As jogadas de Trump e Xi Jinping até à guerra comercial

  • Juliana Nogueira Santos
  • 4 Abril 2018

As ameaças de guerra entre EUA e China têm vindo dos dois lados da barricada, mas até agora a estratégia tem sido mover uma peça de cada vez.

Fotomontagem de Ana Raquel Moreira

Peão a peão, cavalo a cavalo, Donald Trump e Xi Jinping estão a preparar o tabuleiro para uma derradeira batalha. No início do mês passado, o tiro de partida para o começo de uma guerra comercial entre os Estados Unidos e a China foi dado pelos ocidentais: a aplicação de taxas alfandegárias às importações de alumínio e aço.

A partir daí, as acusações e as respostas concretas começaram a navegar livremente no Oceano Pacífico. Nos Estados Unidos, Trump afirmava que, ainda que os chineses fossem aliados em certos aspetos, estava na hora de proteger os setores “pela primeira vez em muitos anos”. A China mostrou-se disposta a retaliar, tendo acabado por o fazer.

Assim, semana a semana, a quantidade de produtos e o valor total da retaliação têm vindo a escalar, com Trump a penalizar a China em 50 mil milhões de dólares, e Jinping a responder com um pacote do mesmo valor. Mas quais foram as jogadas feitas até chegar a este clima bélico?

Trump começa com o peão, segue logo para o rei

A princípio era só o aço e o alumínio, com taxas de 25% e 10%, respetivamente, com Trump a justificar que tal teria de ser feito para proteger a indústria nacional e até a segurança do país. Mas as penalizações aduaneiras não se ficaram por estes dois metais.

Dias depois de anunciar estas primeiras taxas, os Estados Unidos isentaram o Canadá, o México e a União Europeia, definindo assim como alvo principal a China. Seguiu-se então a confirmação de que as importações chinesas iam sofrer. A fatura seria de 60 mil milhões e a lista chegaria semanas depois.

Esta quarta-feira, soube-se que eram 1.300 produtos a serem afetados por este castigo, de vários setores como aeronáutica, tecnologias de informação e comunicação ou ainda robótica e máquinas. Ainda assim, o impacto nos bolsos do Estado chinês não será assim tão forte como se pensava, com o pacote de produtos a rondar os 50 mil milhões de dólares.

China responde com três mil milhões…

A primeira retaliação da China não tardou a chegar, mas pecou pela dimensão. Depois de anunciada a imposição de tarifas a produtos chineses num total de 60 mil milhões de dólares, os norte-americanos receberam em troca tarifas de três mil milhões.

Incluídos neste pacote de produtos taxados estavam a carne de porco e os vinhos e outros 100 bens produzidos em território norte-americano. Nessa altura, os investidores respiraram de alívio sendo que parecia que a ameaça de guerra não seria assim tão concreta.

… e depois com 50 mil milhões

Para ficar em pé de igualdade, a China avançou esta quarta-feira para uma lista de 120 produtos alimentares, desde a carne de porco, à fruta desidratada, aos frutos secos, tudo no valor de 50 mil milhões de euros. E se antes da lista final os chineses tinham deixado de foram um produto chave para a agricultura norte-americana, a soja.

Ainda assim, a taxação das remessas de soja que vêm dos Estados Unidos fica assim a prejudicar os dois lados: as regiões mais interiores dos Estados Unidos — e muitos dos eleitores que escolheram Trump em 2016 –, que aposta na cultura deste produtos e os criadores de gado chineses, que dependem da matéria-prima norte-americana para alimentarem os seus animais.

A lista de produtos a serem taxados a 25% na entrada do país engloba desde a soja, aos carros, aos químicos, a alguns tipos de aeronaves, a produtos com milho, entre outros produtos agrícolas. Existirão ainda tarifas extra para produtos como o uísque, cigarros, tabaco, alguns tipos de bifes, lubrificantes, produtos de plástico, sumo de laranja norte-americano, algodão e alguns tipos de trigo.

Trump serena os mercados

Já esta quarta-feira, através do seu meio de comunicação favorito, Donald Trump veio afirmar que o que se está a passar não é o princípio de uma guerra comercial, mas sim o resolver o que foi causado pelos “tolos ou incompetentes” que têm representado os Estados Unidos.

“Não estamos numa guerra comercial com a China, essa guerra já foi perdida há muitos anos pelos tolos ou incompetentes que representaram os Estados Unidos. Agora temos um défice comercial de 500 mil milhões de euros anuais, com roubos de propriedade intelectual de mais 300 mil milhões. Não podemos deixar que isto continue”, escreveu o Presidente.

Os mercados têm olhado para todas as jogadas desta partida com muita atenção, sendo que esta quarta-feira estão especialmente receosos. As principais bolsas mundiais, tanto do lado de lá como de cá do Oceano Atlântico, seguem a negociar em terreno negativo. O petróleo também cai mais de 2%, tanto em Londres como em Nova Iorque.

O ECO recusou os subsídios do Estado. Contribua e apoie o jornalismo económico independente

O ECO decidiu rejeitar o apoio público do Estado aos media, porque discorda do modelo de subsidiação seguido, mesmo tendo em conta que servirá para pagar antecipadamente publicidade do Estado. Pelo modelo, e não pelo valor em causa, cerca de 19 mil euros. O ECO propôs outros caminhos, nunca aceitou o modelo proposto e rejeitou-o formalmente no dia seguinte à publicação do diploma que formalizou o apoio em Diário da República. Quando um Governo financia um jornal, é a independência jornalística que fica ameaçada.

Admitimos o apoio do Estado aos media em situações excecionais como a que vivemos, mas com modelos de incentivo que transfiram para o mercado, para os leitores e para os investidores comerciais ou de capital a decisão sobre que meios devem ser apoiados. A escolha seria deles, em função das suas preferências.

A nossa decisão é de princípio. Estamos apenas a ser coerentes com o nosso Manifesto Editorial, e com os nossos leitores. Somos jornalistas e continuaremos a fazer o nosso trabalho, de forma independente, a escrutinar o governo, este ou outro qualquer, e os poderes políticos e económicos. A questionar todos os dias, e nestes dias mais do que nunca, a ação governativa e a ação da oposição, as decisões de empresas e de sindicatos, o plano de recuperação da economia ou os atrasos nos pagamentos do lay-off ou das linhas de crédito, porque as perguntas nunca foram tão importantes como são agora. Porque vamos viver uma recessão sem precedentes, com consequências económicas e sociais profundas, porque os períodos de emergência são terreno fértil para abusos de quem tem o poder.

Queremos, por isso, depender apenas de si, caro leitor. E é por isso que o desafio a contribuir. Já sabe que o ECO não aceita subsídios públicos, mas não estamos imunes a uma situação de crise que se reflete na nossa receita. Por isso, o seu contributo é mais relevante neste momento.

De que forma pode contribuir para a sustentabilidade do ECO? Na homepage do ECO, em desktop, tem um botão de acesso à página de contribuições no canto superior direito. Se aceder ao site em mobile, abra a 'bolacha' e tem acesso imediato ao botão 'Contribua'. Ou no fim de cada notícia tem uma caixa com os passos a seguir. Contribuições de 5€, 10€, 20€ ou 50€ ou um valor à sua escolha a partir de 100 euros. É seguro, é simples e é rápido. A sua contribuição é bem-vinda.

António Costa
Publisher do ECO

5€
10€
20€
50€

Comentários ({{ total }})

As jogadas de Trump e Xi Jinping até à guerra comercial

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião