Like & Dislike: António Mexia já não tem poder

Antigamente a EDP até tinha poder para mandar embora secretários de Estado incomodativos. Hoje, a elétrica acumula derrotas atrás de derrotas. Mexia ainda é um ativo na EDP?

Para o contabilista da EDP, hoje em dia não é fácil perceber de que lado do balanço da EDP deve ser colocado António Mexia, se do ativo ou do passivo. Se durante anos o gestor era claramente um ativo, colocando a elétrica a dar lucros anuais acima dos mil milhões de euros, hoje não é claro que assim seja.

O gestor entrou numa guerra com o Governo e está a sofrer sucessivas derrotas, com impacto relevante nas contas da empresa. Ainda esta quinta-feira veio anunciar uma revisão em baixa dos lucros em 200 a 300 milhões. Além disso, o facto de ser arguido no caso dos CMEC (processo em que o Ministério Público investiga factos suscetíveis de integrarem os crimes de corrupção ativa, corrupção passiva e participação económica em negócio) fragiliza a sua imagem e a sua relação com os stakeholders. E o facto de o primeiro-ministro usar o salário milionário de António Mexia para fazer propaganda política só vem piorar as coisas.

A EDP foi historicamente uma empresa muito ligada ao poder político. Primeiro porque era uma empresa pública e depois porque está num setor altamente regulado e, como tal, muito dependente da boa vontade política. Não é por acaso que durante anos as quotas partidárias tiveram sempre assento na administração da empresa. Depois de privatizada, também nunca abdicou de ter alguém que fizesse a ponte com o poder político. Uma ligação que a certa altura foi tão umbilical que o Ministério Público está a investigar o ex-ministro Manuel Pinho para saber se não terá feito favores à EDP a troca de contrapartidas financeiras.

Ainda todos se lembrarão da figura que fez Eduardo Catroga, então chairman da EDP, quando António Costa foi visitar a Fundação EDP. Foi apanhado pelas câmaras de televisão a sussurrar ao ouvido do primeiro-ministro: “Os acionistas da EDP precisam de conversar consigo”. Entretanto saiu Catroga, um social-democrata, para dar lugar a Luís Amado, ex-ministro do Governo de Sócrates.

Mas nem Amado impediu que a relação entre Mexia e António Costa azedasse. Além de bradar aos céus contra a folha salarial de António Mexia, o primeiro-ministro já disse no Parlamento que grandes empresas como a EDP “têm várias manhas” e que a elétrica “tinha posição dócil e passou a ser hostil desde que o Governo mudou”. Até já tivemos secretários de Estado deste Governo a afirmar em entrevista: “Não tenho medo da EDP”.

Isto é relevante porque durante anos os secretários de Estado tiveram medo da EDP. Henrique Gomes, secretário de Estado de Passos Coelho, foi corrido do Governo anterior quando tentou cortar subsídios e rendas à EDP. Cerca de um ano depois da sua saída do Governo, o ministro Álvaro Santos Pereira disse isto, em entrevista à TSF: “Quando o meu anterior secretário de Estado da energia, o engenheiro Henrique Gomes, saiu, eu tive um dos principais presidentes das produtoras de energia elétrica em Portugal a telefonar para várias pessoas, a celebrar com champanhe”.

Com este Governo, as coisas têm mudado e Mexia não tem tido grandes ocasiões para tirar o champanhe do frigorífico. Está numa guerra com António Costa e está claramente a perder:

  1. Primeiro foi a contribuição extraordinária sobre setor energético (CESE) que já vem do tempo troika e que este Governo faz questão de não deixar cair, custando alguns milhões aos cofres da EDP que já meteu o Estado em tribunal.
  2. Depois foram os CMEC, com uma derrota em toda a linha para Mexia. Em maio, o Governo concordou que o valor a pagar à EDP pela parcela variável dos CMEC do período de 2017 a 2027 será de 154 milhões de euros, bastante aquém dos 256 milhões pretendidos pela EDP. A empresa também já anunciou que vai para tribunal.
  3. Além disso, o Estado vai obrigar a elétrica a devolver 357,9 milhões de euros por valores relativos aos CMEC passados (de 2007 a 2017) que a EDP terá recebido a mais (relativos aos “aspetos inovatórios”). Foi este valor que levou a empresa a rever esta quinta-feira em forte baixa a estimativa de lucros para este ano, em 200 a 300 milhões. Também já disse que vai contestar para os tribunais internacionais.
  4. A comunicação que a EDP fez ao mercado, acredito que terá uma intenção sobretudo profilática. É que além dos CMEC e da CESE, António Mexia já percebeu que o Orçamento do Estado para 2019 vai ressuscitar a medida do Bloco de Esquerda para terminar com a isenção das renováveis às taxas extra na energia, o que será mais um duro golpe na carteira de ativos da EDP numa altura em que está a ser alvo de uma OPA.

No comunicado à CMVM sobre os CMEC, a EDP diz que este profit warning fará com que “pela primeira vez, desde o início da reprivatização da EDP, tenha um prejuízo na sua atividade em Portugal”. O que deixa também uma má imagem da empresa, dando a entender que sem rendas garantidas, não consegue rentabilizar o negócio num mercado concorrencial.

É uma derrota em toda a linha para António Mexia que está há doze anos na EDP e que já teve de lidar com cinco governos (dois de Sócrates, dois de Passos e um de Costa). Mas nunca como agora o poder de Mexia foi tão inexistente.

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