O que interessa verdadeiramente aos eleitores franceses?

  • Marta Santos Silva
  • 22 Abril 2017

Quase ninguém em França é favorável a uma saída do euro ou da União Europeia. Então, o que guia os apoiantes de Le Pen, e porque se fala tanto em Frexit?

Emprego, proteção social, poder de compra. Parecendo que não, é este o top três das preocupações dos eleitores franceses, segundo uma sondagem feita pela empresa OpinionWay publicada a 20 de março. Mesmo que os temas mais falados sejam a imigração, que só surge em quarto lugar, e uma possível saída da União Europeia — que a mesma sondagem mostra ter pouquíssimos apoiantes –, os eleitores estão mais preocupados com a economia. Então o que move este discurso?

Em setembro do ano passado, uma sondagem do instituto Elabe para a BFMTV mostrava já esta tendência: as questões económicas e sociais têm prioridade sobre as identitárias e de segurança na mente dos eleitores. Com uma exceção: os apoiantes do partido de extrema-direita Frente Nacional, liderado por Marine Le Pen, para quem em ambas as sondagens o mais importante é a imigração e a segurança.

A sondagem da OpinionWay, mais recente, mostra com clareza esta distinção. As três preocupações expressas por mais franceses, dos mais de mil inquiridos, são económicas: o emprego, a proteção social e o poder de compra foram mencionadas por cerca de metade dos franceses. A imigração surge em quarto lugar, com 43% das pessoas a dizerem que este era um tema que consideravam importante.

Mas os apoiantes da Frente Nacional mostram uma prioridade diferente: 83% consideraram que a imigração era o mais importante. “Eles consideram que este tema ‘contém’ todos os outros”, afirma Rémi Jeannin, professor de ciências económicas e sociais, ao jornal La Croix, sobre esta sondagem.

O que trouxe a imigração para a frente do debate?

“Tem sido um dos temas centrais nos últimos, diria eu, três ou quatro anos”, afirma o especialista Joseph Downing da universidade britânica London School of Economics, que estuda as questões de integração de migrantes na sociedade francesa. “Tem estado latente em França há várias décadas, mas tornou-se mais importante com a crise migratória, e as pessoas que têm atravessado o Mediterrâneo”.

Não só a crise migratória exacerbou estas preocupações como os atentados terroristas em França — desde o ataque à redação do jornal satírico Charlie Hebdo aos atentados no Stade de France e no Bataclan, passando pelo dia da Bastilha em Nice e chegando até ao ataque desta quinta-feira, nos Campos Elísios, a dias das eleições — fazem com que estas sejam vistas sob uma nova luz.

O terrorismo de facto preocupa os franceses. Uma sondagem de setembro feita pelo grupo Ifop e divulgada pelo jornal Le Point mostra que os franceses estavam tão preocupados com os atentados como com o desemprego, considerando que a luta contra o terrorismo “contaria muito” no seu voto nas eleições deste ano. “Agora o assunto assumiu um novo significado, não sendo apenas um problema de segurança de forma abstrata”, assume o investigador, que tem o cuidado de ressalvar que muitos dos atentados foram perpetrados por pessoas com nacionalidade francesa, o que faz com que não sejam exatamente bem enquadrados numa discussão sobre fronteiras ou movimentos migratórios recentes.

No entanto, o investigador acrescenta que “é fácil exagerar a importância” deste tema. Indo ao encontro das sondagens da OpinionWay e do Instituto Elabe, Joseph Downing afirma que embora a migração seja um assunto chave, “as preocupações dos eleitores têm um espetro muito mais amplo”. Mesmo Marine Le Pen, ao longo do período de campanha, tentou amaciar o seu discurso para falar mais sobre questões económicas e menos sobre “a velha retórica xenófoba”… pelo menos até esta última semana.

Na quarta-feira Marine Le Pen fez um comício em Marselha onde voltou para um discurso mais encostado à extrema-direita, onde repetiu a sua proposta de impor uma “moratória” sobre a imigração legal se chegar à presidência, e fazendo acusações contra os outros candidatos precisamente nessa base: “François Fillon nunca manteve as suas promessas, deixou entrar mais estrangeiros no país” quando era primeiro-ministro, disse, citada pelo Le Monde. Uma argumentação que a candidata sabe que vai apelar e reforçar o apoio junto das suas bases, que colocam a imigração como prioridade.

E a saída da União Europeia?

Muito tem sido dito sobre a possibilidade de um Frexit — uma saída da França seja da União Europeia seja da moeda única, algo que Marine Le Pen defende, prometendo realizar um referendo sobre o assunto logo que seja eleita Presidente. Também o seu opositor no outro canto do espetro político, Jean-Luc Mélenchon do partido França Insubmissa, pretende renegociar os tratados da União Europeia e, se não o conseguir de forma favorável, eventualmente sair da UE. Mas os franceses gostam da ideia? A mesma sondagem da OpinionWay mostra que não. Mais de 70% dos franceses opõe-se a uma saída do euro e da UE, com apenas 11% a serem “muito favoráveis” a uma saída da moeda única.

Então, porque se discute tanto este tema? Quase todos os principais candidatos, excetuando o mais pró Europa Emmanuel Macron, assumiram uma postura eurocética de uma forma ou de outra.

Para Federiga Bindi, investigadora da universidade norte-americana Johns Hopkins, a resposta é clara. “Normalmente as eleições jogam-se mais sobre os assuntos domésticos do que internacionais, mas, neste momento, como houve o Brexit, e como em França já havia no passado o debate sobre a Europa, a importância do projeto europeu no debate é muito mais importante do que o normal”, explicou ao ECO. “E ainda por cima com as eleições convocadas” no Reino Unido, continuou.

O investigador Lorenzo Codogno, da London School of Economics, concorda que o tema está mais na ribalta nos últimos tempos, mas dá outra justificação. “Após tantos anos de crise económica em vários países, a situação ainda não melhorou totalmente”, reconhece. “O debate político não tem sido muito favorável à Europa, e muitos partidos culpam a Europa pelos problemas“. Na opinião do investigador, a União Europeia não é a fonte dos problemas económicos em que os países de encontrem, embora seja preciso reconhecer que “os líderes europeus não geriram a crise da melhor maneira possível”.

Para este investigador, a Europa pode mesmo começar a ser a solução. “Uma integração mais rápida também significa crescimento económico, porque o potencial do mercado único ainda não foi totalmente explorado. O crescimento económico ajudaria a aumentar o investimento e a atenuar os problemas sociais também”, acrescenta. Algo que não está a ser refletido nas eleições francesas, com a exceção do favorito, Macron, que está à frente nas sondagens.

O ECO recusou os subsídios do Estado. Contribua e apoie o jornalismo económico independente

O ECO decidiu rejeitar o apoio público do Estado aos media, porque discorda do modelo de subsidiação seguido, mesmo tendo em conta que servirá para pagar antecipadamente publicidade do Estado. Pelo modelo, e não pelo valor em causa, cerca de 19 mil euros. O ECO propôs outros caminhos, nunca aceitou o modelo proposto e rejeitou-o formalmente no dia seguinte à publicação do diploma que formalizou o apoio em Diário da República. Quando um Governo financia um jornal, é a independência jornalística que fica ameaçada.

Admitimos o apoio do Estado aos media em situações excecionais como a que vivemos, mas com modelos de incentivo que transfiram para o mercado, para os leitores e para os investidores comerciais ou de capital a decisão sobre que meios devem ser apoiados. A escolha seria deles, em função das suas preferências.

A nossa decisão é de princípio. Estamos apenas a ser coerentes com o nosso Manifesto Editorial, e com os nossos leitores. Somos jornalistas e continuaremos a fazer o nosso trabalho, de forma independente, a escrutinar o governo, este ou outro qualquer, e os poderes políticos e económicos. A questionar todos os dias, e nestes dias mais do que nunca, a ação governativa e a ação da oposição, as decisões de empresas e de sindicatos, o plano de recuperação da economia ou os atrasos nos pagamentos do lay-off ou das linhas de crédito, porque as perguntas nunca foram tão importantes como são agora. Porque vamos viver uma recessão sem precedentes, com consequências económicas e sociais profundas, porque os períodos de emergência são terreno fértil para abusos de quem tem o poder.

Queremos, por isso, depender apenas de si, caro leitor. E é por isso que o desafio a contribuir. Já sabe que o ECO não aceita subsídios públicos, mas não estamos imunes a uma situação de crise que se reflete na nossa receita. Por isso, o seu contributo é mais relevante neste momento.

De que forma pode contribuir para a sustentabilidade do ECO? Na homepage do ECO, em desktop, tem um botão de acesso à página de contribuições no canto superior direito. Se aceder ao site em mobile, abra a 'bolacha' e tem acesso imediato ao botão 'Contribua'. Ou no fim de cada notícia tem uma caixa com os passos a seguir. Contribuições de 5€, 10€, 20€ ou 50€ ou um valor à sua escolha a partir de 100 euros. É seguro, é simples e é rápido. A sua contribuição é bem-vinda.

António Costa
Publisher do ECO

5€
10€
20€
50€

Comentários ({{ total }})

O que interessa verdadeiramente aos eleitores franceses?

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião