O que os Estados Unidos têm e nós não? Competitividade

  • Guilherme Monteiro
  • 7 Dezembro 2018

Os norte-americanos dão cartas no sistema financeiro e no mercado laboral. Portugueses têm mais custos se quiserem abrir um negócio e empresas levam mais tempo a aderir a ideias inovadoras.

Os Estados Unidos continuam, em 2018, a ser o país mais competitivo do mundo de entre 140 países. A conclusão é do Fórum Económico Mundial no estudo ‘The Global Competitiveness Report‘, onde Portugal só aparece no 34.º lugar da tabela.

Os cálculos analisam o ambiente económico, o capital humano, os mercados e o sistema de inovação. Dentro destes quatro grupos, encontram-se 12 critérios específicos para avaliar os países: instituições; infraestruturas; adoção de tecnologias de informação e comunicação; estabilidade macroeconómica; saúde; competências; mercado de produtos; mercado laboral; sistema financeiro; dimensão do mercado; dinamismo de negócios e, finalmente, capacidade de inovação.

Os valores alcançados pelos Estados Unidos nos diversos indicadores diferem mas, em sete deles, ocupam os três primeiros lugares. É no sistema financeiro, que avalia o investimento no setor produtivo, que os norte-americanos saem melhor na fotografia. Obtêm 92,1 pontos numa escala até 100 e demonstram eficiência no financiamento às pequenas e médias empresas. Dados que confirmam que os Estados Unidos dispõem do sistema financeiro “mais sofisticado do mundo”, diz a professora de economia política internacional do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP-UL), Carla Costa.

A investigadora diz que os norte-americanos “emitem a moeda que o resto do mundo deseja ter como reserva de valor e têm o mercado de capitais mais líquido de todos”. Descarta, no entanto, a ideia de que a solidez dos bancos contribuam para este sistema financeiro forte, lembrando que a última grande crise económica de 2008 começou precisamente “no sistema financeiro norte-americano, arrasando bancos e outras instituições que, meses antes, tinham recebido as mais elevadas classificações de solvabilidade e robustez por parte das agências financeiras do costume”.

Com 86,5 pontos, os norte-americanos estão também à frente no que toca ao dinamismo de negócios e capacidade de abraçar novas ideais. Algo que não surpreende Carla Costa, visto que a “população norte-americana, até por razões históricas, pela própria construção do país, pela mistura de culturas que a caracteriza, pela estrutura política, administrativa e científica, está mais vocacionada para iniciar novos negócios”. A investigadora lembra que “somos tradicionalmente mais avessos ao risco, com maior tendência para o individualismo e pouco disponíveis, de uma forma geral, para a partilha do conhecimento”.

"Somos tradicionalmente mais avessos ao risco, com maior tendência para o individualismo e pouco disponíveis, de uma forma geral, para a partilha do conhecimento.”

Carla Costa

Professora de economia internacional

Algo visível no relatório do Fórum Económico Mundial que, no indicador que mede a capacidade de inovação, mostra os norte-americanos a darem cartas pela aposta em clusters, pela publicação de artigos científicos e pela qualidade de investigação das instituições. Melhor só mesmo a Alemanha.

Já no que toca ao mercado laboral, os Estados Unidos ocupam igualmente a posição cimeira. Intensa mobilidade profissional, políticas de emprego ativas e produtividade ajudam à boa pontuação. Indicadores que têm vindo a melhorar em Portugal, nota Carla Costa, mas que ainda não é suficiente.

"Ainda dispomos de uma das populações ativas com menores qualificações nos vários níveis de ensino, particularmente secundário e terciário, no seio da União Europeia.”

Carla Costa

Professora de economia internacional

Carla Costa recorda que “a organização do trabalho, as burocracias administrativas, o sistema científico, a articulação entre universidades e empresas, assumem uma importância muito significativa” para uma maior competitividade. Algo que é possível nos Estados Unidos, visto que o indicador que avalia a educação coloca o sistema de ensino norte-americano como o terceiro mais bem classificado do mundo. Enquanto em Portugal “ainda dispomos de uma das populações ativas com menores qualificações nos vários níveis de ensino, particularmente secundário e terciário, no seio da União Europeia”. Dados que permitem concluir, segundo o relatório, que as empresas têm menor facilidade em encontrar empregos qualificados, qualidade na formação profissional e pensamento crítico no ensino.

Fonte: “The Global Competitiveness Report 2018”, Fórum Económico Mundial

 

Fora dos três primeiros lugares, seguem-se as infraestruturas em 9.º. Apesar das boas ligações aeroportuárias norte-americanas, de o país não ter perigo de exposição a água não potável, e de uma boa taxa de eletrificação, o estudo revela que os norte-americanos têm de melhorar a oferta ao nível ferroviário, a eficiência dos serviços portuários e a qualidade das estradas.

Adoção de tecnologias de informação e comunicação, macroeconomia e saúde são os indicadores mais negativos para os Estados Unidos. Constam em 27.º, 34.º e 47.º lugares, respetivamente. No que toca à adoção de tecnologias de informação e comunicação o país está atrás de países como a Suíça, na assinatura de internet de banda larga; ou da Islândia, no número de utilizadores de internet.

O que Portugal pode aprender?

É essencialmente no mercado de trabalho, no sistema financeiro, no dinamismo económico, na capacidade de inovação, na dimensão de mercado, nas competências e mercado de produtos. Os 7 indicadores onde os norte-americanos constam nos três primeiros lugares do ranking e Portugal difere entre o 27º e o 52º. lugar.

A professora Carla Costa não deixa de notar que “estamos a comparar a maior economia do mundo, potência mundial a vários níveis” e, “embora existam muitas pequenas economias de elevado nível de desenvolvimento, para certos indicadores, a dimensão ajuda, e muito”.

A investigadora considera, no entanto, que “não somos mais ou menos produtivos apenas por razões genéticas” e alerta que “o ambiente em que desenvolvemos as nossas atividades condiciona a performance, individual e coletiva, maximiza ou minimiza os custos de transação, que são o elemento fundamental para a (des)construção da competitividade. Sustenta ainda que é vital que haja “qualidade das lideranças (políticas, administrativas, empresariais, académicas)”.

"Não somos mais ou menos produtivo apenas por razões genéticas.”

Carla Costa

Professora de economia internacional

Para Carla Costa “muitas vezes, o fator trabalho não tem muita responsabilidade na falta de produtividade da economia; a organização do trabalho, as burocracias administrativas, o sistema científico, a articulação entre universidades e empresas, assumem uma importância muito significativa”. De recordar que, segundo os indicadores do relatório do Fundo Económico Mundial, os portugueses têm mais custos se quiserem iniciar um negócio do que os norte-americanos.

Segundo os dados do Fórum Económico Mundial, melhores que os Estados Unidos só mesmo na longevidade. Os portugueses apresentam melhores resultados na área da saúde e, olhando para a esperança média de vida, à nascença contam viver mais três anos que os norte-americanos.

O que eles têm e nós não?

Portugal podia ser um país mais competitivo? Podia. Como? Se imitasse os melhores. Seríamos os primeiros se tivéssemos a percentagem de utilizadores de Internet da Islândia, um serviço de saúde igual a Espanha, uma oferta de comboios idêntica à da Suíça, o sistema judicial da Finlândia ou uma tolerância ao risco das startups semelhante a Israel. E há mais, muito mais.

Para assinalar os dois anos do ECO, olhamos para Portugal no futuro. Estamos a publicar uma série de artigos, durante três semanas, em que procuramos saber o que o país pode fazer, nas mais diversas áreas, para igualar os melhores do mundo.

Segundo o World Economic Forum, Portugal está em 34.º no ranking da competitividade de 2018. Vamos “visitar” os mais competitivos do mundo, nas mais diversas áreas, e tentar perceber “O que eles têm e nós não?”. Clique aqui para ver todos os artigos da série.

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