Rebanho previne incêndios na serra da Gardunha

  • Filipe S. Fernandes
  • 17 Junho 2019

Serra da Gardunha é percorrida por um rebanho de 50 cabras, com dois pastores. Projeto-piloto para prevenir incêndios através de práticas sustentáveis e tradicionais.

 

O projeto surgiu de uma ideia complementar a um projeto maior submetido à candidatura LIFE e que visava sobretudo a conservação e proteção da biodiversidade, nomeadamente a proteção da planta endémica Asphodelus bento rainhae, abrótea. Deste modo, uma parte da serra da Gardunha foi classificada como “SIC – Sítio de Interesse Comunitário”. Depois da classificação, a câmara do Fundão criou uma zona de salvaguarda à volta da área classificada e aprovou-se o perímetro da Paisagem Protegida Regional da Serra da Gardunha em vigor.

A compra de um rebanho de 50 cabras charnequeira beiroa e a construção de cercas para quatro parqueamentos para o gado foi possível graças aos 30 mil euros da vitória na quinta edição do prémio AGIR de 2018, promovido pela REN. Os trabalhos complementares à implementação da pastorícia foram assegurados pelo município do Fundão que, “além da disponibilização de recursos técnicos específicos e próprios para o desenvolvimento deste projeto, tem à sua responsabilidade a construção de bebedouros para o gado, assumindo a reabilitação de edifício tradicional e emblemático do sítio (secadeira do Carvalhal) e a melhoria da cobertura e repintura das fachadas da casa abrigo. Igualmente procedeu à beneficiação e proteção das barragens existentes no local e melhoria das acessibilidades em conjunto com a Junta de freguesia”, assegura Ana Cunha, membro do Conselho Diretivo da PPRSG e da Agência de Desenvolvimento Gardunha 21.

Proteção da biodiversidade

O balanço feito é positivo porque “a implementação das ações que acompanharam a instalação do rebanho, gado sapador, foi executada por um empreiteiro local e bastante dinamizadas pela comunidade”. Além disso, representa uma atualização das memórias, lendas e costumes, associados à atividade ancestral da transumância que marcou a Gardunha.

Como dificuldades, Ana Cunha aponta a “mudança, derivada a uma interação com o território, que por ser muito apropriado pela comunidade local, esta teme que seja descaracterizado e alterado. Havendo consciência desta condição, houve a preocupação do envolvimento das pessoas em comunhão com a junta de freguesia local, Junta de Freguesia do Souto da Casa”.

Este projeto tem em vista a conservação através da limpeza dos matos e a diminuição da ocorrência de incêndios, e, por outro lado, quer trazer pessoas para a serra no maneio dos rebanhos. Soma-se o facto de “constituir um motor de desenvolvimento da economia local” com a produção do leite e derivados bem como a venda da cabra charnequeira beiroa. “Será em tempo útil desenvolvida uma marca territorial à volta destes produtos com a sigla do Carvalhal é nosso. (facto que surge na tomada do carvalhal pelo povo do Souto da Casa em 1890 – séc. XIX.)”, revela Ana Cunha.

A Agência de Desenvolvimento Gardunha 21 assume-se como defensora e dinamizadora da Paisagem Protegida Regional da Serra da Gardunha. Funciona como uma agência de caráter cooperativo, que tem como objetivo a valorização, promoção e gestão dos recursos do território da Gardunha e seu desenvolvimento sustentável, nomeadamente através de atividades como a promoção da cooperação intermunicipal, a valorização e proteção do Património Natural, a promoção de modelos sustentáveis de desenvolvimento local e ordenamento dos recursos da Gardunha.

Em termos de organização, tem um órgão executivo que é o conselho diretivo e um conselho consultivo que integra um conjunto de parceiros públicos e privados como organizações não-governamentais, Associações de Agricultores, Universidade da Beira Interior, Cerfundão, e entidades coletivas que operam no território, e um representante de todas as juntas de freguesia do território abrangido.

Estado e crowdfunding para cabras sapadoras

Um dos primeiros projetos-piloto que utilizava cabras para a prevenção de incêndios florestais foi promovido pela Aguiarfloresta, em Vila Pouca de Aguiar, em julho de 2012. Tratava-se de um rebanho de 50 cabras para pastorear uma área de 90 hectares. No concelho de Gavião, a Associação de Produtores Florestais da Freguesia de Belver, com mais de 500 associados, tem um rebanho com cerca de 250 cabras. O objetivo é, não só a limpeza das matas como o aproveitamento do leite para uma queijaria e a venda de cabritos para equilíbrio do efetivo.

Em março de 2019, numa plataforma de crowdfunding, surgiu uma campanha para a recolha de cinco mil euros para um rebanho de 30 cabras sapadoras na aldeia de Miro, e do concelho de Penacova.

Em maio de 2018, o secretário de Estado das Florestas, Miguel de Freitas, dizia, que, na gestão de combustível florestal, tinham sido limpos 1.386 quilómetros, através do programa das cabras sapadoras. Envolvia “mais de quatro mil animais e 39 projetos em todas as regiões do país para fazer a gestão de combustível” e cerca de 35 milhões de euros.

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