compras.

Cumprir este objetivo não é fácil. Um automóvel não é um presente, nem é uma compra por impulso. Tendo em conta os valores avultados envolvidos, e sendo uma compra refletida, as marcas tentam atrair os consumidores com campanhas que apelam à urgência da decisão. Como? “Só até 31 de dezembro”, “unidades limitadas”, entre outros, juntando a esta emergência a oferta de soluções de aquisição atrativas. Seja através da valorização da retoma, seja de condições de financiamento especiais que permitem apresentar mensalidades reduzidas.

Veja aqui algumas das campanhas:

Não há praticamente marca de automóveis que não tenha campanhas em curso que muitos portugueses procuram aproveitar — e podem, efetivamente, tornar-se bons negócios para quem não sofre do “trauma” da matrícula de dezembro. Mas porquê o final do ano? A resposta é simples: vendas, que tendencialmente são mais fracas em dezembro. Mas também os números das vendas. Vender mais 100 ou mais 1.000 automóveis faz diferença. Podem significar atingir ou não as metas do ano, ou ficar à frente ou atrás da concorrência.

Os meses de dezembro têm sido marcados por números de unidades vendidas em linha com as da média dos meses da segunda metade do ano que é, geralmente, mais fraca que a primeira, de acordo com os números da ACAP. Um resultado que traduz, em parte, o sucesso destas estratégias, mas não só. Em Portugal, os números que são divulgados mensalmente pela associação de comerciantes de automóveis são referentes às matrículas emitidas. Não são de registos de automóveis. São coisas diferentes.

Muitas marcas solicitam matrículas para automóveis que não foram vendidos. São veículos novos com a matrícula do último mês do ano, que permitem estas campanhas especiais de final de ano ao acelerarem o processo para entregar o carro ao cliente. Mas também faz aumentar artificialmente as “vendas” dessa marca. Números oficiais deste efeito? Não há. Mas a SIVA tem projeções que apontam para um total de 30 mil unidades “vendidas” nestes moldes este ano. É um aumento face aos 23.300 registados no ano passado.

Em janeiro há mais

Estas “vendas” permitem às marcas apresentarem números superiores (ou não tão baixos) aos registados no ano anterior, além de poderem fazer a diferença no ranking das marcas mais vendidas. Para os consumidores, permitem preços mais atrativos que, contudo, não se esgotam no final do ano como os anúncios fazem crer. É que se há carros que efetivamente põem os pneus no asfalto, muitos outros ficam no parque à espera de comprador. Carros em stock que estão matriculados e têm de ser vendidos.

A urgência de decidir comprar um carro novo em dezembro fomentada pelas fabricantes transforma-se em carros do “ano passado” com valores abaixo daqueles a que estão outros iguais em exposição. Pode haver o inconveniente para o cliente em termos da configuração do modelo pretendido, ou da cor, mas está garantido um valor inferior ao de um “carro novo”. E em anos em que a fiscalidade sobre a indústria automóvel sofre alterações, ou seja, aumenta a carga fiscal, fica garantida a proteção contra a nova vaga de impostos.

É isso mesmo que vai acontecer já a partir de 1 de janeiro. Embora as marcas não utilizem diretamente a fiscalidade como forma de promoção das vendas — apenas alguns supermercados de automóveis têm recorrido a esse argumento –, este é um fator a ter em conta se a compra de automóvel está nos planos a curto prazo. Além de um aumento dos impostos sobre a posse de veículos que se junta ao agravamento dos encargos fiscais suportados na altura da compra de automóveis novos.

“Verifica-se um aumento generalizado das taxas de imposto” sobre veículos, o ISV, refere a EY. No Orçamento do Estado para 2017 há um forte aumento nos valores das várias componentes utilizadas para o cálculo da fiscalidade sobre veículos novos. Há agravamentos de 3% tanto no caso da componente de cilindrada como na vertente ambiental que são recebidos com “estupefação e desagrado” pela ANECRA. Com o ISV, o Estado conta arrecadar 692 milhões de euros, um valor superior aos 660,6 milhões de euros estimados para este ano.

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